Gonçalo Guedes celebra o primeiro golo de Portugal ao Chile
Gonçalo Guedes celebra o primeiro golo de Portugal ao Chile

A vitória sabe sempre bem mas há caminho a arrepiar… (crónica)

Ingenuidade de Portugal, que aceitou pisar terrenos de 'sururu' que fazem parte da cultura do futebol sul-americano, tornou os segundos 45 minutos num teste atípico e indesejado. Martínez tem dez dias para afinar uma máquina que, a carburar bem, pode ir muito longe na estrada do título mundial…

Antes de entrar na crónica do Portugal-Chile, uma nota relevante, mas muitas vezes esquecida: os jogos que antecedem as grandes competições internacionais, não sendo a feijões, porque está sempre o prestígio das seleções em causa, servem, essencialmente, para afinar processos, dissipar dúvidas e aferir da forma dos jogadores. Basta lembrar os recentes resultados caseiros de dois dos principais favoritos, a Espanha frente ao Iraque (1-1) e a França contra a Costa do Marfim (1-2), para se perceber que Luis de la Fuente e Didier Deschamps valorizaram outros fatores, mais relevantes do que o score final, quando escolheram quem ia a jogo.

Outra nota que merece referência: como Portugal tem o primeiro jogo no Mundial a 17 de junho, frente à RD Congo, talvez se justificasse um terceiro jogo de preparação…

Agora sim, vamos ao Portugal-Chile.

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A grande diferença de qualidade que existe atualmente entre Portugal e o Chile não foi, minimamente, transposta para o resultado. Por prudência dos sul-americanos, que durante a primeira parte estacionaram o autocarro em frente a Vigouroux, o seu elemento mais em destaque, e por desperdício da turma nacional, que dispôs de três oportunidades claríssimas para marcar.

Mas se durante a primeira parte o jogo só teve um sentido, no segundo tempo, com dez jogadores de cada lado por expulsões, em cima do intervalo, de Rafael Leão e Román, o Chile mostrou-se mais afoito, beneficiando o despovoamento do meio-campo de Portugal, entregue a Rúben Neves e Bruno Fernandes sem que os extremos passassem a jogar mais por dentro, compactando a zona.

É verdade que foi a partir dos 58 minutos que Portugal acertou com o fundo das redes chilenas, mas a solidez não foi muita e o golo chileno, já no lavar dos cestos, deveu-se a demasiada passividade lusitana, que não defendeu Rui Silva.

Opções iniciais

Num jogo em que as substituições eram em regime de bar aberto, Roberto Martínez optou por um 4x3x3, com muita atividade nas alas e uma circulação de bola de grande qualidade. Mas sem a presença na área que o volume de jogo canalizado pelos extremos e laterais justificava.

E aqui há um problema que Martínez tem 10 dias para resolver (embora a entrada no grupo dos quatro jogadores do PSG possa alterar as premissas): enquanto Samu Costa se mostrou competente, com um trabalho sólido de contenção e bons passes à distância (é fiável para os impedimentos de Rúben Neves), Bernardo Silva e Bruno Fernandes não tiveram o posicionamento mais favorável, o primeiro porque, ao vir buscar jogo aos centrais, deixava de poder contribuir com uma das suas maiores virtudes, a chegada à frente; o segundo porque, durante demasiado tempo perto de Cristiano Ronaldo, não teve a influência que dele se espera na manobra da equipa.

São questões a afinar, sendo que Vitinha e João Neves terão uma palavra a dizer no miolo, Nuno Mendes, muito provavelmente, fará com que Cancelo derive para a direita (onde jogou na segunda parte) e Gonçalo Ramos regressará ao passado como alternativa mais agressiva defensivamente a Cristiano Ronaldo, ou, em caso de necessidade, ao lado de CR7.

Mas o jogo com o Chile não serviu para apenas identificar debilidades (e este é o momento para combatê-las), também houve oportunidade de ver um Rúben Dias, que passou a última fase da época, no City, lesionado, em excelente plano, um Gonçalo Guedes a dar-se ao jogo e a provocar inúmeros desequilíbrios (além do belo golo que assinou, a passe de Rúben Neves), e um Bruno Fernandes com um segundo tempo (grande golo) de boa qualidade. Verificou-se um crescimento de Francisco Conceição, mais concentrado e rigoroso e, por paradoxal que pareça, uma excelente primeira parte de Rafael Leão, que colocou a cabeça em água ao lado direito do Chile e ainda acertou no poste depois de um passe deslumbrante de CR7, de calcanhar (9 minutos).

Apesar de jogar dez contra dez durante 45 minutos não constasse das contas de Roberto Martinez, a razão que levou a tal merece reflexão, porque Portugal vai defrontar a Colômbia: os sururus fazem parte da cultura do futebol sul-americano e há que fugir deles como o Diabo da Cruz. Ora, após Cancelo se ter embrulhado com Faundez, a equipa nacional, especialmente Rafael Leão, foi ingénua ao meter-se em terrenos que são claramente domínio do adversário e acabou penalizada. Fica a lição.

Maldita passividade

Com as equipas amputadas de uma unidade durante toda a segunda parte, os espaços abundaram e o jogo partiu-se. Já disse que com vantagem de quem tinha os melhores jogadores. Mas, mesmo assim, em várias ocasiões, nomeadamente no lance do golo do Chile, e também em duas ou três jogadas na grande área nacional, houve cerimónia a mais e pezinhos de lã onde se requeria outra determinação. Com outro tipo de adversário, o preço a pagar teria sido, de certeza, elevado.

Resumindo, Portugal ganhou bem, Martínez tem jogadores na defesa e na baliza que lhe permitem dormir descansado, precisa de definir com maior nitidez as funções dos médios, no sentido de compactar mais a equipa (provavelmente com a subida para o meio-campo do lateral que estiver do lado contrário da bola), e deve saber viver com duas situações diametralmente opostas:

A)  – iniciar o trabalho defensivo à frente da linha de meio-campo, e optar pela zona, quando Cristiano Ronaldo estiver em campo;

B)  – ser agressivo e assumir a pressão alta, quando estiverem Gonçalo Ramos ou Gonçalo Guedes na posição 9.

Há mais 90 minutos para acertar agulhas, mas, embora contra a Nigéria o técnico espanhol não vá apresentar a equipa que defrontará a RD Congo (ainda vai baralhar jogo com a inclusão dos bicampeões da Europa), o mapa da mina estará sempre na agressividade e concentração defensivas, e na capacidade de colocar um médio (ou dois), ou na cabeça da área contrária, ou a aproveitar os espaços nas costas do ponta de lança, que arrasta normalmente dois defesas.

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