Da distrital às meias-finais da Taça de Portugal: «Jamor é um sonho de criança»
Manu, guarda-redes de 27 anos, acabou a época passada no Freamunde, clube da sua terra, na AF Porto - Divisão de Honra, correspondente ao sétimo escalão do futebol português. Nem um ano depois, esteve na baliza do Fafe na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal.
O guardião começou a época no Campeonato de Portugal, ao serviço do Cinfães, onde fez seis jogos, mudando-se a meio da época para o Fafe. Oficializado a 3 de fevereiro como reforço, Manu acabou o encontro com o Torreense, no dia 4, na baliza, face à expulsão de João Gonçalo.
«Eu tinha chegado há um dia e apenas com um treino tive de me preparar mentalmente para entrar bem no jogo, o que nem sempre é fácil, muito menos num cenário em que estamos com um jogador a menos», revelou, em declarações a A BOLA.
Manu acabou por sofrer no primeiro lance e admitiu que teve de «fazer um reset» e «focar-se no jogo e no que podia para ajudar os colegas». O guarda-redes não jogava desde 9 de novembro, quando foi titular na deslocação do Cinfães ao terreno do Anadia, mas isso, confessou, «não fez diferença».
«Sabia que ia ser muito difícil e não podia ficar agarrado a um golo sofrido muito menos contra uma equipa que tem mais um jogador e vai fazer de tudo para atacar a baliza. A equipa soube gerir bem o jogo e com a maturidade que os meus colegas de equipa têm tornou-se mais fácil e, sinceramente, depois desfrutei do jogo e estava feliz e concentrado a fazer o que mais gosto», acrescentou, ainda sobre a partida da Taça de Portugal. Depois do apito final, Mário Ferreira, treinador do Fafe, destacou Manu.
«Fui treinado pelo mister Mário no Salgueiros e desde aí tenho um apreço muito grande por ele, foram tempos diferentes. Estamos os dois diferentes e com mais bagagem. Sei exatamente o que o mister espera de mim e ele também sabe que tudo farei para estar ao nível das expectativas, quer seja a nível coletivo quer individual. Estou muito motivado para poder ajudar o grupo excelente que encontrei no Fafe e em que fui muito bem recebido. Aos poucos começo a sentir-me integrado completamente», afirmou.
«Estar presente na final do Jamor é um sonho de criança»
Manu assume que chegar à final do Jamor é um «sonho se criança», assim como para os seus colegas, mas aponta o foco para a fase de manutenção da Liga 3.
«Claro que estar presente na final do Jamor é um sonho de criança e dos meus colegas também, sinto um grupo unido a procurar um sonho que é estar na final. Mas, neste momento, o meu foco e da equipa é a fase de manutenção da Liga 3, mesmo não sendo a fase onde o clube gostava de estar», afirmou.
«Voltei a casa com um propósito: ser campeão pelo clube da minha cidade»
Depois de algumas épocas no Campeonato de Portugal, no Valadares Gaia, Leça e Salgueiros, Manu decidiu descer três divisões e regressar a casa.
«Voltei a casa nessa época [2024/2025] com um propósito: ser campeão pelo clube da minha cidade e ajudar o Freamunde a escalar divisões. Aliás, foi isso que disse ao presidente na primeira conversa que tivemos», admitiu, acrescentando que «não foi uma decisão fácil de tomar».
«Lembro-me que os meus amigos e família chamavam-me maluco e achavam que eu ia ‘desistir’ da minha carreira ou que já não tinha motivação. Pelo contrário, eu queria desafiar-me e sabia bem para onde estava a ir, um clube como o Freamunde tem um peso muito grande, seja qual for a divisão em que esteja. Não era por, na altura, estar na Divisão de Honra que isso ia mudar», atirou.
«Tive dificuldades em adaptar-me numa fase inicial»
O início não foi fácil, uma vez que Manu «dava treino nos escalões de formação antes dos treinos dos seniores», que eram por volta das 20 horas.
