Dos golos anulados ao autogolo da redenção: UD Leiria opera reviravolta frente ao Aves SAD
O futebol tem destas ironias que desafiam qualquer guião pré-estabelecido. No Dr. Magalhães Pessoa, a UD Leiria passou por quase todos os estados de espírito imagináveis: da frustração de ver a bola entrar e a festa ser travada pelo apito, ao desalento de sofrer na primeira desatenção, até à explosão catártica de um triunfo arrancado a ferros (2-1) sobre o Aves SAD, em partida referente à 9.ª jornada da Liga 2.
A tarde prometia contornos de pesadelo para as cores da casa. Os unionistas entraram a mandar, empurrando o bloco contrário para junto da sua área e criando volume ofensivo suficiente para desbloquear o marcador bem cedo.
Aos 19 minutos, o grito de golo chegou a ecoar nas bancadas quando Loppy colocou o esférico no fundo das redes, mas a equipa de arbitragem descortinou posição irregular no lance — decisão que incendiou os ânimos e provocou forte contestação no banco leiriense.
Como tantas vezes acontece a quem perdoa na divisão de prata, a fatura cobrou-se com juros elevados. O Aves SAD vestiu o fato de equipa cínica e pragmática e, na primeira vez que apanhou a retaguarda contrária descompensada e aos papéis, Rodrigo Pinho serviu de bandeja Hiago Santos (26’), que não enjeitou a prenda para gelar o reduto do Lis.
O azar teimava em perseguir a equipa leiriense antes do descanso. Aos 41’, Marcelo ainda festejou de cabeça após cruzamento milimétrico de Juan Muñoz, mas o auxiliar voltou a estragar a festa leiriense ao assinalar que a trajetória em arco da bola tinha ultrapassado a linha de fundo antes do golpe letal.
Um intervalo agridoce, com a equipa mais perdulária e castigada pela própria desatenção em desvantagem injusta perante a frieza avense.
Asfixia, arte de Jaiminho e a infelicidade de Pinho
No regresso dos balneários, a toada acentuou-se. A UD Leiria entrou com o acelerador a fundo, encostou os nortenhos às cordas e transformou o meio-campo ofensivo numa verdadeira praça de armas. Faltava apenas clareza no último passe e serenidade na definição para furar o colete de forças montado pelos visitantes, confortáveis a gerir a magra vantagem num bloco baixo à espreita do contra-golpe.
A muralha forasteira, no entanto, acabou por ruir perante um rasgo de puro talento individual. Aos 73 minutos, Jaiminho sacou da cartola uma jogada magistral e ofereceu o merecido empate a Pablo Fernández, que só teve de fuzilar para dar justiça ao marcador e devolver a esperança à plateia.
O empate galvanizou em definitivo os leirienses e fez tremer os alicerces defensivos do Aves SAD, incapaz de sacudir a pressão sufocante.
E a cambalhota consumou-se ao minuto 86 com requintes de crueldade para os visitantes: na sequência de um livre lateral tenso desenhado a partir da esquerda, Rodrigo Pinho saltou para travar o ímpeto nas alturas de Marcelo e, num golpe infeliz de cabeça, acabou por desviar o esférico para a própria baliza...
Um desfecho com sabor a justiça poética para quem mais procurou e menos temeu o erro, premiando o inconformismo da UD Leiria com três pontos de ouro numa tarde de sofrimento até ao último suspiro.
Artigos Relacionados: