Com Estrelinha! Foram precisos três desejos para a salvação (crónica)
Um Estrela a ameaçar ser cadente salvou-se no último suspiro. Onde é que esta história já se viu?
Após uma época de sofrimento há um ano, com a permanência assegurada apesar de uma derrota na última jornada, graças a uma conjugação favorável de resultados, o Estrela da Amadora desejou continuar com José Faria como treinador.
O elemento que até tinha sido uma opção de recurso que estava mesmo ali à mão, uma vez que era diretor desportivo do clube, viu a confiança renovada para começar a nova época, mas durou apenas cinco jornadas até ser despedido após duas derrotas e três empates.
Depois disso, o clube da Amadora desejou muito ter João Nuno, que estava a fazer um belo trabalho no Belenenses, na Liga 3, razão pela qual o clube do Restelo lutou para o manter.
Não valeu de nada. O chamamento da Liga falou mais alto, o Estrela pagou e cumpriu o desejo de ter João Nuno no banco.
Só que foi um desejo fugaz. Cinco vitórias e seis empates não foram suficientes para que o segundo treinador da época se aguentar no cargo mais do que 25 jogos.
Com três jogos por disputar para assegurar a permanência, o Estrela desejou, então, chamar Cristiano Bacci para o efeito. Um treinador que tinha sido despedido pouco mais de um mês antes do Tondela, onde conseguira três vitórias em 16 jogos, e deixara a equipa beirã em posição de descida.
Tantos desejos podiam ter saído caro ao conjunto tricolor que, ainda assim, dependia apenas do que fizesse para assegurar a permanência na Liga. E que até se colocou a vencer logo aos 6’ frente ao SC Braga, graças a um golo de Lekovic, defesa central que se impôs numa segunda bola, após livre lateral.
Só que dez minutos depois, Gabri Martínez empatou a partida, na recarga a um remate de João Moutinho que Renan Ribeiro defendeu de forma incompleta. E depois seguiu-se um claro domínio do bracarense, que queria terminar a época da melhor forma e tomou conta da bola para isso.
O golo da reviravolta surgiu aos 90’, num penálti de Pau Víctor, que parecia condenar o Estrela a cair na zona de play-off.
Porém, Jovane Cabral tinha outra ideia. Logo a seguir, tentou de livre direto e viu o estreante João Carvalho desviar para o poste. E aos 90+6, na última jogada, quando já poucos acreditavam, teve a clarividência de entrar na área e ler de forma perfeita onde tinha de colocar a bola para Lekovic empurrar de pé esquerdo para a baliza, fazendo o bis e soltando a festa na Amadora.
Foi preciso Estrelinha. Mas Bacci, mesmo sem ganhar qualquer jogo dos três que teve, revelou-se um desejo que cumpriu. E com dois empates agarrou os tricolores à Liga.
Outra vez à tangente. Apenas com uma vitória nos últimos 13 jogos. Com os mesmos pontos que o Casa Pia, que vai ter de lutar pela permanência no play-off.
Certo é que ninguém viu o Estrela cadente. Mas talvez seja preciso cuidado com o que se deseja no futuro.
Tinha de ser ele. Não que tenha o hábito de ser decisivo. Aliás, nem tinha marcado ainda com a camisola dos tricolores, antes de bisar de forma decisiva agora. Mas num jogo decidido com tamanha estrelinha, faz algum sentido ter tido como protagonista um jogador formado e cedido pelo Estrela Vermelha ao Estrela da Amadora.
NOTAS DOS JOGADORES DO ESTRELA: Renan Ribeiro (5); Luan Patrick (5), Lekovic (7) e Otávio (5); Encada (6), Paulo Moreira (6), Doué (6) e Bruno Langa (6); Marcus (5), Van Hooijdonk (5) e Ianis (5); Jovane (7), Robinho (5), Antonetti (5), Kevin Jansson e Jorge Meireles (-).
Jogar simples parece sempre tão fácil nos pés do médio internacional português. Tem 39 anos mas continua com tanto futebol e tanta classe no corpo. É ele quem faz a gestão dos tempos no futebol dos arsenalistas e foi de um remate dele nasceu o golo do empate, marcado por Gabri Martínez na recarga após uma defesa incompleta de Renan.
NOTAS DOS JOGADORES DO SC BRAGA: Lukas Hornicek (5); Lagerbielke (6), Paulo Oliveira (6) e Moscardo (6); Víctor Goméz (6), Moutinho (7), Luísinho (6) e Gabri Martinez (6); Pau Víctor (7), Fran Navarro (6) e Ricardo Horta (5; Leonardo Lelo (6), Gorby (5), João Carvalho (6), António Gil (5) e Jonatás Noro (-)..
Cristiano Bacci, treinador do Estrela
«É uma mistura de emoções. Isto não é por acaso. Nós merecemos. Quero agradecer mesmo a todos, que me acolheram como um deles na família. Encontrei mesmo malta da pesada. Por isso merecemos isto. Continuar? O Estrela é um clube que tem alma. Por isso aceitei este desafio, mas vamos ver com calma. Agora temos de aproveitar este momento. Aceitar um desafio como este não era fácil, só um maluco como eu o podia fazer. Foi normal fazer isto [chorar após o fim do jogo], foi emoção pura, e eu sou assim, puro, o que se viu sou eu, não tenho outra cara.»
Carlos Vicens, treinador do SC Braga
«Gostaria de ter terminado a época com uma vitória, controlámos a maior parte do jogo, mas chegámos com menos energia a este jogo. Não conseguimos traduzir o domínio em muitas ocasiões, mas suficientes para ganhar o jogo. Não pôde ser e temos que nos confrontar com o empate. Aproveitámos também para ver vários jovens a competir. Foi a primeira temporada em Braga e estou feliz de fazer parte deste clube, desta cidade e de treinar este grupo de jogadores.»