«Já chegava a casa tarde para jantar. No dia seguinte de manhã estava a trabalhar num part-time e foi cansativo, mas olhava para o lado e via os meus colegas de equipa, que vinham de trabalhar oito horas e ficava admirado com a paixão com que vinham treinar. Isso dava motivação e unia o grupo em vários sentidos. Trabalhei muito durante a época, como se estivesse no Campeonato de Portugal, o que mentalmente não foi fácil. Tive dias em que queria desistir e repensava a minha decisão, mas sempre tive um apoio muito grande da minha família», disse. O Freamunde, na época passada, sagrou-se campeão da Divisão de Honra da AF Porto e garantiu a subida à Divisão de Elite, competição que está a disputar na presente temporada.
«O Cinfães foi uma surpresa positiva, um grupo de trabalho incrível»
No início da atual época, Manu subiu três patamares e regressou ao Campeonato de Portugal pela porta do Cinfães.
«Quando surgiu a proposta do Cinfães fiquei contente, porque sabia que tinha feito bem as coisas e tinha sido recompensado. O Cinfães foi uma surpresa positiva, um grupo de trabalho incrível, talvez dos melhores em que já estive inserido, um clube humilde, mas que faz de tudo para dar as melhores condições aos seus jogadores», comentou, sobre a chegada ao conjunto cinfanense.
Em Cinfães, Manu fez a estreia na receção ao Marco 09 (Liga 3), na primeira eliminatória da Taça de Portugal.
«Fizemos um bom jogo, muito competente e com oportunidades para a vitória. O jogo foi a prolongamento e, no último lance, eles vencem por 0-1. Ficou um sentimento agridoce, porque achávamos que podíamos ter ido mais longe na prova», referiu. Manu teve depois a oportunidade de assumir a baliza do Cinfães no Campeonato de Portugal, em Vila Meã, sob o comando de Pedro Hipólito, que tinha sucedido a António Oliveira - Luís Monteiro é o atual treinador do Cinfães.
«Apareceu a oportunidade de jogar para o campeonato com a chegada do mister Hipólito e agarrei essa oportunidade, sabendo que tinha de fazer bons jogos e, individualmente, dei o meu melhor para ajudar a equipa. Infelizmente, de forma coletiva, os resultados iam sendo instáveis, o que causou uma mudança de treinador», analisou, desabafando sobre uma «fase difícil» da sua vida.
«O meu pai descobriu uma doença oncológica e, sendo ele um dos meus alicerces, tive dias muito difíceis. Tive sempre o apoio da estrutura do Cinfães e dos meus companheiros de equipa durante a minha passagem no clube», enalteceu.
«Os meus objetivos pessoais passam pelo coletivo»
Olhando para o que resta da época, Manu confessa que os seus objetivos individuais estão ligados ao sucesso que o Fafe venha a ter.
«Se o Fafe chegar ao Jamor e garantir tranquilamente a manutenção os interesses de ambas as partes são alcançados, quer esteja a jogar, no banco ou na bancada. Vim para ajudar o grupo de trabalho e nada vai estar acima do coletivo, vou trabalhar diariamente para estar ao nível das exigências, acredito que se todos estivermos a 100%, o grupo será mais forte que qualquer outra equipa», apontou.
«É legítimo sonhar com uma Segunda ou Primeira Liga»
Aos 27 anos, Manu sonha com uma chegada ao segundo ou primeiro escalão do futebol português, destacando que nunca foi de desistir.
«Os guarda-redes têm na maioria das vezes uma carreira mais longa que os restantes jogadores e acredito que assim será a minha e vou prolongá-la até quando o corpo me deixar. Sinto que a cada ano que passa fico mais maduro a nível profissional, entendo cada vez melhor o jogo e sinto-me cada vez mais calmo e frio em momentos de alta tensão que são importantes para tomar decisões como guarda redes», começou por apontar.
«Acho que é legítimo sonhar com uma Segunda ou Primeira Liga, nunca fui de deitar a toalha ao chão. Mesmo quando as odds eram muito baixas, o futebol é o momento e com trabalho, profissionalismo, seriedade e dedicação, nada é impossível», completou.