Paulo Pereira: o homem que acabou com as desculpas no andebol
Nos últimos dias, o andebol português esteve em foco, mas não pelos melhores motivos. Acusações entre Sporting e Porto levaram mesmo a uma reunião com a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes. Não é este o caminho que o andebol e o desporto nacional devem seguir. Há demasiado para valorizar no andebol português…
Durante décadas, habituámo-nos a perder antes de entrar em campo. Perdíamos no discurso. No «somos pequenos». No «eles são melhores». No «fizemos o possível». Criámos uma cultura confortável de resignação, onde a derrota era explicada antes de acontecer. Paulo Pereira, atual selecionador nacional, nunca aceitou isso.
Portugal não precisava de mais talento. Precisava de alguém que acabasse com a desculpa. Paulo Pereira destruiu esse limite cultural autoimposto. Aceitou o contexto, a falta de meios, a dimensão do país, a força dos adversários, mas nunca aceitou que isso fosse um destino. E é aí que começa a verdadeira revolução.
O maior feito de Paulo Pereira não foi ganhar à Dinamarca. Foi fazer com que, antes desse jogo, os jogadores acreditassem genuinamente que podiam ganhar. No desporto de alto nível, tudo começa aí. A diferença entre competir e vencer raramente está apenas no talento. Está na convicção. Na atitude. Na capacidade de entrar em campo sem complexos, sem aquela inferioridade silenciosa que durante anos nos limitou.
O mindset constrói-se com persistência. Com trabalho. Não há atalhos. É preciso melhorar continuamente os processos, na gestão do tempo, na eficácia, no desenvolvimento técnico, tático, físico e mental. É essa disciplina diária que transforma convicção em resultados. Mas há algo mais profundo na forma como Paulo Pereira vê o rendimento e a liderança:
− Somos o resultado de duas forças: aquilo que trazemos de casa e aquilo que aprendemos ao longo da vida.
Liderar, explica, é garantir que ninguém se sente invisível. Que todos se sintam úteis, valorizados e parte do processo. Mesmo os conflitos, inevitáveis, podem ser momentos de crescimento.
A proximidade relacional é essencial. Sem ela, não há autoridade. Para exigir, é preciso primeiro criar ligação. Só assim é possível, em determinados momentos, ser mais firme ou até mais autoritário, quando o grupo assim o exige. E essa autoridade não se impõe, constrói-se com competência, preparação e coerência:
− Eu nunca entro numa reunião sem estar preparado. Se não estiver, sei que não vou convencer ninguém.
A liderança não é fixa. Ajusta-se. Oscila entre momentos mais democráticos, mais exigentes ou mais diretivos, consoante as circunstâncias, o momento e as necessidades do grupo. É o próprio grupo que vai ditando essa linha. Ao mesmo tempo, a proximidade pode ser desafiante. Há decisões difíceis que têm de ser tomadas. Nesses momentos, a consciência tem de ser o guia:
− Nem sempre acertamos, eu próprio cometi erros, mas procuro sempre decidir com base naquilo que acredito ser justo e melhor para o grupo, mesmo quando custa.
Há um episódio que o marcou profundamente. Como adjunto no FC Porto, venceu o Valladolid por 11 golos na primeira mão. Na segunda, perdeu por 12. Eliminado:
− Foi como morrer de tristeza.
A frase é reveladora. Mostra alguém que sente o jogo para além do resultado. Alguém que percebe o peso emocional da competição ao mais alto nível. E, ao mesmo tempo, alguém que aprendeu a seguir em frente:
− Com o tempo, fui percebendo que tudo é movimento. Hoje perdemos, amanhã ganhamos, e no dia seguinte temos de continuar. Ora somos despedidos, ora somos convidados para novos projetos. Vivemos entre expectativas, alegrias e frustrações constantes. E é essencial aprender a lidar com tudo isso.
Esta ideia de movimento constante está no centro da sua liderança. Nem dramatiza a derrota, nem se ilude com a vitória. Equilibra. E isso reflete-se na forma como lidera:
− Liderar é criar condições para que as pessoas sejam felizes, pensem pela sua própria cabeça e trabalhem para um objetivo comum. Não é controlo absoluto. Não é imposição cega. É exigência com autonomia. É garantir que ninguém se sente invisível. Que todos têm um papel. Que todos contam. É dar espaço, mas alinhar quando necessário. Porque quando surgem desvios, e surgem sempre, o objetivo coletivo tem de prevalecer sempre.
No alto rendimento, há outro fator inevitável… a pressão:
− Os grandes atletas sempre funcionam dentro de uma base de pressão. Grandes atletas e grandes treinadores. Se nós não conseguirmos funcionar num contexto com muita pressão, temos que mudar de atividade. Mas atenção, há a pressão positiva e a pressão negativa. A diferença está no ambiente que se cria.
E há também uma visão clara sobre o erro. E explica:
− Tento transmitir que alguns erros são permitidos. Erros normais do jogo, que acontecem quando as pessoas procuram seguir um plano, mas por vezes exploram alternativas e se equivocam. Às vezes, até tentam ser criativos, e isso para mim é um bom erro. O mau erro, por outro lado, é quando se tenta fazer algo com pouca consistência e baixíssimas hipóteses de sucesso. Esse tipo de erro não é permitido.
O erro, quando bem enquadrado, é aprendizagem. Este detalhe é fundamental. Porque é aqui que se constrói uma equipa que não tem medo de jogar. Uma equipa que arrisca. Que cria. Que cresce. E que entra em campo para ganhar. Aliás, essa ambição nunca foi escondida. Quando Paulo Pereira afirmou que Portugal podia conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos, muitos consideraram irrealista. Mas a equipa esteve perto. Muito perto. E isso expôs algo simples: não era loucura. Era preparação, crença e insistência:
− Quando fazemos bem as coisas, a distância entre ganhar e perder torna-se muito curta.
Esta frase resume o nível em que Portugal passou a competir. E expõe também uma realidade incómoda: Portugal conseguiu resultados de elite com condições que continuam longe de ser de elite. Pavilhões sem as melhores condições, investimento insuficiente, visibilidade mediática residual. E, ainda assim, resultados extraordinários. Isto não devia surpreender. Devia envergonhar. Quando se lembra que o andebol foi das poucas modalidades coletivas portuguesas presentes nos Jogos Olímpicos, não estamos apenas a elogiar, estamos a expor uma contradição nacional. Portugal normalizou o extraordinário. E isso é perigoso. Porque aquilo que é extraordinário, quando não é protegido, desaparece. Seja no desporto ou na vida.
Mas o maior legado do Paulo Pereira não está nos resultados. Está na mudança de mentalidade. Nos jogadores que hoje entram em campo sem pedir licença: Francisco Costa, Salvador Salvador, Martim Costa, Victor Iturriza, etc. Uma geração com talento, sim. Mas, acima de tudo, educada competitivamente. E o próprio acredita que o teto ainda não foi atingido:
− O Francisco Costa pode um dia ser o melhor do mundo. Se ele continuar nesta linha de trabalho, se ele melhorar fisicamente e, com certeza, ele tem a inteligência suficiente para poder continuar a melhorar, ele poderá vir um dia a ser o melhor jogador do mundo. E quando digo o melhor do mundo, falo de ataque.
Isto não nasce por acaso. É cultura. É exigência. É liderança. Paulo Pereira não criou apenas uma equipa. Criou um padrão. Um padrão de exigência, ambição e responsabilidade. E isso levanta uma questão inevitável: estará o andebol português preparado para continuar sem ele, mantendo essa exigência? Talvez a resposta esteja na evolução do próprio:
− Já pensei que liderar era ter pessoas a fazer exatamente o que eu dizia. Hoje acredito no contrário: o líder deve estar ao serviço das pessoas.
Esta mudança diz tudo. Mostra um líder que evoluiu. Que aprendeu. Que se adaptou. E percebeu que, no fim, liderar não é controlar. É potenciar. E, ainda assim, sente que o trabalho não está terminado:
− A sensação que tenho é que há alguma coisa que temos que terminar. Começámos há 10 anos. Tenho contrato até 2028 mas acho que falta acabar alguma coisa. E quando falta acabar alguma coisa, ainda continuamos a ter um propósito forte. E se esse propósito existe, vamos a isso.
O seu estilo de liderança merece, de facto, reflexão. Num tempo em que se valoriza a distância, Paulo Pereira aproxima-se. Envolve-se. Assume o peso. Não romantiza o sacrifício, vive-o. E isso torna-o credível. Criou uma marca «Heróis do Mar» mas, mais importante, criou um padrão. De compromisso. De ambição e de rigor. Paulo Pereira não é apenas o melhor selecionador da história do andebol português. É um espelho raro do que o desporto nacional pode ser quando deixa de ter medo de pensar grande. Educou uma geração para pensar a médio prazo, para controlar emoções, para respeitar o processo, para aceitar a pressão como parte do privilégio de competir, sem complexos, ao mais alto nível e para perceber que representar o país não é um momento, é um compromisso permanente. E, goste-se ou não do seu estilo, há uma verdade incontornável: depois dele, já ninguém pode fingir que não sabe o caminho. E mais do que um treinador, tornou-se um influenciador de comportamentos. Muito antes das redes sociais. Influencia pelo exemplo, pela coerência, pela autenticidade e pela exigência diária.
Essa influência ultrapassa o balneário. Chega aos clubes, aos jovens, aos adeptos. Tornou normal falar de ambição sem medo. De ganhar sem pedir desculpa. E quando um líder eleva de forma consistente o nível do que é aceitável, o impacto deixa de ser pontual. Passa a ser cultural.
Aconteça o que acontecer, o andebol português já não será o mesmo. Porque houve um homem que veio de um tasco reconstruído à força de pontapés nos ratos, que jogou à bola na rua até o chamarem para trabalhar, e que ensinou uma geração inteira a olhar nos olhos de França, Alemanha ou Dinamarca e pensar: eles que tenham cuidado connosco.
Isso não se apaga. Isso fica.
Fica o exemplo que transcende o andebol e o desporto…
Nota final: Um muito obrigado ao Paulo Pereira por ter colaborado neste artigo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».