O lateral esteve no México em 1986 e apresenta a equipa que jogou no segundo Mundial em que Portugal participou

Augusto Inácio: «Não tenham medo de perder um jogo, nem de o ganhar»

Histórias de quem viveu no México, em 1986, o sonho e descobriu o caminho da polémica

— Nessa Seleção de 1986 havia alguém que fosse o líder do grupo?

— O maior líder era o capitão Manuel Bento. Era o líder, porque o capitão é sempre o líder. Mas havia gente com voz, com personalidade e que quando era preciso emitir opinião, também falavam. O Jaime Pacheco, era um homem com uma personalidade que eu gosto muito, e é meu amigo. O Fernando Gomes também. Havia três ou quatro… O Diamantino também falava assim como o Álvaro Magalhães. Os mais novos ficavam um bocadinho mais encolhidos, como era normal, mas os mais velhos eram mais líderes porque tinham outra experiência..

— O Paulo Futre também esteve nesse Campeonato do Mundo.

— Para ele estava tudo bem. O Paulinho só queria era jogar. E ele foi cheio de vontade para a Seleção e acho que não foi tão bem aproveitado quanto isso. É a minha opinião. Mas, lá está, os treinadores é que sabem. Era um puto giro, que se dava bem com toda a gente. Era sócio isto, sócio aquilo. O Paulo estava sempre bem disposto e onde estava alguém a rir já sabíamos que o Paulinho estava por perto. Eu não digo que era palhaço, não era isso.. Era o animador. Uma pessoas bem disposta e feliz por estar ali, naquele Mundial.

— Quem é que para foi a figura do Mundial?

— Sem dúvida, Maradona.

— Pois, acaba por ser ele mesmo e a célebre mão de Deus.

— Maradona era realmente um jogador fantástico, extraordinário. Eu queria eleger um português, mas não posso pois nós não passámos da primeira fase. Mas claramente que o Maradona acabou por ser a figura desse Mundial de 86 mas não digo que a Argentina foi um justo vencedor, porque quando a bola é marcada com batota, não se pode dizer que é com justo vencedor. É capaz de ter sido a melhor equipa, mas da maneira como ganhou. Eu sinceramente não gostei. Maradona foi um grande jogador, mas aquilo não foi um golo limpo Foi um golo de uma chico-espertice que os árbitros engoliram e que toda a gente fala que foi a mão de Deus, mas não foi nada. Foi com a mão da batota com que a Argentina ganhou o Mundial. Eles mereciam ganhar, mas com aquele golo não.

Não foi a mão de Deus, foi a mão da batota com que a Argentina ganhou o Mundial!

— Os convocados de Portugal havia muitas superstições?

— Quer dizer, eu tinha. Cada um tinha a sua maneira de ser e as suas crenças. Eu era impossível entrar para a esquerda, embora seja canhoto. Entrava sempre em campo com o pé direito. Não sei porquê mas sempre foi assim. Depois se partisse um copo de vidro, era logo álcool puro para fazer três vezes a cruz, porque aquilo dava um galo do caraças. Qualquer coisa ia correr mal. [Risos] Se calhar havia outros que usavam santinhos dentro dos calções com alfinetes. Cada um tinha a sua substituição, desde que não fizesse mal a ninguém. Cada um tinha esse direito, mas eu tinha isso. Aprendi isto dos copos de vidro e do álcool no FC Porto, pois lá havia muito essa superstição. Uma coisa de vidro que se parta é logo álcool puro. Havia essas coisinhas, mas eu era sempre aquela de benzer-me, entrar com o pé direito em campo e dizer que Deus ajuda.

— E termos de alimentação, em 86 já havia cuidados?

— Não, já havia regras naquela altura e inclusivamente noutros tempos até se podia beber um copo de vinho. Havia o peixe grelhado, o bife. Era sempre arroz com bife, cremes, canja. Depois acabou-se isso do vinho, que dava muita confusão, começou a beber-se coca-cola, água. Mas não era essa dieta rigorosa dos atletas.

— Depois desse Mundial, muitos jogadores foram riscados da Seleção Nacional?

