Mundial
Mundial
Brilha no Mundial e antiga glória do Benfica recorda: «Dei logo o aval para a contratação»
Vozinha é um dos grandes nomes destes primeiros dias do Mundial. O guarda-redes foi um dos baluartes do histórico empate (0-0) alcançado por Cabo Verde frente a Espanha, ontem, na 1.ª jornada do Grupo H, e multiplicam-se as histórias em redor do dono da baliza dos Tubarões Azuis.
Aos 40 anos (!), Vozinha realizou uma exibição absolutamente sensacional diante do atual campeão da Europa em título e Cabo Verde espantou o planeta com o empate imposto a um dos principais candidatos à conquista deste Mundial.
O guarda-redes representa, atualmente, o Chaves, clube que defende há duas temporadas, mas antes disso tinha vestido as camisolas de Trencin (Eslováquia) e AEL Limassol (Chipre). Recuemos, então, ainda mais e viajemos à época 2016/2017. A razão? Foi a estreia de Vozinha no futebol português. Na altura, ao serviço do Gil Vicente.
Os galos eram orientados pelo histórico Álvaro Magalhães e A BOLA esteve à conversa com a antiga glória do Benfica e da Seleção Nacional para uma análise profunda do jogador, mas também do homem. Sim, porque Álvaro Magalhães não poupa nos elogios a Vozinha. E recorda como se deu a chegada do guarda-redes ao Minho.
«Eu já tinha conhecimento do futebol cabo-verdiano, porque já tinha estado lá a realizar jogos particulares. Sempre segui muito o mercado africano. No Gil Vicente precisávamos de contratar um guarda-redes e experiente, de preferência. Quando me foi indicado o Vozinha, eu dei logo o aval. Houve até alguma desconfiança de algumas pessoas devido à idade do Vozinha, mas a verdade é que eu precisava dessa experiência na baliza porque tínhamos uma equipa muito jovem. Eu já o conhecia bem e não tive dúvidas nenhumas em contratá-lo. A verdade é que o Vozinha adaptou-se na perfeição. Quando ele chegou a época já tinha começado, mas eu tive uma conversa particular com ele e preparei-o para ser titular. Depois, quando entrou na equipa, num jogo com a Académica, foi uma surpresa para muitas pessoas, mas eu sabia bem o que estava a fazer. O Vozinha trabalhava muito, à imagem, de resto, de quase todos os jogadores africanos. Acabou por nos ajudar a fazer uma época tranquila», lembra, numa caminhada em que o Gil Vicente pontificou na Liga 2.
As palavras de apreço do antigo lateral-esquerdo que fez história no futebol português não ficaram por aqui. Álvaro Magalhães abre o livro relativamente à forma como lançou Vozinha na equipa do Gil Vicente e confessa que falou, ontem, com o guarda-redes, felicitando-o pela magnífica prestação que realizou na estreia absoluta de Cabo Verde na fase final de um Mundial. E ainda lhe deixou um pedido: «Espero que não pense em deixar de jogar futebol tão cedo.»
«Ontem, antes do jogo, enviei-lhe uma mensagem de boa sorte para o Mundial, e depois do jogo também o felicitei pela excelente exibição. Espero que Cabo Verde consiga ir o mais longe possível. Foi um orgulho para mim ver este jogo de Cabo Verde com a Espanha. Esta temporada, quando o Vozinha estava ao serviço do Chaves, ligou-me para desabafar um pouco comigo. Tinha vindo da seleção, era titular do Chaves e, de repente, foi atirado para o banco. Nessa conversa eu disse-lhe que era um grande guarda-redes e que só tinha de manter-se calmo porque iria voltar a agarrar o lugar no Chaves e iria ao Mundial com Cabo Verde. Aconteceu exatamente isso e ele demonstrou que a idade não conta. O que conta é o profissionalismo e ele é um grandíssimo profissional. No final de cada treino ele pedia para fazer mais algum trabalho específico. Espero que não pense em deixar de jogar futebol tão cedo. Especialmente um guarda-redes pode prolongar mais a carreira», concluiu.
«O empresário estava em Cabo Verde para trazer outro jogador para Portugal...»
Quem também coincidiu com Vozinha nessa temporada no Gil Vicente foi Pedro Russiano. Na altura, enquanto adjunto de Álvaro Magalhães. O atual técnico do Lusitano de Évora também falou a A BOLA e falou sobre a curiosa mudança de Vozinha para o futebol luso.
«O empresário estava em Cabo Verde para tentar trazer o Papelelé para Portugal. Entretanto, o Vozinha, através do Calú, jogador que também acabou por vir para o Gil Vicente, teve a possibilidade de conhecer o Pedro e abriu-se a possibilidade de vir também para Portugal. Ele só tinha jogado em contextos competitivos menores, e já com 29 anos, como por exemplo o Zimbru, da Moldávia. O Pedro, empresário, entrou em contacto com o mister Álvaro Magalhães e eu, juntamente com o Tó Ferreira, que era o treinador de guarda-redes, analisámos a situação e demos aval à contratação, que o clube acabou por consumar», recorda Pedro Russiano.
Em Barcelos havia, na época 2016/2017, uma aposta declarada em Júlio Neiva, jovem guarda-redes proveniente da formação dos gilistas, mas a verdade é que Vozinha... não deixou margem para dúvidas: «Ele chega a Barcelos, na época 2016/2017, e nós, na altura, tínhamos uma grande aposta da formação do Gil Vicente, que era o Júlio Neiva. No entanto, o mister Álvaro concedeu a confiança ao Vozinha e ele acabou por ser indiscutível ao longo de toda a temporada, realizando grandes exibições. Foi, refira-se, uma época em que o Gil Vicente estava na Liga 2, na sequência do caso Mateus.»
A finalizar, Pedro Russiano diz não estar minimamente surpreendido com o nível exibicional de Vozinha, tanto nas últimas temporadas como agora, em pleno Mundial. «Chegar a um Mundial aos 40 anos? Claro que não é uma coisa nada normal, mas a verdade é que acaba por não me surpreender devido à humildade, resiliência e espírito de trabalho que o Vozinha tem diariamente», finalizou o técnico, de 41 anos, que em 2026/2027 vai manter-se ao leme do Lusitano de Évora, clube que voltará a competir na Liga 3.
É caso para dizer que há histórias e histórias. A de Vozinha parece ter saído de um verdadeiro mundo encantado. Porque nunca é tarde para atingir objetivos. Os sonhos estão ao virar da esquina. E quem disser que aos 40 anos já não se pode jogar futebol, bem pode olhar (também) para Vozinha. Um exemplo de persistência e superação. Um verdadeiro herói de um povo cabo-verdiano a quem o orgulho não cabe no peito.
Artigos Relacionados: