Benfica de José Mourinho não tem alcançado bons resultados na atual temporada - Foto: Imago
Benfica de José Mourinho não tem alcançado bons resultados na atual temporada - Foto: Imago

Benfica campeão? Só se os rivais falhassem

'Choques de Realidade' é o espaço de opinião quinzenal de Rui Pedro Soares, consultor

O Benfica está a sprintar desde 11 de agosto de 2024, dia em que jogou a primeira jornada da Liga 2024/25 — são já 20 meses seguidos.

A sucessão de jogos e de acontecimentos de elevada intensidade foi tão grande, que só teria hipóteses de ser campeão se o Sporting fizesse uma má época e o FC Porto continuasse ao nível das duas anteriores.

Nestes 20 meses, disputou dois campeonatos, uma final da Taça de Portugal (perdeu no prolongamento, depois de sofrer o golo do empate no fim dos descontos), um Mundial de Clubes (foi eliminado pelo Chelsea, o vencedor). Acabou a época 2024/25 a 28 de junho, nos Estados Unidos.

Uns dias depois, iniciou a época 2025/26 a disputar cinco finais em 45 dias — a 31 de julho ganhou a Supertaça no Algarve. Em agosto, ganhou mais quatro finais e foi apurado para a fase de grupos da Champions (Nice e Fenerbahçe). Pelo meio, umas jornadas da Liga.

Teve eleições disputadíssimas em outubro e novembro — entrou para o Guinness com o recorde de votantes num clube de futebol.

Apurou-se para os oitavos de final da Champions de forma épica — ganhando três dos quatro últimos jogos (Ajax, Nápoles e Real Madrid). Trubin marca o golo da passagem no último minuto dos descontos do último jogo. Sai da Champions depois de dois jogos de grande desgaste físico e emocional (Vinícius/Prestianni) com o Real Madrid, com o resultado de 1-3 nas duas mãos. O Real, na ronda seguinte, elimina o Manchester City com total de 5-1.

À 28.ª jornada, tem sensivelmente a mesma pontuação das duas épocas anteriores (67-68-66), a grande diferença é que o FC Porto tem mais 16 (58-56-73).

Mourinho é o maior embaixador da Liga

José Mourinho é um dos melhores treinadores do mundo. Venceu duas Champions, a liderar underdogs (FC Porto e Inter de Milão) — nunca mais uma equipa portuguesa ou italiana a ganhou. No Chelsea, ganhou duas Premier Leagues, numa equipa que já não vencia o principal campeonato de Inglaterra desde 1955. No Real Madrid, ganhou um campeonato em três, em 2012, contra o melhor Barcelona da história, que era a base da seleção de Espanha que venceu o Mundial de 2010 e os Europeus de 2008 e 2012 (Iniesta, Xavi, Puyol, Piqué, Fàbregas, Busquets, David Villa, Pedro Rodríguez...) e também tinha Lionel Messi, Alexis Sanchéz, Mascherano e Abidal, entre outros.

No Manchester United, é o treinador com mais sucesso desde Alex Ferguson. Na Roma, que nunca tinha vencido uma competição europeia, ganhou a Liga Conferência, e perdeu, injustamente, a final da Liga Europa na época seguinte.

A permanência de Mourinho no Benfica na próxima época não pode transformar-se numa novela e a sua saída, previsivelmente, teria o mesmo efeito que teve nas equipas de onde saiu — ficam piores.

António Silva e Ríos

António Silva não pára desde 9 de agosto de 2023, dia em que se estreou a titular na equipa A do Benfica e ajudou a ganhar a Supertaça contra o FC Porto. Acabou essa época a 5 de julho de 2024, quando Portugal foi eliminado do Europeu, já os seus colegas no Benfica tinham acabado as férias. No verão seguinte, teve o Mundial de Clubes. Com apenas 22 anos, já fez quase 200 jogos na equipa A do Benfica e 20 na Seleção A.

Richard Ríos está a jogar ininterruptamente desde 16 de janeiro de 2025, há 16 meses. A 5 de julho, disputou a final do Mundial de Clubes pelo Palmeiras, a 16 jogou contra o Mirassol para o Brasilerão e a 31 saltou para época seguinte, na final da Supertaça com o Sporting. Desde esse dia, foi sempre jogando pela seleção da Colômbia (com as viagens intercontinentais inerentes).

Com todo este desgaste mental e físico, imediatamente a seguir a acontecimentos intensos, a desconcentração é uma consequência inevitável.

Três meses decisivos para o Benfica

Tendo uma dimensão tal que as suas eleições abafam as eleições autárquicas e uma vitória sobre o Real Madrid fez com que Portugal só percebesse que a tempestade Kristin tinha arrasado o centro do país ao fim de dois dias, os próximos meses no Benfica são propícios a novelas — e a gerar grandes audiências.

São os últimos seis jogos da Liga, com o clássico com o Sporting a poder ser decisivo para definir o campeão, saber se José Mourinho fica ou quem lhe sucederia e o mercado de verão, onde vai ter de encontrar um líder ao nível de Otamendi, Hjulmand ou Bednarek.

Passar a ter uma voz, e um rosto, além de Rui Costa e Mourinho, que comunique sobre a parte desportiva é uma necessidade igualmente premente. Em oito meses, Mourinho não terá já falado mais de 100 vezes? Por cada jogo, tem de falar três vezes... Como não é poupado a este desgaste?

Ministra, Villas-Boas e Varandas

Margarida Balseiro Lopes, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, reuniu-se com os presidentes de FC Porto e Sporting no mesmo dia da passada semana.

A última vez que o Governo, a FPF, a Liga de Clubes Profissionais e as principais SAD conseguiram executar algo em conjunto foi há 27 anos, em 1999, com a vitória da organização do Europeu de 2004.

A vitória de Rui Rio nas autárquicas do Porto em 2005, em pleno confronto com Pinto da Costa no auge (o FCP tinha ganho a Champions em 2004 e a Liga Europa em 2003), e os primeiros processos judiciais a envolver o futebol português afastaram os políticos da Primeira Liga.

A agenda dos assuntos que o futebol profissional precisa do apoio do poder político é extensa e está sempre a crescer — não há um que se resolva e o tempo traz problemas novos.

Sobre André Villas-Boas e Frederico Varandas, nem quem não gosta deles diz que não são inteligentes. Margarida Balseiro Lopes é ministra desde os 35 anos, mestre em Direito, está a fazer o doutoramento e era consultora na Deloitte.

Sobre o que foi discutido nas duas reuniões, só os que estiveram presentes saberão — não terá sido sobre arbitragens.

O futebol profissional ser tutelado por uma ministra que não receia reunir-se com presidentes é uma oportunidade que não se pode desperdiçar.