— Nós jogadores que fomos à Seleção que nos arriscamos a nós próprios. Enquanto houvesse aquela organização, nós não íamos mais à Seleção. Assim é que foi e quiseram dar a ideia que nós é que fomos riscados. Mas não. Eu nunca mais fui à Seleção e outros colegas também não. Depois houve outros que voltaram à Seleção, anos mais tarde.

— Se hoje pudesses mudar alguma coisa do que viveste em 86, o que é que mudavas?

— Mudava os diretores todos. O presidente. Mudava tudo. Não mudava aquilo que foram as nossas reivindicações, pois chamámos a atenção para que as coisas se estavam a passar. A luta tinha que ser feita. Não era para a minha geração, mas para a geração a seguir, porque já em 1984 tinha havido confusão. O podre que estava por trás da cortina rebentou no México, e as coisas tiveram tendência a melhorar cada ano seguinte. Portugal depois consolidou a sua posição em Europeus e Mundiais, e nunca mais falhou. Portugal teve sempre grandes jogadores e grandes treinadores. Portugal teve sempre tudo isso. Faltava uma perspetiva diferente e uma organização diferente para que o jogador não pensasse em mais nada a não ser em treinar e jogar bem.

— Portugal começou a caminhada em Mundiais em 66. Estamos em 2026. 60 anos depois vamos ver se é desta pois ainda não conseguimos ser campeões do mundo. Com que expectativa é que agora, como adepto, vais ver este Mundial?

— A gente torce sempre pelo nosso país. Gostava que Portugal ganhasse os jogos todos e fosse campeão do mundo, mas tenho de olhar para os adversários e não posso estar cego em relação a outras seleções. Outras equipas também têm essa capacidade. Há uma seleção que já não ganha um Campeonato do Mundo há muitos anos, e que está sempre na expectativa cada vez que há um Mundial que é o Brasil. Anda sempre nessa luta do será que é agora… O que é certo é que não vejo o Brasil com aquela formação, com aquela força. Tem jogadores talentosos mas não consegue fazer uma equipa. Não consegue realmente dissociar-se daquilo que realmente é a essência do seu povo, mais desprendidos, mais Carnaval. Falta qualquer coisa ao Brasil para realmente ser aquela grande seleção. Mas, atenção, eu tenho muito medo da Argentina, porque é uma seleção que nos Mundiais se une de uma maneira única. Têm aquele jeito que adoro de morrerem no campo pelo resultado. Eles morrem pela bandeira. Não quer dizer com isso que os portugueses não morram, mas é de uma forma diferente. Eu gosto da forma da Argentina, mais aguerrida, impetuosa, lutadora, determinada. Portugal até pode ter mais talento, mas a Argentina tem um estilo muito próprio. Não podemos esquecer a França, que está muito forte. A Espanha é sempre uma candidata. E claro, no meio disto está Portugal e também tem o seu direito de pensar que pode ser campeão. Eu tenho esse direito de pensar também que os meus jogadores, os meus treinadores, o meu país também merecem ser campeões.

— Gostaria que deixasses uma mensagem para aqueles que este ano, como tu fizeste no México-86 com a camisola número 20 vestida, vão vestir as cores de Portugal e defender a camisola neste Mundial de 2026?

— Malta, vocês são muito bons coletivamente e individualmente são excelentes. Têm um grande capitão que é o Cristiano Ronaldo, que sabe realmente motivar os colegas. Têm um excelente treinador e um excelente presidente da Federação Portuguesa de Futebol que vos dá todas as condições. Têm um país atrás de vocês e têm adeptos, que tal como eu que em tempos estive no campo, agora vão estar colados à televisão a torcer por vocês. Toda a nação portuguesa vai estar. Vocês formam um excelente grupo e tenho a certeza que vão fazer tudo por tudo para honrar o nosso país. Não tenho dúvidas nenhumas! Há uma frase que eu gostaria que vocês fixassem: «Não tenham medo de perder um jogo, mas também não tenham medo de ganhar.» Força, Portugal!

Cristiano Ronaldo é um grande capitão e todos formam um excelente grupo, vão fazer tudo para honrar o nosso país

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