A refundação da Seleção Nacional
Nos quatro jogos que abriram a defesa do título da Liga das Nações, recuperando o mote do Campeonato do Mundo de 2026, Portugal fez aquilo que ainda não tinha sido feito. A Seleção Nacional foi capaz, de forma cabal e absoluta, de demonstrar que vale muito mais como equipa solidária, onde os talentos são postos ao serviço do coletivo, do que como dez jogadores que correm para um outro.
Os nove minutos finais do jogo do Dragão com a Noruega, em que, estando em vantagem tangencial, teve de jogar em inferioridade numérica contra uma boa equipa, de grande capacidade física e atlética, foram um espelho de entrega a uma causa comum, onde nenhum jogador recusou suor e sofrimento, que desaguaram no sorriso final dos vencedores. Ver Gonçalo Ramos a dobrar Nuno Mendes, já na compensação, fica como imagem do espírito de ‘um por todos e todos por um’ que esteve presente na equipa de Portugal que, dentro das quatro linhas, deu uma resposta enfática à deserção do seu capitão, independentemente do politicamente correto ouvido nas conferências de imprensa.
Ao longo dos últimos 23 anos, Cristiano Ronaldo esteve na Seleção Nacional e tornou-se no jogador mais impactante da história do futebol português, embora nos últimos quatro tenha sido titular mais pelo que tinha feito do que pelo que era capaz de fazer.Ao não aceitar a decadência física que o torna uma sombra de quem foi - absolutamente incapaz de ganhar um lance de um-contra-um, sem intervenção útil no processo de pressão defensiva, sem os reflexos que faziam a diferença entre meter a bola dentro da baliza e quase meter a bola dentro da baliza - Ronaldo descolou-se da realidade e passou a viver num universo à parte, onde continua a ser o alfa e o ómega. Foi essa perceção errada, que ninguém, na bolha onde vive, foi capaz de corrigir, que redundou na soberba e arrogância que o levaram a levantar voo rumo a Riade, via Madrid.
Com outro espírito, Cristiano Ronaldo podia continuar a ser útil à Seleção Nacional, jogando o que o treinador entendesse e quando este o entendesse, aconselhando os mais jovens e exercendo a liderança que a sua senioridade justificava. Porém, como o ego falou mais alto, a corda partiu-se, e a refundação da Seleção Nacional aconteceu em Oslo, solidificou-se em Copenhaga e mostrou-se, entusiasmante, no Porto. Um eventual recuo de Cristiano Ronaldo só trará utilidade à Seleção Nacional se este aceitar, de bom grado, um papel adequado ao que vale atualmente. E, mesmo assim, depois do que disse do selecionador e dos companheiros, cheiraria sempre a hipocrisia. Porque uma coisa é certa: por muito que lhe respeitemos o passado, o futuro não passa por ele; por muito que lhe estejamos agradecidos pela forma como projetou no mundo o nome de Portugal, chegou a hora do adeus.Neste contexto - mais a mais a braços com a justiça federativa (a não ser que Pedro Proença venha dizer que CR abandonou a Seleção devidamente autorizado) - apenas se percebe o que os responsáveis da FPF têm dito à luz de uma estratégia que vise colocar o ónus da decisão final nos ombros de Cristiano Ronaldo. Aguardemos pelas cenas dos próximos episódios, na certeza de que o dia 30 de setembro de 2026 marcou um antes e um depois da Seleção Nacional.
O PÓS-CRISTIANO RONALDO
O jogo da Dinamarca e as duas partidas frente à Noruega mostraram dinâmicas novas na Seleção Nacional, depois do embate em Alvalade, com o País de Gales ter revelado uma abordagem tática diferente daquela utilizada por Roberto Martinez.
No anfiteatro leonino, Jorge Jesus revelou-se adepto do 4x1x3x2, embora a colocação de Bruno Fernandes sobre a esquerda do meio-campo (que repetiu no Dragão) obrigasse a um desdobramento defensivo numa ala onde mora um lateral eminentemente ofensivo, complexo. Nesse primeiro jogo da era-Jesus, onde Cristiano Ronaldo atuou durante 67 minutos, realizado após apenas um treino ministrado pelo novo responsável técnico, o melhor foi o resultado, ficando reservada para Oslo uma observação que permitisse conclusões mais substanciais. E o que aconteceu no estádio Ullevaal correspondeu a uma revolução, não só porque o 4x2x3x1 foi desenhado com dois alas ‘puros’, Francisco Conceição e Pedro Neto, mas também porque Gonçalo Ramos surgiu como ponta-de-lança, apoiado por João Félix. Tudo isto mexeu, numa volta de 180 graus, com a dinâmica da equipa: a forma de defender passou a basear-se em pressão alta - sem que ninguém virasse a cara ao sacrifício de correr sem bola, para evitar saídas de qualidade do adversário e recuperar a posse tão cedo quanto possível - com a equipa a manter-se junta e a verificar-se que o trinco, João Palhinha, no caso, posicionava-se uma linha mais atrás de João Neves, e colocava-se como terceiro central sempre que o jogo o justificava, baixando Félix para o lado de Neves, o que transformava o desenho em 5x4x1. Mas todos estes desdobramentos, porque a equipa conseguia manter-se junta, surgiam com naturalidade, como se a máquina estivesse há muito oleada.
