António Oliveira na redação de A BOLA para uma entrevista, conduzida pela jornalista Irene Palma -  Foto: Miguel Nunes
António Oliveira na redação de A BOLA para uma entrevista, conduzida pela jornalista Irene Palma - Foto: Miguel Nunes

António Oliveira: «Nem todos são Abel ou Jesus»

Treinador português fez balanço dos últimos anos no Brasil e falou dos requisitos para voltar ao ativo

António Oliveira, atualmente sem clube, concedeu uma entrevista ao Globo Esporte, na qual falou dos projetos no Brasil, nomeadamente Cuiabá, Athletico Paranaense, Corinthians, Sport Recife e Remo, explicando o que falhou para deixar estes dois últimos ao fim de tão pouco tempo (quatro jogos e menos de três meses, respetivamente).

«Em momento algum me arrependo. Sabia dos riscos. Sempre entrei em projetos extremamente desafiantes. Fiz o melhor possível dentro dos recursos e do tempo. Mas sou um treinador de processo, e sem estabilidade não há crescimento», justificou, focando-se no Sport Recife, que desceria de divisão: «O clube estava extremamente instável, com dois pontos em sete jornadas. Emocionalmente abalado e com pressão natural. Houve evolução clara, reconhecida internamente, mas era preciso resultado imediato, e o calendário pesou muito.»

E lembrou que o êxito alcançado por Abel Ferreira (Palmeiras) e Jorge Jesus (ex-Flamengo) influencia a opinião sobre os treinadores portugueses: «Abre portas, mas aumenta a expectativa. Nem todos são Abel ou Jesus. Há bons e maus treinadores em Portugal e no Brasil. O treinador português evoluiu muito e, quando se adapta rápido ao contexto brasileiro, normalmente tem longevidade.»

A gestão no futebol brasileiro também foi tema: «Tive dois anos brilhantes no Cuiabá, que para mim é referência em gestão desportiva e financeira. O Palmeiras é outro exemplo. O problema de muitos clubes é a incapacidade de avaliar o processo. Mudam muito, vivem sob pressão externa e procuram bodes expiatórios.»

O técnico luso admitiu ainda que «assumir o Corinthians [em 2024] foi uma das maiores responsabilidades do futebol brasileiro». «O clube vivia um momento muito instável dentro e fora de campo. Jogámos organizados, competitivos, passámos todas as eliminatórias, fomos primeiros na Sul-Americana. Tem uma torcida fenomenal, fantástica, que aprendi a amar. Um torcida que carrega qualquer treinador, qualquer jogador para a frente, tenho respeito absoluto pelo clube, pelos jogadores e pela torcida. Dei tudo o que tinha todos os dias e digo-lhe de uma forma muito franca que um dia gostaria de regressar», sublinhou.

Sobre o que falhou no timão, o filho de Toni explicou que «as saídas de Cássio, Paulinho e a lesão do Fagner pesaram», e falou da decisão de deixar no banco o guarda-redes, num jogo da Taça Sul-Americana, após um desabafo sobre saúde mental feito pelo jogador: «Sempre quis contar com o Cássio. A decisão de tirá-lo foi técnica, mas também para protegê-lo, porque ele atravessava um momento emocional difícil. A saída do clube foi entre ele e a direção.»

A viver momento pouco habitual nos últimos tempos — «Estou a aproveitar algo que já há muito tempo não fazia, desfrutar do meu tempo em família, com os meus filhos, com a minha mulher, acompanhar os meus pais. É sempre muito difícil estar longe de casa e de quem amamos» —, o técnico de 43 anos revelou o que é preciso antes de aceitar o próximo desafio: «Agora penso em descansar e ouvir propostas que ofereçam confiança ao treinador e projetos sustentados. Só saio de Portugal para projetos com provas dadas de confiança ao treinador e tempo para implementar processo. Quero desfrutar da família, recuperar o que perdi nestes cinco anos. Mas, se surgir um projeto sólido, estarei disposto a regressar ao Brasil ou a qualquer mercado.»