Entrevistado por A BOLA, David Simão assume que o mais provável é não voltar a jogar

«Benfica? Poderia ter sido diferente, mas também para pior»

Em entrevista a A BOLA, David Simão recorda ligação de 14 anos às águias e faz balanço da carreira

Dois meses depois de ter rescindido com o Arouca, de forma surpreendente, David Simão concede uma entrevista a A BOLA. Neste excerto da conversa o esquerdino recorda o percurso nas camadas jovens do Benfica e a subida à equipa principal das águias, em jeito de perspetiva global da carreira.

Em 2011 chegou a ter honras de apresentação na equipa principal do Benfica, vindo da formação, ao lado de Rúben Pinto, Miguel Rosa e Nélson Oliveira. Recorda os sonhos que tinha então? O que diria a esse David?

O que digo ao meu filho hoje: desfruta do futebol, porque é muito bonito, nunca se sabe quando pode acabar. E desfrutar é ser feliz a jogar e dedicarmos a nossa vida ao futebol. Nunca foi um sacrifício no verdadeiro sentido da palavra. A família era do Benfica e eu tive dez anos de formação no Benfica. Estar na equipa principal era a realização de um sonho. Claro que depois ficaram algumas coisas por fazer, mas tive a oportunidade de que muitos poucos se podem gabar.

Hoje em dia pensa sobretudo no que poderia ter sido mais, ou naquilo que conseguiu atingir, e que a grande maioria não alcança?

É exatamente isso. Poderia, efetivamente, ter sido de forma diferente, mas também poderia ter sido para pior, como sucedeu com muitos daqueles que fizeram formação comigo. Prefiro agarrar-me muito mais ao orgulho de ter construído uma carreira tão longa, sólida. Não é fácil, não é para qualquer um. Envolve aqui muito trabalho, alguma sorte aqui e ali, mas deixa-me super feliz aquilo que fiz. Acima de tudo realizado, porque o meu sonho era ser jogador de futebol profissional. E eu fui, durante muito tempo, e felizmente num nível muito aceitável. Estou feliz com a carreira que fiz. 

Galeria de imagens 21 Fotos

Os quatro jogadores referidos somaram 26 jogos na equipa principal do Benfica, sendo que dois presenças do Simão e 24 do Nélson Oliveira. Rúben e Miguel Rosa não chegaram a jogar. Qual a explicação? Contexto?

Sim, claro. Exatamente isso. Primeiro a qualidade que existia. Ponto um, e muito importante. Depois a não existência da equipa B. Não existia essa proximidade. E depois o mercado, hoje muito direcionado para jovens, e na altura era um risco. A equipa efetivamente era muito boa. Se formos pesquisar quantos jogos fez o Matic a titular…

Ganhou uma Taça de Portugal pela Académica e uma Taça de Israel pelo Hapoel Beer Sheva. Fica o sabor amargo de não ter sido campeão nacional?

Claro. Toda a gente gosta de ganhar, ter troféus. Eu não fujo à regra. A realidade é que, onde eu tinha mais possibilidade de ser campeão, era no Benfica, até enquanto jogador da formação. Porque depois, mesmo os clubes lá fora, eram clubes que lutavam pelo título mas não eram os principais candidatos, à exceção talvez do AEK. Mesmo assim não era o principal candidato. 

O ponto alto foi o Jamor com a Académica?

Claramente. É o dia mais feliz da minha vida, a nível desportivo. Foi incrível.

David Simão venceu a Taça de Portugal com a Académica - foto: A BOLA
David Simão venceu a Taça de Portugal com a Académica - foto: A BOLA

Com um lado amargo: não teve os pais presentes nesse dia…

Sim, é algo que nos assombra, entre aspas, até aos dias de hoje . Quando recordamos, o meu pai diz sempre: "Nem sei porque é que não estava lá". Eles vivem em França, mas nós vivemos no Jamor muitas finais, enquanto adeptos. Esperávamos o ano inteiro para ir ao Jamor. Era uma data que nós gostávamos de celebrar. E portanto ele não consegue entender. É uma mágoa que temos, mas foi o melhor dia da minha vida desportiva.

O David já disse algumas vezes que foi no Boavista que mostrou o seu melhor futebol se calhar. Como olha agora para mais um momento difícil do clube?

É muito triste. O Boavista faz falta. Mesmo em fases muito difíceis, nos últimos anos, tinha 8 a 10 mil pessoas no estádio. Isto, infelizmente, não é normal nos clubes em Portugal. Não é algo que me surpreenda, porque já havia dificuldades quando eu lá estava. Ganha-se aqui um bocadinho de esperança quando aparecem investidores, mas acho é um caso que deve alertar todos os outros clubes que eventualmente possam passar por dificuldades financeiras, para escolherem bem os parceiros que vão ter. Porque isto pode deitar anos de história para o lixo.

David Simão fez 45 jogos pelo Boavista - foto: A BOLA
David Simão fez 45 jogos pelo Boavista - foto: A BOLA

A etapa mais negativa foi na Grécia? Já recordou que recebeu ameaças de dirigentes do AEK, para que rescindisse, e revelou ter passado por uma depressão.

Foi, claramente. Não quero falar em depressão de forma leviana, mas enquadro muitos dos meus comportamentos na definição de depressão. Sentia-me ali meio perdido, meio em guerra comigo, e quase a passar a não gostar de futebol. O futebol não tem só coisas bonitas. Diria que 80% é bonito, mas existem outros 20% que as pessoas devem também perceber que existem.

A saúde mental ainda é um tabu no futebol?

Cada vez menos. Os clubes tentam acompanhar cada vez mais, até sob pena de perderem os meninos para outros clubes que já fazem esse acompanhamento. É preciso acompanhar quem faz bem, e os meninos crescem a perceber que ir ao psicólogo não é sinónimo de sermos malucos. É mais uma ferramenta para podermos render mais e para sermos melhores, neste mundo que é muito competitivo. Vai ser útil, mesmo para a vida futura, aprenderem a lidar com frustrações. Apesar de eu achar que as maiores ações de psicologia e de sensibilização têm que ser feitas com os pais, que são a principal barreira no crescimento dos jovens atletas. Todos nós sabemos a teoria: que não nos devemos meter na vida do treinador, que não devemos opinar, que devemos só apoiar. Mas quando é o nosso filho as coisas sentem-se de forma diferente. E às vezes perde-se aqui um bocadinho da racionalidade. Por isso a maior incisão dos psicólogos deveria ser com os pais. Esta é a minha opinião e sobretudo da minha experiência, não como jogador, mas como pai de um menino que joga futebol.