Novak Djokovic não poupou nas críticas ao atual sistema do ATP. IMAGO
Novak Djokovic não poupou nas críticas ao atual sistema do ATP. IMAGO

Djokovic arrasador em Wimbledon não poupa nas críticas

O sérvio recorda que o espetador médio da modalidade tem 61 anos e critica as duas semanas do Masters 1000, alertando para o aumento de lesões entre os jogadores

Após garantir a passagem à ronda seguinte de Wimbledon 2026, Novak Djokovic fez uma análise contundente ao estado atual do ténis, defendendo mudanças estruturais profundas na modalidade, desde o calendário ao funcionamento do circuito ATP.

A vitória sobre Wu Yibing foi apenas o mote para o que se seguiu na conferência de imprensa. O sérvio, sete vezes campeão em Londres, não poupou críticas ao rumo que o ténis está a tomar, mostrando-se particularmente preocupado com o crescente número de lesões e com a falta de unidade entre os organismos que regem o desporto.

Para Djokovic, o aumento das lesões é apenas um sintoma de um problema maior, impulsionado por interesses comerciais. «As estatísticas demonstram que há cada vez mais lesões e creio que devemos analisar isto de duas perspetivas. A primeira, que hoje domina claramente o nosso desporto, é a comercial», afirmou, criticando a saturação do calendário com torneios mais longos e novas provas.

O tenista reconheceu a sua posição privilegiada, mas solidarizou-se com os colegas. «Tenho o privilégio de escolher onde jogo e não estou tão exposto a esse calendário exigente como a maioria dos jogadores. Mas entendo perfeitamente as queixas de Carlos Alcaraz e de muitos outros quando dizem que passam demasiado tempo fora de casa. A mim também não me agrada», confessou.

«Creio que o ténis precisa de algum tipo de reset em grande escala. Os circuitos não estão a funcionar bem. Há muitas coisas a acontecer nos bastidores, demasiados conflitos entre os organismos que governam o nosso desporto e muito pouca unidade. Os Grand Slams serão sempre os pilares do ténis, mas os circuitos têm de repensar o calendário, os formatos e muitas das regras atuais. Temos de nos sentar todos os envolvidos e pensar no que é melhor para o futuro deste desporto».

Um dos pontos mais criticados por Djokovic foi o alargamento dos torneios Masters 1000 para duas semanas, uma medida à qual sempre se opôs. Segundo o sérvio, os principais beneficiados não foram os jogadores. «Sempre estive contra este formato. Do ponto de vista comercial, gera mais valor, sim, mas a pergunta é: valor para quem? Principalmente para os proprietários dos torneios», explicou.

Djokovic detalhou que, enquanto presidente do Conselho de Jogadores, tentou travar o acordo, mas sem sucesso. «Tentei explicar muitas vezes aos jogadores que deviam entender bem o contexto desse acordo de trinta anos porque, na realidade, não estavam a obter tantos benefícios como pensavam. Esses quatro dias adicionais geram muitíssimo mais dinheiro para os torneios do que para os próprios jogadores», lamentou, acrescentando que os jogadores só participam nas receitas durante as duas semanas do evento.

Outra preocupação central do antigo número um mundial é o envelhecimento do público. Djokovic defende a necessidade de inovar para atrair as gerações mais novas, sem desrespeitar a história da modalidade. «Há uns anos, a PTPA realizou um estudo que revelava que a idade média do adepto de ténis era de 61 anos. Com todo o respeito, precisamos de atrair um público muito mais jovem», alertou.

Na sua visão, a solução passa por experimentar novos formatos nos torneios do circuito. «Os jovens talvez vejam os Grand Slams, mas não se vão sentar quatro ou cinco horas todos os dias em frente a um jogo. A capacidade de atenção mudou. Na minha opinião, os torneios do circuito deveriam experimentar formatos mais dinâmicos, jogos de menor duração e propostas mais atrativas para o espectador. Os Grand Slams são outra história, mas fora deles devemos atrever-nos a inovar», concluiu.

Após a sua vitória sobre Wu Yibing em Wimbledon 2026, Novak Djokovic aproveitou a conferência de imprensa para se pronunciar sobre vários temas institucionais que marcam a atualidade do ténis mundial, para além de analisar a dura partida que acabara de disputar.

O tenista sérvio abordou o seu afastamento da Associação de Tenistas Profissionais (PTPA), organização que cofundou com Vasek Pospisil. Djokovic explicou que a sua saída se deveu a uma mudança de rumo com a qual não se identificava, mas não fecha a porta a um eventual regresso.

«A PTPA nasceu com a ideia de representar todos os jogadores, especialmente aqueles cuja voz nunca era ouvida», começou por explicar. «Sempre disse que a estrutura atual da ATP gera um conflito permanente porque jogadores e torneios muitas vezes têm interesses completamente diferentes. Estive muitos anos no Conselho de Jogadores e conheço perfeitamente como funciona o sistema. Como jogador, não podes mudar realmente as coisas por dentro.»

Foi essa constatação que levou à criação da PTPA. «Queríamos conseguir um assento na mesa onde realmente se tomam as decisões. Depois, aconteceram muitas coisas e a organização tomou uma direção com a qual, pessoalmente, não me sentia identificado. Por isso, decidi dar um passo ao lado», afirmou, acrescentando: «Não descarto voltar um dia, porque continuo a acreditar que uma organização assim é necessária e deve conviver com os restantes organismos do ténis. Neste momento, há muitos assuntos delicados em aberto e prefiro observar como tudo evolui.»

Noutro âmbito, Djokovic manifestou publicamente o seu desejo de ver Boris Becker, seu antigo treinador e amigo, de volta ao All England Club. O alemão continua impedido de entrar no Reino Unido.

«Falei com o Boris antes de Wimbledon e perguntei-lhe como estava a situação. Infelizmente, ainda não tem permissão para entrar no Reino Unido», lamentou o sérvio. «Adoraria voltar a vê-lo aqui. É uma autêntica lenda do nosso desporto, foi meu treinador durante uma das fases mais bem-sucedidas da minha carreira e, acima de tudo, é um grande amigo. Tem uma ligação muito especial com Wimbledon por tudo o que aqui conquistou. Espero sinceramente que as autoridades reconsiderem a sua situação e que ele possa regressar em breve.»

Apesar dos temas institucionais terem dominado a conversa, Djokovic fez questão de enaltecer o nível exibicional do seu adversário, Wu Yibing, descrevendo-o como um dos oponentes mais difíceis que já enfrentou no torneio.

«Pensava que podia fechar o jogo em três sets, mas de repente ele começou a jogar um ténis incrível. Sacava muito bem, respondia fundo, batia com muitíssima velocidade e, durante muitos momentos, não encontrava qualquer debilidade no seu jogo», analisou. «Eu também baixei um pouco o nível, mas foi porque ele me obrigou a fazê-lo com a sua consistência e agressividade. No quarto set, estive realmente contra as cordas. Sinceramente, provavelmente deveria ter perdido esse set. No final, encontrei bons serviços nos momentos importantes e tive um pouco de sorte em alguns pontos decisivos. Foi um daqueles jogos em que tens de cavar muito fundo para seguir em frente.»

Com estas declarações, Djokovic reafirmou o seu papel como uma das vozes mais influentes do circuito, questionando o rumo do desporto e apelando a uma reflexão profunda de todas as suas estruturas para garantir o crescimento e a ligação com as novas gerações.

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