Ruben Amorim, antigo treinador do Manchester United
Ruben Amorim, antigo treinador do Manchester United - Foto: IMAGO

Amorim: o fantasma da Segunda Circular

Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Ruben Amorim saiu do Manchester United e voltou a entrar em Lisboa ainda antes de aterrar. Este não é o tema que tinha planeado para o início de 2026, mas torna-se inevitável abordá-lo.

Os efeitos da saída de Ruben Amorim do Manchester United rapidamente se fizeram ecoar em Lisboa, basta acompanhar os programas desportivos e/ou as redes sociais para perceber que a sua associação aos dois clubes da 2.ª circular foi quase automática. Enquanto estiver livre no mercado, Ruben Amorim será sempre como um fantasma que paira sobre os atuais treinadores, principalmente em Alvalade.

Este artigo não pretende avaliar o mérito absoluto de nenhum treinador, nem comparar talentos ou aptidões, mas sim refletir sobre as causas destas associações mesmo 14 meses após a sua saída do campeonato nacional.

Rui Borges foi aceite em Alvalade, principalmente por ter conseguido o bicampeonato, cujo mérito continua a ser associado a Amorim, sendo Rui Borges apenas visto na maioria das vezes como uma peça neutra que permitiu continuar o desígnio que já tinha sido traçado pelo seu antecessor, como se fosse bom já não ter comprometido.

A verdade é que Rui Borges foi aceite, mas nunca adorado pela massa adepta, não tem sido muito contestado, isso é verdade, mas não se deve a qualquer relação ou vínculo emocional que tenha sido estabelecido, mas sim ao título anterior e à consistência dos resultados no início desta temporada.

É verdade que se tem assistido a uma melhoria notória no processo de comunicação do treinador, mas o carisma não está lá. Está longe de conseguir suplantar a relação de simbiose quase perfeita que Rúben Amorim conseguiu com os adeptos, razão pela qual nunca foi esquecido e que faz alguns adeptos pensarem (correta ou incorreta) que se viesse agora ainda viria a tempo do tri, ou pelo menos faria sonhar uma grande percentagem dos adeptos, aquela percentagem que não o olha como traidor por ter saído a meio da época.

O timing da saída de Ruben Amorim do Manchester United ajuda claramente a esta associação uma vez que coincide com o empate frente ao Gil Vicente e a derrota, nesta última terça-feira, 6 de janeiro, frente ao Vitória de Guimarães, que afasta o Sporting da possibilidade de vencer a Taça da Liga, timing que desperta a memória emocional de adepto.

Por outro lado, é verdade que o Benfica tem José Mourinho, nome histórico do futebol mundial, mas também é verdade que o terceiro lugar agrada muito pouco à massa adepta benfiquista que exige sempre mais, que exige títulos.

Há muito que o nome de Ruben Amorim é associado ao Benfica sempre que algo parece estar menos bem. No universo benfiquista, a associação a Ruben Amorim não nasce apenas da oportunidade de mercado, nasce sobretudo de uma narrativa emocional construída desde o sucesso alcançado em Alvalade.

Desde então, uma parte significativa dos adeptos vive com a sensação de perda simbólica, um treinador assumidamente benfiquista, formado no clube, que atingiu a glória, mas com o rival.

Por isso, sempre que algo não corre bem, o nome de Amorim regressa como uma espécie de reposição da ordem natural das coisas, quase como a vontade de trazer para casa alguém que os adeptos sentem emocionalmente como seu.

Não é só racionalidade desportiva, é identidade, pertença e a ideia de que ainda existe uma história inacabada entre Amorim e a Luz. Mourinho não tem recebido, pelo menos até agora, grande contestação, apesar do terceiro lugar na Liga e dos menos positivos resultados na Liga dos Campeões, mas isso deve-se sobretudo a três pontos-chave: o peso emblemático do próprio treinador, a criação de narrativa de um inimigo comum que serve sempre para unir (a arbitragem) e o desempenho de excelência do FC Porto que não diminui a época dos adversários, mas explica porque ser bom não é suficiente.

Mas a verdade é que, também na Luz, o facto de Amorim estar livre faz aumentar a pressão dos resultados, pois alguns adeptos encontram no seu imaginário uma solução melhor para o futuro do clube. Mourinho é dos poucos treinadores em Portugal com capital emocional suficiente para retardar a contestação, mas esse capital também tem prazo.

O simples facto de Ruben Amorim ser constantemente associado aos dois rivais históricos da 2.ª Circular aumenta inevitavelmente a pressão sobre ambos: «Contratar Amorim será a decisão certa ou um erro estratégico?», «E se o outro o fizer primeiro e resultar?», «E se vier… e correr mal?».

Há sempre uma decisão por tomar… e um risco por assumir. Quem ousará dar o primeiro passo? Ou ninguém o dará? Tudo dependerá de dois fatores determinantes: aquilo que os próximos resultados ditarem e, sobretudo, a vontade do próprio Ruben Amorim.

E, este é o ponto que tem sido consistentemente esquecido, a vontade do próprio treinador. Um eventual regresso a Lisboa, seja à Luz ou a Alvalade, pode ser deslumbrante e glorioso, mas também pode ser uma armadilha quase fatal para a sua carreira caso não alcance rapidamente os resultados desejados.

Ainda assim, Amorim habituou-nos a olhar sempre para o copo meio cheio, a desafiar o medo com ambição: «E se corre bem?». Talvez seja exatamente nesta tensão entre risco e sonho que reside o grande fascínio desta possibilidade, mas essa é, claramente, uma conversa com profundidade suficiente para merecer um artigo próprio.

No fundo, enquanto Ruben Amorim estiver livre, não precisa de estar em Lisboa para estar presente. Ele não ocupa um banco, não define estratégias, mas ocupa espaço emocional e define expectativas, daí a escolha do título, tal como um fantasma ele não precisa estar, não precisa de ser visto, mas a sua hipotética presença será sentida.

E, até alguém fechar definitivamente esta história, os dois clubes da Segunda Circular continuarão a viver com a mesma pergunta silenciosa: e se, um dia, ele voltar?