Brandon McNulty, novo campeão mundial de fundo
Brandon McNulty, novo campeão mundial de fundo
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Brandon McNulty surpreende e conquista o título mundial em Montreal

Norte-americano atacou a cerca de 30 quilómetros da meta, surpreendente dos candidatos e resistiu para conquistar a maior vitória da carreira, sucedendo a Tadej Pogacar

O norte-americano Brandon McNulty sagrou-se campeão do mundo de fundo em Montreal, no Canadá, depois de protagonizar uma das maiores surpresas da corrida. O corredor dos Estados Unidos atacou a 33 quilómetros da chegada, aproveitando a passividade de um grupo de favoritos já desgastado e resistiu até à meta à perseguição de uma elite que, apesar das sucessivas tentativas de reação, não conseguiu travar a fuga.

McNulty conquistou assim a camisola arco-íris numa corrida marcada pelo elevado ritmo, pela sucessão de ataques e pelo desgaste dos principais candidatos ao título, numa edição que contou com a ausência do bicampeão mundial Tadej Pogacar.

O australiano Michael Matthews, que acabou por se impor no sprint do grupo perseguidor, conquistou a medalha de prata, enquanto o neerlandês Mathieu van der Poel, um dos grandes protagonistas da prova, completou o pódio com o bronze.

Para Portugal, o Mundial terminou com um resultado discreto. A seleção nacional começou cedo a sentir os efeitos da intensidade da corrida e nunca conseguiu colocar um corredor na frente. Nelson Oliveira foi o melhor português, no 56.º lugar, a 13.11 minutos do vencedor, enquanto Ivo Oliveira terminou na 58.ª e última posição, a 15.35. Afonso Eulálio, João Almeida, António Morgado e Tiago Antunes não concluíram a prova.

A história da corrida

A fuga não demorou a formar-se. Dezasseis corredores, de que se destacavam o norueguês Andreas Leknessund, o alemão Felix Engelhardt, ambos frequentes em escapadas de longa distância, e ainda o velocista eritreu Biniam Girmay. Além destes, sobressaiu outro aventureiro madrugador, não pelo nome, mas pelo dorsal - o número 1. Teoricamente seria o identificador do grande ausente destes Mundiais, bicampeão em título, Tadej Pogacar, mas que foi o compatriota esloveno Tilen Finkst a ter a honra de o envergar, um corredor semi-anônimo, de 29 anos, da igualmente modesta equipa ProTeam italiana Solution Tech Nippo Rali.

Os primeiros 100 quilómetros, em terreno plano nos arredores de Montreal, foram cumpridos a alta velocidade (média de 48 km/h) pelos fugitivos, que chegaram ao circuito urbano, a percorrer por 12 vezes, com mais de 8 minutos de vantagem sobre o pelotão. Neste, a entrada no palco de todas as decisões foi desde logo atacada pela seleção francesa, com Bruno Armirail a intensificar o ritmo e a denunciar a estratégia da equipa de Paul Seixas: endurecer a corrida nas subidas para favorecer o jovem corredor face a adversários mais pesados como Wout van Aert e Mathieu van der Poel. Primeira consequência, a fuga perdeu quase três minutos em pouco mais de dez quilómetros. Segunda, um rude golpe nas ambições portuguesas ainda a 155 km da chegada: Afonso Eulálio sofreu uma avaria mecânica e após a reparação não foi capaz de recuperar para o pelotão, perante a intensidade a que este rolava. Face a esta contrariedade, o melhor jovem do Giro 2026 abandonava o Mundial pouco depois. Refletindo essa velocidade no grande grupo, após a segunda passagem pela linha de meta, o avanço dos escapados já tinha caído para metade (4 minutos) e à quinta (105 km para a chegada) os quatro resistentes (apenas) da fuga estavam alcançados.

