O Sporting canibaliza o noticiário desportivo por desgraçadas razões e não deixa espaço para mais nada. Para tristeza de quem gosta de desporto a sério, para alívio de outros que, com este frenesi diário, conseguem escapar ao interesse mediático e continuar a passar pelos intervalos da chuva que continua a cair neste junho atípico. Luís Filipe Vieira é um bom exemplo: tantas explicações para dar, tantas perguntas difíceis para responder e nada, zero!, kaput!: nem ele as dá (as respostas), nem lhe as fazem (as perguntas chatas). É como se as trapalhadas em que o Benfica surge constantemente envolvido há mais de um ano (algumas indiciando comportamentos graves) tivessem deixado de existir na agenda mediática - despacham-se numas breves e está o assunto arrumado. Bem pode Vieira agradecer a Bruno de Carvalho a monopolização das manchetes e a folga abençoada. Nunca um presidente do Sporting ajudou tanto um presidente do Benfica. Dito isto, e porque BdC merece uma peça aparte, centremo-nos no Campeonato do Mundo que começa amanhã e de que tão pouco se tem falado … para o que seria normal.

Do que tenho visto, aposto no Brasil. Parece-me a seleção globalmente melhor servida no trinómio talento / experiência / consistência e aquela onde é mais difícil encontrar fraquezas. Tem um jogador fabuloso que desequilibra e marca quase sempre (Neymar), um talento extraordinário (Philippe Coutinho), dois abre-latas de exceção (Willian e Douglas Costa), um 9 (Gabriel Jesus) bem melhor que o Fred de 2014, um guarda-redes do melhor que há (Alisson), um meio-campo (Paulino, Casemiro, Fernandinho) com tudo o que é preciso para ganhar um Mundial - robustez, presença física, sofisticação tática - e uma defesa (Danilo, Marquinhos, Miranda e Marcelo) que inspira mais confiança do que aquela que há quatro anos encaixou dez golos nos últimos dois jogos (1-7 com a Alemanha; 0-3 com o Brasil). Bem sei que a última vez que uma seleção sul americana venceu um Mundial na Europa foi há 60 anos (Brasil de Pelé, Garrincha, Didi, Vavá e Zito campeão na Suécia) e que o Brasil perdeu nos últimos anos o ascendente que detinha sobre os outros candidatos no tempo de Ronaldo Nazário, Roberto Carlos, Rivaldo e Cafú. Mas não há mal que dure sempre e creio que esta canarinha em boa hora entregue a Tite (um treinador que sabe conjugar as mais valias naturais dos brasileiros com as exigências táticas e atléticas do futebol moderno) tem grandes hipóteses de chegar ao hexa. A Alemanha vem logo a seguir. Não dou grande significado às pálidas exibições da Mannschaft nestes últimos jogos de preparação porque a Alemanha é um martelo concebido para a competição pura e dura. Simplesmente parece-me que, ao contrário do Brasil, a Alemanha hoje não é mais forte que há quatro anos - talvez até o contrário. Não só por não ter conseguido substituir o matador Miroslav Klose: não se viu grande evolução no jogo da equipa e, tirando Timo Werner e talvez Leon Goretzka, não surgiram caras novas capazes de se imporem num onze a precisar de sangue fresco.

A Espanha será a terceira na linha de candidatos, sobrando para Argentina e França os lugares de candidatos de segunda linha. A Espanha parece muito forte embora lhe falte um matador consumado. Tem a nata do Madrid e do Barcelona e uma aura ganhadora de dez anos. Podem chegar longe, apesar do tiro no pé que foi o anúncio de Lopetegui como treinador do Real antes e não depois do Mundial, como seria mais avisado. Acredito 100% no génio de Messi mas não tenho fé nem no treinador (Sampaoli) nem no futebol que a Argentina joga, que me parece demasiado pobre para as tradições de uma seleção que foi campeã com Mário Kempes (1978) e Diego Maradona (1982). A França parece ter problemas. Falta equipa, o espírito de 1998 e 2000. Talvez sofra de excesso de egos. O futebol deles é uma pálida imagem daquilo que poderia ser, tendo em conta a categoria dos convocados. Acredito que a boa e velha Inglaterra possa chegar mais longe do que o habitual - quartos?, mas não ficarei muito admirado se não conseguir passar da fase de grupos.

Quanto a nós. Receio que o ciclone leonino (como lembrava ontem Vítor Serpa) possa perturbar mais do que se espera o funcionamento da Seleção. Sem esquecer que o nosso melhor jogador - Cristiano - também atravessa um momento delicado a nível emocional. Muito delicado, mesmo. Curioso como Julen Lopetegui, fã confesso de Messi, acaba de se tornar treinador de Cristiano em vésperas do embate de Socchi. No fundo, Julen tem uma palavra muito importante no futuro do nosso craque - ninguém acredita que não tenha conversado com Florentino sobre o assunto. Assim, vai bater-$$$e junto do presidente pela continuação de Ronaldo em Madrid? Ou vai abrir mão dele e iniciar uma revolução no plantel?... Acredito que é importante não perder com a Espanha - uma derrota a abrir é sempre mau, lembre-se o que aconteceu nas estreias do Mundial de 2002 (2-3 com os EUA) e do Mundial de 2014 (0-4 com a Alemanha): não passámos da fase de grupos! - , mas também me parece que a única coisa que devemos esperar (para não dizer exigir) dos campeões europeus é que sejam melhores que Marrocos e Irão. O resto se verá.

A tragédia de um homem ridículo

Este era o título de um filme de Bernardo Bertolucci que concorreu à Palma de Ouro de Cannes em 1982. Um drama politico que envolvia um empresário (interpretado por Ugo Tognazzi, no melhor papel da carreira) à beira da falência e alvo de chantagem. O título podia aplicar-se à tragédia do Sporting nas mãos de Bruno de Carvalho, um homem que desperdiçou por culpa própria e de forma infantil a possibilidade de ser um dos melhores presidentes da história do clube. Agora está no patamar de Jorge Gonçalves e Godinho Lopes mas a tendência é para bater no fundo, já que nestes últimos dois meses BdC parece apostado em bater quase diariamente recordes de irresponsabilidade, teimosia e demagogia; além de ter revelado, no relacionamento com o activo mais valioso do clube - a equipa de futebol profissional - uma incompetência patética tanto no papel de líder-conutor-de-homens como no papel de gestor, cujo principal objectivo, recorde-se!, é SEMPRE a valorização dos activos. Há dois meses, na sequência do estúpido psicodrama após a derrota em Madrid, escrevi neste espaço que Bruno «tinha perdido o Sporting» (longe de imaginar a barbaridade que estava para acontecer em Alcochete).

Agora já nem sei o que dizer, mas confesso que não esperava dele [ao fim de cinco anos de bom trabalho em muitas áreas] tantos e tão consecutivos erros - tantos!, tantos!, tantos! - nem a insistência numa espiral suicida que já sangrou brutalmente a tesouraria do Sporting e ameaça atrasar o clube alguns anos. «Gestão danosa» é o único termo que me ocorre quando penso no BdC destes últimos dois meses (por falar nisso - lembram-se o que ele disse de Godinho Lopes e de anteriores direcções assim que tomou posse?...). A frase «não estamos preocupados por não ter equipa para a próxima época» ficará no anedotário negro do Sporting. Mas enfim. Não há mal que dure sempre. Os jogadores saem, os treinadores saem, os presidentes caem… e o clube continua. Os sportinguistas estão a sofrer mas serão eles a escolher o caminho.