Campeã do mundo de râguebi revela luta contra a dismorfia corporal
A estrela da seleção inglesa de râguebi, Ellie Kildunne, revelou ter sofrido de distúrbios alimentares e dismorfia corporal durante o confinamento provocado pela pandemia de covid-19. A atleta de 26 anos, uma das figuras principais na conquista do Campeonato do Mundo pelas Red Roses no ano passado, decidiu partilhar a sua história para encorajar outras pessoas a procurarem ajuda.
Apesar do sucesso em campo, que incluiu cinco ensaios no Mundial — um dos quais um esforço individual notável na final contra o Canadá, perante 82 mil espetadores no Allianz Stadium —, Kildunne sentiu-se vulnerável longe dos grandes palcos. O isolamento da equipa e a ausência de objetivos claros levaram-na a desenvolver comportamentos autodestrutivos.
«As nossas vidas como atletas são rodeadas de controlo», explicou à BBC Sport. «Temos de atingir certas métricas no GPS, procuramos pesos no ginásio, tentamos marcar o ensaio, o golo, o que for. Quando isso nos é retirado, penso que tentei encontrar essa sensação de controlo noutros lugares».
Durante o confinamento, Kildunne integrava a equipa de sevens da Grã-Bretanha, que treinava para os Jogos Olímpicos, entretanto adiados para 2021. Sem acesso ao ginásio e aos treinos de equipa, e com o futuro desportivo incerto, a atleta focou-se na corrida e, simultaneamente, começou a comer menos. Quando não conseguia controlar a alimentação, compensava com exercício físico, chegando a sair para correr para «merecer» uma refeição.
It's Ellie Kildunne's world, we're just living in it 🌍
— Rugby on TNT Sports (@rugbyontnt) December 20, 2025
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«Provavelmente via-me a ficar um pouco mais pequena, mas continuava a querer ficar ainda mais pequena», recordou. «A dismorfia corporal é uma coisa tão estranha, porque eu estaria pequena, mas via-me maior ao espelho. Parece estúpido agora, e quando olho para trás não sei porque o fiz. Mas acabei por ter uma péssima relação com a comida».
As consequências físicas não tardaram a surgir. Ao regressar aos treinos, Kildunne sofreu uma fratura de stress no joelho, que atribui à falta de massa muscular para suportar a intensidade do desporto. No ginásio, os seus membros tremiam involuntariamente ao tentar levantar pesos. «Era simplesmente porque não tinha energia. Não tinha nada em mim para me alimentar», acrescentou.
A transição de sevens para a variante de quinze expôs a sua falta de potência e confiança no contacto físico. «Sempre que tocava na bola, arrancavam-ma ou era completamente abalroada. Não conseguia fazer as placagens e não tinha confiança para isso. Por isso, comecei a usar ombreiras, para me sentir um pouco maior e mais forte».
“I just felt like it was time for me to speak up because that could give someone else the courage for them to speak up as well” 🗣️
— BBC Sport (@BBCSport) April 15, 2026
Ellie Kildunne has opened up about her experience of living with body dysmorphia. pic.twitter.com/jaYSKuGqBH
O ponto de viragem aconteceu durante uma sessão de fisioterapia no seu antigo clube, os Wasps. A fisioterapeuta Emily Ross, que já a conhecia da seleção de sevens, perguntou-lhe se estava bem noutras áreas da sua vida. «Desatei a chorar, provavelmente porque estava à espera que alguém me dissesse isso», confessou Kildunne. «Sabia que tinha um problema, mas era algo que nem sequer estava a tentar parar. Mas assim que se diz algo em voz alta a alguém, isso cria responsabilidade».
A conversa com Ross foi o início da sua recuperação. Kildunne, que agora joga nos Harlequins, foi diagnosticada com PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) no início de 2025, uma condição que, segundo ela, pode levar à distração e a não priorizar a alimentação como deveria.
Atualmente, a atleta encara a comida como combustível para o seu desporto e adota medidas proativas, como comer sem distrações e alertar os nutricionistas da equipa para lhe darem especial atenção. «Penso que é um processo contínuo», concluiu. «Não diria que tenho uma má relação com a comida agora, mas é algo de que temos de estar sempre conscientes, porque tenho esses hábitos algures».
A questão da imagem corporal e da relação com a comida no râguebi feminino foi novamente destacada, desta vez por Kildunne, que se junta a outras atletas na partilha das suas experiências. Com o lançamento do seu livro na semana passada, a jogadora inglesa espera ajudar outras pessoas que enfrentam lutas semelhantes.
"She’s prepared to try things differently or think outside the box - and 90% of the time it comes off"
— Times Sport (@TimesSport) February 5, 2026
Read @RachaelBurf12's tribute to Ellie Kildunne, the Sunday Times Sportswoman of the Year 2025 🔽https://t.co/mVQ5zQW2ln
Kildunne não é a primeira a abordar este tema sensível. Ilona Maher, centro da seleção dos Estados Unidos e um fenómeno nas redes sociais, descreveu em agosto à BBC a sua relação com a comida como uma «batalha interminável» para equilibrar as pressões dos ideais sociais com o conforto que a alimentação proporciona.
Também Sarah Bern, colega de equipa de Kildunne na seleção inglesa e que na época passada jogou ao lado de Maher no Bristol Bears, tem falado abertamente sobre as suas dificuldades com a imagem corporal, especialmente durante a adolescência. Bern e Kildunne fizeram parte da campanha da Inglaterra no Campeonato do Mundo de Râguebi Feminino de 2025, realizado em casa.
Bern revelou sentir-se «totalmente impressionada» com as reações que recebe de raparigas e mulheres à sua história. «Não quero que uma versão mais nova de mim ou qualquer rapariga cresça a pensar que tem de se restringir, ou ser controladora ou obsessiva no que faz para se sentir bonita», afirmou.
That connection with the fans.🙌
— BBC Sport (@BBCSport) March 23, 2025
Sarah Bern shared a great moment with the England fans after their win! pic.twitter.com/7jk4ChUzLT
A atleta partilhou o impacto das suas palavras: «Quando partilho a minha história, muitas mulheres vêm ter comigo e dizem: 'Se eu tivesse tido um modelo como tu, ter-me-ias poupado tantos anos em que lutei muito, ou talvez fosse mais confiante agora. Ou tenho jovens a dizer: 'Salvaste-me literalmente a vida'».
Inspirada por este impacto, Kildunne pretende usar a sua plataforma para o mesmo fim. «Sinto que agora estou no controlo, que posso falar sobre algo sem que isso me afete», explicou. «Finalmente comecei a perceber a influência que posso ter sobre outras pessoas e quero fazer mais do que tenho feito, porque acredito mesmo que posso ajudar.»
A jogadora inglesa concluiu, sublinhando a importância de mostrar vulnerabilidade: «Visto de fora, tudo parece perfeito, e eu quero mostrar às pessoas que ninguém é perfeito. Só porque sou uma jogadora de râguebi de Inglaterra não faz de mim uma super-heroína. Quero criar uma ligação com pessoas que talvez estejam a passar por coisas semelhantes e dar-lhes aquela amiga e aquele apoio de que eu provavelmente precisei».