Contra tudo e contra todos
A expressão contra tudo e contra todos é automaticamente associada à maneira como o FC Porto vive o futebol. Um sentimento que para os dragões é uma declaração de princípios identitários, enquanto para os adversários é apenas uma estranha forma de ser que gostam de caricaturar à primeira oportunidade.
Os azuis e brancos partem da convicção de que há um mundo lá fora desconfiado, hostil, empenhado em dificultar-lhes a vida. Se essa perceção corresponde sempre à realidade ou se é saudável alimentar a tese de cerco constante, cada um tirará as conclusões que entender.
Com Pinto da Costa e, agora, André Villas-Boas o contra tudo e contra todos transformou-se numa ferramenta de fortalecmento de grupo utilizada por treinadores com personalidades e origens tão diversas como Artur Jorge, Tomislav Ivic, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos, Octávio Machado, José Mourinho, Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira, AVB, Vítor Pereira, Julen Lopetegui, Nuno Espírito Santo, Sérgio Conceição, Vítor Bruno, Francesco Farioli...
Um leque vasto de técnicos com visões diferentes sobre modelo de jogo, tática, preparação física ou análise e interpretação de dados. Em comum, no entanto, todos se agarraram ao contra tudo e contra todos como cola que une os plantéis. Sim, porque há uma dimensão menos mensurável que pode fazer perder ou ganhar jogos — a identidade coletiva.
A ameaça exterior — real, percecionada ou mesmo fabricada — é combustível que move montanhas. Recordemos o Sporting de Ruben Amorim. Uma das frases marcantes daquele ciclo de sucesso sem paralelo na história moderna dos leões foi o agregador onde vai um vão todos, após encontro no terreno do Famalicão, em 2020. O mecanismo psicológico é semelhante ao contra tudo e contra todos dos portistas. A diferença está nos detalhes. Num caso, a união nasce a partir da oposição ao exterior; no outro, destaca-se a solidariedade no interior. O resultado pretendido é criar a sensação de que há um nós suficientemente forte para resistir às dificuldades.
José Mourinho percebeu isto como poucos. E não é por acaso que, por onde andou, recorreu frequentemente à construção da tal identidade coletiva vincada. Também no Benfica, nesta última passagem (como tentei evidenciar no artigo destacado em baixo), Mou sublinhou a bold que uma equipa não deve ser só um conjunto de futebolistas que partilha um balneário. O special one sabe que, por vezes, importa acreditar numa narrativa com que todos se identifiquem e em torno da qual se persigam os objetivos. Quanto maior forem as adversidades, nem que algumas sejam imaginárias, mais aumenta a disposição para lutar... contra tudo e contra todos.
A finalizar, duas faces de uma moeda difícil de equilibrar. Em que momento o contra tudo e contra todos deixa de ser uma possível vantagem competitiva e passa a ser uma armadilha que menoriza as instituições? Por outro lado, os críticos do que está implícito no contra tudo e contra todos, seja por convicção ou incapacidade de aplicá-lo na prática, não acabam por invejar a máxima quando constatam que o espírito de corpo vacila nos instantes decisivos época após época?
Antigo internacional brasileiro, Felipe Melo, 43 anos, conhecido por bater em tudo o que mexe, dentro e fora de campo, pronunciou-se sobre a polémica que envolve Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e a Seleção Nacional. Num vídeo publicado no Instagram, já viral, defendeu CR7 e entrou a varrer — uma especialidade de sempre... — sobre os companheiros do avançado do Al Nassr. «Há uma diferença grotesca no trato dos colegas portugueses para Cristiano Ronaldo e nos jogadores argentinos para Lionel Messi», disse, ponto de partida para novas críticas: «Ninguém ali [na Seleção] chega ao tornozelo de Cristiano Ronaldo.»
Entre os 270 mil gostos da publicação, destacava-se o do próprio... Cristiano Ronaldo. Depois disto, o mais complicado para Pedro Proença não será (só) convencer jogador e selecionador a fumarem o cachimbo da paz...