Abrem as hostilidades

Após o fim de fuga, o figurino da corrida alterou-se. O pelotão perdeu o andamento alto e linear para dar lugar a uma sucessão de ataques na subida principal do circuito, Côte Camillien-Houde (1,6 km a 7,5% de inclinação média), ainda com a França a tomar a maioria das iniciativas. Estas provocaram mais uma baixa na equipa portuguesa: João Almeida. Não foi só entre figuras: o vencedor da Vuelta 2026, o espanhol Enric Mas, e o terceiro classificado (e segundo no Giro), o austríaco Felix Gall, também cediam à fadiga num pelotão que se reduzia bastante.

Logo a seguir (90 km), a corrida abre-se totalmente, com movimentações importantes. Adianta-se um grupo numeroso, em que se incluíam Van der Poel e Van Aert, fazendo soar os alarmes nas demais seleções, que movem a perseguição. Quando o pelotão estava prestes a anular a iniciativa, o belga contra-ataca e o arquirrival neerlandês respondeu-lhe, formando nova frente de corrida com mais quatro ilustres: Primoz Roglic (Eslovénia), Oscar Onley (Grã-Bretanha), Quinn Simmons (EUA) e Anthon Charmig (Dinamarca). A seis voltas do final (80 km), o sexteto já abria 40 segundos.

Apesar da enorme distância para a meta, perante a falta de capacidade de perseguição da seleção mexicana, Isaac del Toro teve de se fazer à vida para continuar na batalha pela camisola arco-íris. O terceiro do último Tour desencadeou a reação dos adversários diretos, Paul Seixas, que também não tinha compatriota no grupo da frente, e Remco Evenepoel.

Então, Mathieu van der Poel não quis correr o risco de ficar em desvantagem numérica perante a aproximação dos perseguidores e atacou na dianteira, levando na roda Simmons e Onley.

Na oitava passagem pela subida maior, Roglic acelera no grupo intermédio e faz uma ponte impressionante para o trio da frente. O reforço esloveno nos líderes ainda tornou mais imperativa a reação atrás, por Del Toro e Seixas. O jovem mexicano voltou a assumir o esforço e saltou para o grupo de Van Aert, mas a sombra francesa não o largou. Evenepoel fraquejou, ficou cortado. O belga, resiliente e com o auxílio de Van Aert mais adiante reentrou - e com isso também na corrida ao título mundial. Antes, a 50 km da chegada, no quarteto da frente, Van der Poel acelerou, provocando a falência de Onley.

Saiu o britânico, melhor jovem da recente Vuelta, entrou o irlandês Ben Healy, mantendo o número na dianteira. Contudo, atrás, Del Toro não quis esperar mais e mais uma vez desbloqueou a corrida, disparando para alcançar, num ápice, o grupo de Van der Poel. A 34 quilómetros da meta, num volte-face imprevisto, a prova adquiriu outro figurino. Fora da discussão ficou Remco Evenepoel - e com Van Aert já descolado, a favorita Bélgica começava a perder todas as hipóteses de vencer. O tetracampeão mundial de contrarrelógio não baixou os braços e voltou à carga à entrada da derradeira volta, regressando ao grupo principal.

Neste, ainda na volta anterior, Brandon McNulty (EUA) isolou-se perante a passividade (e o cansaço) dos adversários e ganhou rapidamente 1 minuto. Perante a urgência que a vantagem do norte-americano impunha, o britânico Tom Pidcock atacou, movendo-lhe a perseguição e causou o… caos. Del Toro e Van der Poel ficaram em dificuldades, mas não foram derrotados.

Na última ascensão a Camillien-Houde, com a mesma vantagem, McNulty pareceu ter a camisola mais desejada na mão, mas o inconformismo de Pidcock manteve o suspense até ao final, ficando com o líder à vista. Mas faltou o quase para o campeão mundial de cross country (XCO) e para os restantes que o seguiram. O último esforço de perseguição veio de Van der Poel e de Mauro Schmid, mas as forças do neerlandês e do suíço já eram escassas.

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