«Quando a época acabar, teremos 10 dias para continuar ou separar»: Mourinho e o futuro, na íntegra
— Depois da vitória no dérbi que Moreirense espera encontrar na Luz?
— Depois de um bom ou mau resultado, de um bom ou mau jogo, nós treinámos sempre bem, os jogadores entregam-se sempre muito bem ao trabalho. Obviamente, mais sorrisos e menos caras fechadas, o que é normal, mas uma boa semana de trabalho. Alguns problemas depois do jogo do Sporting, ao nível de algumas pequenas lesões, mas com exceção do Tomás [Araújo], hoje já treinaram todos e todos estão disponíveis para o jogo. O Moreirense obrigou-nos também a treinar bem, porque é uma equipa que tem complexidade na sua organização de jogo, joga bem, tem diferentes modos de ocupação do espaço. É uma equipa que te obriga a defender bem e a contrariar uma equipa que tem condições para nos criar problemas. Faltam quatro jogos, só ganhando os quatro é que nós podemos ter esperança de melhorar a nossa classificação. Se não ganharmos os quatro, não teremos qualquer hipótese e o Moreirense é o primeiro desses quatro jogos. Temos de ir com tudo e tentar ganhar.
— Como está a luta entre Ivanovic e Pavlidis? E, no caso do Pavlidis, como está o jogador? Teve alguma conversa com ele?
— Não tive conversa nenhuma porque o Pavlidis é uma pessoa inteligente. Ele é inteligente, ele percebe as coisas, conhece-me bem, consegue ler-me, consegue perceber as coisas que eu vou pedindo e vou trabalhando durante a semana e ele cedo percebeu que não ia ser titular contra o Sporting em função de uma estratégia diferente. Ivanovic é também um rapaz que – e é natural que aqui e ali sinta alguma frustração, para não dizer tristeza, por não ter uma utilização regular, principalmente como titular – agarrou com as duas mãos a oportunidade de jogar em Alvalade e ter uma contribuição importante para uma estratégia. Fê-lo bem, melhorou os seus níveis de confiança, esperemos também que ajude o selecionador Dalic a olhar para ele e a perceber que ele pode ser um jogador de utilidade no Mundial, mas isso são coisas suas, obviamente. Portanto, acho que foi uma semana boa para os dois. Depois, essa coisa da qual eu gosto, mas gosto mesmo muito, do jogador normalmente titular que não é titular ocasionalmente e que tem resposta de equipa. A entrada dele, a entrada do Rafa, a entrada do António, jogadores que normalmente são titulares e que não foram e que aparecem no jogo e que querem ganhar. O Enzo [Barrenechea] que estava no banco… andei à procura dele e ele estava dentro do campo a festejar... Este tipo de mensagem de grupo são coisas das quais eu gosto muito. Eu nunca dou justificações aos jogadores porque jogam ou porque não jogam. Parto sempre do princípio que têm de estar disponíveis para 90 minutos, para um minuto ou para irem para a bancada. E como eu não dou justificações, fico ainda duplamente contente por os jogadores sem explicações perceberem o porquê das coisas. Por isso, tudo ok.
— Sentiu necessidade de dizer alguma coisa aos jogadores no balneário sobre o seu futuro? Para tranquilizar a equipa?
— Não, eu já falei o suficiente, se calhar mais do que o suficiente para não precisar de falar mais. O que eu disse, disse, e não preciso de repetir. Só isso.
— Já disse que não pode garantir que fica no Benfica porque isso não depende só de si, mas há uma coisa que depende só de José Mourinho, que é a vontade e o desejo. E também já disse que quer continuar no Benfica. Mas a minha pergunta é muito concreta: o seu desejo de continuar no Benfica é superior a qualquer convite que possa aparecer? Ou seja, se o Real Madrid ou se, por exemplo, a Seleção Nacional lhe baterem à porta agora, ou neste verão, pode taxativamente dizer que não vai aceitar o convite?
— Não quero dizer mais nada sobre isso. Eu já disse o que tinha a dizer relativamente ao Benfica e não vou fazer mais nenhum tipo de comentário. Notícias que saíram hoje de que eu estava chateado com o presidente... O único motivo pelo qual eu estou chateado com ele é porque, não sei porquê, mas não me deram o meu emblema de 25 anos de sócio. Acho que deram a toda a gente menos a mim, esqueceram-se de mim. É o único motivo pelo qual eu estou chateado, de resto, tudo bem, não há problema absolutamente nenhum. Toda a gente sabe qual é a situação. Quando a época acabar, teremos 10 dias para continuar ou para separar. Eu já disse aquilo que tinha que dizer e não tenho mais nada a dizer.
