Da celebração ao pesadelo em Setúbal: nadadoras de elite hospitalizadas após Taça do Mundo
Já por três vezes palco da qualificação olímpica (Londres-2012, Rio de Janeiro-2016, Tóquio-2020) para os 10 km em águas abertas, no passado fim de semana a Baía de Setúbal, diante da Praia de Albarquel, voltou a receber mais uma edição da Taça do Mundo de maratonas aquáticas. A 18.ª em 20 anos e, desta feita, a encerrar, como 4.ª etapa, o circuito mundial organizado pela World Aquatics.
A prova foi ganha, no sábado, pela australiana Moesha Johnson, que veio a confirmar a vitória igualmente no circuito, seguida pelas húngaras Bettina Fábián e Viktoria Mihalyvari-Farkas. Nos masculinos, o também magiar David Betlehem, bronze nos Jogos de Paris-2024, foi o mais rápido à última braçada face aos franceses Sacha Velly e Marc-Antoine Olivier. Neste caso, Betlehem teve igualmente a oportunidade de uma dupla comemoração.
Contudo, este momento de celebração tornou-se num pesadelo a partir da noite de domingo (dia em que também houve competições) e sobretudo de segunda-feira. Principalmente para as nadadoras de elite que haviam estado em ação sábado de manhã (10h), com a maré a vazar. Muitas tiveram sérios problemas intestinais e entre sete a uma dezena das 48 participantes (terminaram 36) acabaram por ter de ser assistidas no hospital para receber soro.
Passei uma noite inteira a vomitar, deitada no chão! Querida World Aquatics, há anos que lutamos com a má qualidade da água nas competições. Onde está a proteção para os atletas?
Entre os homens (55 inscritos, dos quais terminaram 50), que nadaram os 10 km à tarde (16h), houve quem sentisse desarranjos semelhantes, mas não tão fortes. No entanto, partilhavam a coincidência de terem nadado, no domingo, a prova sprint knockout (3 km) juntamente com as mulheres. Podia tratar-se de uma intoxicação alimentar, mas as várias seleções estavam espalhadas por três hotéis diferentes, onde tomavam as refeições, e as afetadas não se encontravam todas no mesmo.
Preparei-me para Setúbal com probióticos, mas ainda estou doente sem parar desde segunda-feira, tenho febre alta e durmo ao lado da casa de banho.
Na terça-feira, a italiana Ginevra Taddeucci (5.ª classificada) relatou nas suas redes sociais o que vivera: «Passei uma noite inteira a vomitar, deitada no chão! Querida World Aquatics, há anos que lutamos com a má qualidade da água nas competições. Onde está a proteção para os atletas?»
Já a francesa Ines Delacroix utilizou a sua página para desabafar: «Adoecer devido à qualidade da água uma semana antes dos campeonatos nacionais não era exatamente o que tinha imaginado! Preparei-me para Setúbal com probióticos, mas ainda estou doente sem parar desde segunda-feira, tenho febre alta e durmo ao lado da casa de banho».
«Olá, Federação Mundial de Natação, talvez a água parecesse boa, mas notaram quantas mulheres adoeceram depois de competir? Talvez seja hora de reconsiderar os locais dos eventos e ter mais atenção à qualidade da água», escreveu o alemão Florian Wellbrock, campeão olímpico em Tóquio-2020, apontando ao facto de a World Aquatics ter confirmado Setúbal como etapa da Taça do Mundo por mais quatro anos.
Para o selecionador germânico, Bernd Berkhahn, em declarações ao Bild, o problema foi a água ter sido controlada 48 horas antes da competição, numa zona conhecida pelo tráfego naval. «Os grandes navios descarregam as suas casas de banho e outros resíduos diretamente na água», explicou.
Entre as nadadoras nacionais, Angélica André (12.ª), duas vezes olímpica e medalha de bronze mundial em Doha-2024, apenas sentiu alguns desarranjos intestinais, pior ficaram colegas da equipa do FC Porto. Mas Carolina Viana (33.ª), do Sporting, esteve com diarreia e vómitos e febre, que a fizeram perder 2 kg, tendo acabado por ter de ir ao hospital. E no próximo fim de semana tem o Nacional de 5 km em Castelo do Bode.
A BOLA falou com o presidente da Federação Portuguesa de Natação, Miguel Arrobas, que esteve no fim de semana em Setúbal. No domingo, não só competiu numa prova aberta que contou com mais de 100 nadadores, como esteve mais tempo dentro de água em filmagens para uma travessia que está a preparar. Sem ter sentido qualquer sintoma, o dirigente explicou o procedimento das análises regulamentares.
