Hakimi celebra com o guarda-redes Bono a passagem de Marrocos à final da  CAN
Hakimi celebra com o guarda-redes Bono a passagem de Marrocos à final da CAN

CAN-2025: fez-se justiça da marca dos 11 metros

Regresso às meias-finais da última edição da CAN por Acácio Santos, ex-adjunto de José Peseiro na seleção da Nigéria

Nas minhas meias-finais na CAN 2024, frente à África do Sul, ao serviço da Nigéria, o jogo levou-nos até às grandes penalidades. É um território especial. Um território onde já não existe plano tático que resolva tudo, nem organização coletiva que substitua a clareza individual. Noventa minutos de tensão controlada, prolongamento vivido no limite e, depois, o momento mais cru do futebol.

Enquanto treinador, sei que os penáltis começam a ser decididos muito antes do apito final. Decidem-se na forma como o grupo é preparado emocionalmente, na confiança que se constrói ao longo do torneio e na leitura que se faz de cada jogador. Quem está preparado aceita o momento. Quem não está sente-o como um peso.

Desde o primeiro dia de estágio, treinámos penáltis de forma sistemática. Registámos todo: executantes, taxas de sucesso, comportamento antes da execução, tempo de preparação, reação após marcar ou falhar. Nada foi deixado ao acaso. Analisámos também ao pormenor os padrões de marcação dos jogadores da África do Sul e partilhámos essa informação com os nossos guarda-redes. Não para sobrecarregar, mas para dar referências claras. Quando o momento chegou, não houve improviso — houve reconhecimento.

O Stanley Nwabali é um craque a defender penáltis, mas sobretudo pela forma como se prepara. Nos treinos, nos momentos competitivos de penáltis, não queria ir embora. Desafiava os melhores marcadores — Lookman, Osimhen, Moses Simon, Iwobi. Procurava dificuldade. Procurava pressão. Cada penálti defendido ou sofrido era mais uma leitura acumulada. É assim que se constrói confiança real. Não no discurso, mas na repetição competitiva.

Neste Marrocos-Nigéria, o elemento de pressão estava claramente do lado marroquino. Jogavam em casa. Estádio cheio. Expectativa nacional elevada. Jogar em casa dá energia, mas retira margem para errar. Cada passe falhado pesa mais, cada minuto sem golo aumenta a ansiedade coletiva.

A emoção é extrema. Para os jogadores, para o banco, para o treinador. Surge uma sensação difícil de explicar: a de pouco controlo. O plano está feito, o trabalho está realizado, mas o jogo entra numa dimensão de 50/50 na sua máxima expressão.

E aqui entra a imprevisibilidade. Desta vez, foi Bono quem deu continuidade a um jogo globalmente mais competente de Marrocos e acabou por ser decisivo. A Nigéria competiu até ao fim, mas Marrocos foi, no cômputo geral, a melhor equipa em campo e venceu com justiça.

No outro jogo, o Senegal foi superior e também merece estar na final. Controlou o ritmo, impôs intensidade e mostrou maturidade competitiva para lidar com um jogo de altíssima pressão.

O futebol de seleções é isto. Duro. Imprevisível. Exigente.

Chegar a uma final não é para todos. Nós conseguimos.