— Em setembro, quando chegou ao Benfica, encontrou um plantel que não era o seu, como aliás fez questão de lembrar nalgumas ocasiões. O que lhe pergunto agora é: tendo a oportunidade de fazer um plantel ao seu gosto, isso já está a acontecer em sintonia com Mário Branco e Rui Costa? Ou se, por outro lado, a incerteza em relação ao seu futuro no Benfica pode comprometer seriamente esse objetivo de haver um plantel à imagem de José Mourinho.
— Quando eu cheguei, o plantel não era meu, mas agora o plantel é meu. Há uma grande diferença. Uma coisa é um treinador chegar e o plantel não é seu, outra coisa é estar sete meses e qualquer coisa... e agora o plantel é meu. E enquanto treinador do Benfica, este é o meu plantel. E especificamente relativamente à sua pergunta, sim, tenho tido reuniões com a estrutura, com o presidente e com o diretor, como sempre faço, porque gosto de me vincular às minhas responsabilidades e às minhas, não quero dizer decisões, diria mais análises e opiniões... Faço-o por escrito. Ou seja, há documentos meus nas mãos do presidente e do diretor e temos reunido com alguma frequência na tentativa de melhorar aquilo que é o meu plantel. Porque este plantel é o meu e no caso de continuar na próxima época, este plantel continuará a ser o meu. Terá objetivamente alguns ajustamentos para ser mais a minha cara, para ter alguma coisa mais minha, como dizem lá em Inglaterra o fingerprint. Mas este plantel é meu e gosto dele. E uma coisa é adaptá-lo a um determinado tipo de personalidade e a um determinado modo de ver futebol, outra coisa são mudanças radicais. Eu sou, primeiro que tudo, completamente contra mudanças radicais e, em segundo lugar, porque há muita gente aqui que teve evoluções importantes e que me deixam a expectativa de na próxima época poderem ser melhores do que aquilo que estão a ser nesta época.
— O River Plate já está em conversas com Otamendi para o contratar na próxima temporada. O que é que nos pode dizer sobre isso?
— Eu acho que depende só dele, que há pessoas que têm o direito de escolher o seu futuro por tudo aquilo que construiram no futebol e Otamendi é uma dessas pessoas. Fez o último jogo pela seleção em solo argentino por decisão sua, terminará na seleção depois do mundial por decisão sua e é por decisão sua que irá regressar à Argentina e ao River ou continuar no Benfica, está tudo nas suas mãos. O rendimento que tem apresentado ao longo da época, com pouquíssimas lesões e ausências, presença sempre regular, dá-lhe essa credibilidade de não olharmos para o passaporte, de esquecermos a idade e olharmos para o rendimento. É um grande jogador e não muda de um ano para o outro a qualidade que ele tem.
— Disse que só ganhando os quatro jogos o Benfica pode ambicionar chegar ao segundo lugar. O que eu pergunto é se acredita que, ganhando os quatro jogos, vai mesmo ficar em segundo lugar, ou seja que o rival direto nesta luta vai perder pontos nestes jogos que lhe faltam. E se prometeu isso aos jogadores?
— Não. Não prometi nada, nem posso prometer, nem posso garantir nada: se o Sporting vai fazer 15 pontos ou vai fazer 13, ou menos... Não. No fundo, a minha desilusão pós-Casa Pia veio exatamente disso, veio exatamente da perda de controlo sobre o nosso destino. Se tivéssemos ganho no Casa Pia, neste momento estávamos a quatro vitórias de ficar em segundo lugar. Neste momento não estamos, dependemos dos resultados, dos nossos, obviamente, mas dependemos também dos resultados do Sporting e isso está completamente fora do nosso controlo.
— Normalmente dá justificação da escolha entre os dois pontas-de-lança por questões estratégicas, por questões táticas, sendo que Ivanovic é mais ataque à profundidade e Pavlidis mais para jogo associativo. Mesmo assim, tendo em conta este mau momento de forma de Pavlidis, que em 12 jogos tem apenas um golo, não tem a tentação de alterar esse racional e apostar em Ivanovic exatamente por esse mau momento de forma de Pavlidis?
— Pavlidis é daqueles jogadores em que o seu rendimento não é analisado simplesmente pelos golos que marca e pelos golos que não marca. Há atacantes que só são golos e que quando não há golos não há rendimento, não há contribuição. Tudo aquilo que o Pavlidis faz na equipa, inclusive na primeira fase de construção, em que na maior parte das vezes os atacantes não estão envolvidos, até aí ele é importante. Portanto, eu não o analiso pelos golos que marca e os golos que não marca. Não tenho problema absolutamente nenhum, é um jogador da minha total confiança.