Competir sob fogo: o desporto em tempo de guerra
Há algo de paradoxal — e profundamente humano — na persistência da competição desportiva em tempo de guerra. Enquanto o mundo se fragmenta sob o peso da violência, atletas entram em campo, treinadores preparam jogos, famílias acompanham, de perto, ou à distância. Não se trata de uma suspensão ingénua da realidade, nem de um gesto fútil: trata-se, antes, de um fenómeno denso, onde se cruzam pulsões, identificações e tentativas — sempre precárias — de preservar o laço social.
A guerra não é um acidente da história, mas uma possibilidade estrutural da condição humana, inscrita na tensão entre Eros e Tanatos — conceitos freudianos que designam, respectivamente, a pulsão de vida (ligada à criação, à ligação, ao amor e à construção de laços) e a pulsão de morte (associada à agressividade, à destruição e à tendência para a desagregação).
Neste enquadramento, o desporto emerge como um espaço ambivalente: tanto pode ser capturado pela lógica da guerra — propaganda, afirmação identitária, exaltação nacional — como pode funcionar enquanto dispositivo de contenção simbólica da violência.
É, precisamente, esta ambivalência que hoje se torna visível no contexto desportivo face aos conflitos do Médio Oriente.
Entre a destruição e o laço
Para muitos atletas que competem em contextos marcados pela guerra — ou que representam países envolvidos em conflitos — o jogo deixa de ser apenas jogo. A competição adquire uma espessura psíquica acrescida: joga-se por si, mas também por uma comunidade ameaçada, por uma identidade ferida, por uma tentativa de continuidade, face à ruptura.
Do ponto de vista psicanalítico, o campo desportivo pode ser entendido como um espaço de sublimação — um processo através do qual impulsos agressivos ou destrutivos são transformados em actividades socialmente valorizadas e reguladas, como o desporto. A agressividade — inerente à pulsão de morte — encontra aí uma via de expressão enquadrada por regras e limites. Aquilo que, na guerra, se manifesta como destruição directa, pode, no desporto, ser metabolizado sob a forma de confronto competitivo.
Mas esta transformação não elimina a violência: desloca-a.
Os treinadores, por seu lado, ocupam uma posição particularmente delicada. São convocados a sustentar um enquadramento — táctico, emocional, simbólico — num contexto em que o próprio mundo parece perder integração. Preparar um jogo, insistir na disciplina, na repetição e na estratégia, pode assumir um valor quase ritual: uma tentativa de manter a ordem onde reina o caos.
E, no entanto, esse esforço é atravessado pela realidade externa. Há famílias em risco, há notícias constantes, há a guerra em directo — esse fluxo contínuo de imagens que infiltra o psiquismo e dissolve as fronteiras entre perto e longe, criando a sensação de que o conflito está, simultaneamente, distante e íntimo.
Depende, também, das geografias concretas — e da forma como a guerra irrompe no quotidiano. No Bahrein, a situação esteve bastante complicada: treinadores tiveram de interromper entrevistas e treinos para se refugiarem em caves, ao som de sirenes. No Catar, a vida começa a retomar alguma normalidade; na Arábia, aos poucos, também. Mas houve momentos de ansiedade intensa, com atletas e treinadores sem saberem o que iria acontecer: jogos à porta fechada, pessoas a abandonar o país, incerteza sobre o futuro.
Noutro cenário, um guarda-redes treina à noite, sob luz artificial, não por opção táctica, mas porque durante o dia o céu é cortado por ruídos que não pertencem ao futebol. Cada mergulho no relvado traz consigo um sobressalto invisível. No
balneário, fala-se do próximo adversário — mas os telemóveis vibram com mensagens da família.
As famílias: entre orgulho e angústia
Não podemos pensar os atletas sem pensar nas suas famílias. Em contextos de guerra, estas vivem numa tensão constante: por um lado, o orgulho na representação, na continuidade da vida; por outro, a angústia perante a vulnerabilidade real.
A Psicanálise lembra-nos que a morte do semelhante — daquele que está investido afectivamente — é a que nos abala e produz luto. Neste sentido, cada jogo pode carregar, de forma latente, a ameaça da perda. O atleta em campo não é apenas um profissional: é filho, irmão, pai.
Há mães que assistem aos jogos com o som desligado, para evitar a sobreposição com sirenes reais. Há filhos que perguntam se o jogo do pai «também pode ser cancelado pela guerra». Há famílias que celebram vitórias com um alívio que ultrapassa o resultado — como se, por 90 minutos, tudo tivesse permanecido intacto.
Desporto como ilusão — e como necessidade
Há quem veja na continuidade das competições uma forma de negação — uma recusa de encarar a gravidade da guerra. Essa leitura não é totalmente infundada. A negação é um mecanismo psíquico activado em contextos de trauma.
Contudo, reduzir o fenómeno a isso seria simplista.
O desporto pode funcionar como uma ilusão necessária — uma construção simbólica que permite sustentar o desejo, a esperança e a continuidade psíquica. Em tempos de desagregação, manter rituais, calendários e competições pode preservar um sentido de normalidade e ligação ao futuro.
É também por isso que, historicamente, o desporto nunca desaparece, mesmo em tempo de guerra: transforma-se, adapta-se, mas persiste.
Um avançado entra em campo e, por instantes, o mundo reduz-se à bola nos pés. Não porque a guerra tenha desaparecido — mas porque, naquele gesto, ela é suspensa.
Narcisismo, identidade e conflito
Outro aspecto crucial prende-se com o modo como o desporto pode amplificar identificações colectivas. Em contextos de conflito, intensifica-se o «narcisismo das pequenas diferenças»: pequenas distinções tornam-se motivo de rivalidade e agressividade.
A competição pode tornar-se palco de projecções e discursos de ódio, prolongando, simbolicamente, o conflito. O campo deixa de ser apenas espaço de jogo para se tornar prolongamento simbólico do conflito.
Todavia, pode também oferecer momentos de suspensão — breves, frágeis — onde o outro volta a ser reconhecido como adversário e não como inimigo.
Num desses momentos, dois jogadores trocam a camisola no final do jogo. O gesto é simples, mas, naquele contexto, torna-se quase subversivo.
Uma ética da lucidez
A Psicanálise não julga, é amoral; procura compreender.
Compreender que, em tempo de guerra, competir é sempre mais do que competir. É tentar manter algo do humano, quando o humano está ameaçado. É dar forma simbólica à destrutividade.
Pensar, psicanaliticamente, é um acto ético e político: implica não ceder à simplificação, nem à ilusão de que a violência pertence apenas ao Outro. Ela atravessa-nos.
O desporto em tempo de guerra, revela, precisamente, isso: a coexistência, em cada sujeito, e em cada colectivo, da destrutividade e da possibilidade de ligação.
A paz absoluta é impossível. Porém, entre a guerra total e a sua repetição há um espaço — frágil, incerto — onde o jogo ainda pode existir.
E talvez seja nesse espaço que, hoje, se joga no jogo algo de essencial.