Teoricamente terá sido alguma coisa no sábado de manhã, mas a federação, a Câmara de Setúbal e a organização cumpriram todos os trâmites para este tipo de provas. Particularmente as análises à água exigidas pela World Aquatics.
«Que saibamos, até porque nenhuma federação entrou em contacto com a FPN, foram algumas nadadoras as afetadas, mas só mulheres e que nadaram no sábado. Toda a gente que nadou no domingo, inclusive eu, não sentiu nada. Teoricamente terá sido alguma coisa no sábado de manhã, mas a federação, a Câmara de Setúbal e a organização cumpriram todos os trâmites para este tipo de provas. Particularmente as análises à água exigidas pela World Aquatics — três meses, um mês e dois dias antes — foram feitas pela autarquia e todas deram a água em condições, numa praia com Bandeira Azul. Não havia qualquer problema», começou por contar.
«Tudo se fez para que as normas fossem cumpridas e até perguntei à Câmara se haviam acontecido descargas na zona ou um descuido qualquer, mas ainda não conseguimos apurar a origem do que provocou os problemas às atletas. Se é que essas causas vieram dali», diz.
Em 18 edições, em 20 anos, apenas tínhamos tido um problema em 2011 ou 2012 por causa de umas chuvas uns dias antes, que afetou a qualidade das águas, mas nada com esta dimensão.
«Nos dois dias havia centenas de pessoas na praia, ali mesmo ao lado, mas não sei se também aconteceu a mesma situação com algumas dessas pessoas. Em 18 edições, em 20 anos, apenas tínhamos tido um problema em 2011 ou 2012 por causa de umas chuvas uns dias antes, que afetou a qualidade das águas, mas nada com esta dimensão. Devemos pautar-nos sempre pela qualidade, só que há coisas que não conseguimos controlar», acrescentou Arrobas.
Com alguns nadadores, como o italiano Gregorio Paltrinieri, cinco vezes medalhado olímpico, a aproveitar também para protestar por não gostar de competir em águas mais frias. «A qualidade da água é um problema, a temperatura da água é um problema e nada muda. Mais de 10 atletas estão doentes, alguns no hospital», postou), a húngara Bettina Fábián (2.ª em ambas as provas) foi quem acabou por escrever mais sobre o seu sofrimento. A atleta, quatro vezes medalhada em Mundiais e 5.ª nos Jogos de Paris, esteve no hospital a soro desde segunda-feira.
Algumas horas depois de chegar a casa de uma prova da Taça do Mundo da World Aquatics, senti-me tão mal que tive de ser levada para o hospital, onde precisei de tratamento por via intravenosa durante sete horas.
«Algumas horas depois de chegar a casa de uma prova da Taça do Mundo da World Aquatics, senti-me tão mal que tive de ser levada para o hospital, onde precisei de tratamento por via intravenosa durante sete horas. Desde os Jogos Olímpicos de Paris — quando nadei no Sena — que não me sentia tão mal. Isto não se resume apenas a mim. Não é a primeira vez que atletas acabam no hospital após uma competição realizada neste local».
«A World Aquatics organiza estas competições e é responsável pela nossa segurança, mas parece que a questão da qualidade da água continua a ser tratada como um aspeto secundário. Estamos fartos de ter de arriscar a nossa saúde repetidamente. A nossa saúde não é brincadeira. Não é um detalhe secundário e não deveríamos de ter de repetir isto sempre. O nosso desporto não deveria ganhar visibilidade através de escândalos.»
Depois das experiências que tive lá, da infeção que sofri e dos acontecimentos recentes, não estou disposta a arriscar a minha saúde mais uma vez. Não vou competir no Sena.
Bettina, de 21 anos, adianta mesmo que, em agosto, não pretende ir ao Europeu a ser disputado nas águas do Sena, tal como aconteceu nos Jogos em Paris-2024, onde acabou hospitalizada devido à poluição.
«Depois dos Jogos Olímpicos de Paris, acreditei sinceramente que o nosso desporto tivesse aprendido com o que aconteceu lá. No entanto, a European Aquatics decidiu que as provas em águas abertas do Campeonato da Europa deste ano se realizariam no Sena. Depois das experiências que tive lá, da infeção que sofri e dos acontecimentos recentes, não estou disposta a arriscar a minha saúde mais uma vez. Não vou competir no Sena», finalizou.