Uma forma de jogar como a que Portugal adotou a partir de Oslo só tem sucesso se todos trabalharem igualmente em prol do coletivo. É impossível fazer pressão alta com dez jogadores, só funciona se estiverem os onze empenhados na função. Caso contrário, acontece como no passado, quando Cristiano Ronaldo era um corpo à parte e a equipa tinha de marcar à zona, começando o trabalho defensivo dez metros à frente do meio-campo. São filosofias diferentes, e foi essa diferença que Jorge Jesus implementou com assinalável sucesso.Mas será que tudo foram rosas sem espinhos? Apesar das vitórias, seria de uma grande desonestidade intelectual afirmá-lo. Há muito a melhorar - e quanto mais Jesus for tendo tempo para trabalhar, mais se entranhará nos jogadores o que pretende - especialmente no momento das transições rápidas do adversário. Haverá posicionamentos a repensar e, sobretudo, algum entusiasmo que deverá ser substituído por frieza tática, uma vez que foi em função desses espaços deixados aos adversários que surgiram as maiores dificuldades.
Jorge Jesus deverá, também, meditar na forma de suprir o facto de nenhum dos centrais dar particular profundidade à defesa de Portugal, seja através de alternativas mais rápidas a Renato Veiga, que saiu deste ‘tour’ com nota positiva e estatuto reforçado, diga-se, seja através do envolvimento dos laterais, especialmente do supersónico Nuno Mendes, nessa função.Outras questões, nomeadamente as desconcentrações de Rafael Leão ou a inconstância emocional de Francisco Conceição, serão de resolução mais fácil.
A ABUNDÂNCIA
Fernando Santos foi campeão da Europa em 2016 porque sempre privilegiou o equilíbrio da equipa, em detrimento de tentações mais populares. Ficou célebre, diria até como imagem de marca, o conceito amiúde explicado pelo ex-selecionador, que marcava a diferença entre ‘jogar bem’ e ‘jogar bonito’, dando preferência ao primeiro, mais rigoroso e pragmático, embora menos agradável à vista.
Jorge Jesus, apesar da nota artística que quer ver nas suas equipas (embora tenha dito muito recentemente, que no futebol só tem razão quem ganha), revelou-se de grande lucidez ao fazer escolhas, sobretudo para o meio-campo, onde tem dois trincos (Palhinha e Ruben Neves) para uma vaga e quatro médios de nível mundial (Vitinha, Bruno Fernandes, João Neves e Bernardo Silva) normalmente para um ou dois lugares (com o País de Gales usou, de início, Bruno Fernandes e Vitinha; na Noruega, utilizou no primeiro onze, João Neves; na Dinamarca chamou Vitinha e colocou Bruno Fernandes na posição mais avançada do lesionado João Félix; e no Dragão escolheu Vitinha e Bruno Fernandes).
AS SUBSTITUIÇÕES
No futebol moderno, onde são permitidas cinco substituições (50% dos jogadores de campo), o conceito de ‘titular’ está cada vez mais desatualizado e tenderá a perder a importância que historicamente lhe foi dado (o primeiro Mundial a autorizar substituições, duas, foi o de 1970), substituída pela profundidade do plantel, que permite aos treinadores manter a equipa fresca sem perder qualidade, ou mudar taticamente sempre dentro de padrões elevados.
Já há, e a tendência irá aprofundar-se, jogadores essenciais para uma equipa que fazem a diferença nos 20 minutos finais, e outros a quem é já possível dizer, «não te poupes a pensar em durar 90 minutos, dá tudo e quando não puderes mais sais», na certeza de que quem o render irá manter o mesmo nível qualitativo de ‘performance’.
No grupo que compõe a Seleção Nacional, Jorge Jesus pode dar-se a esse luxo, e essa é uma mensagem que deverá ser interiorizada pelos jogadores. Na verdade, o futebol está a mudar, e quem não souber acompanhar a velocidade dos tempos ficará inexoravelmente para trás.
O selecionador nacional tem vários defeitos e muitas qualidades, sendo a principal, provavelmente (além da obsessão pelo perfecionismo) a forma como lê o jogo desde o banco, na esteira de grandes mestres da tática, muitos deles empíricos, mas profundos conhecedores do jogo, que marcaram a escola portuguesa de treinadores.
Ter no banco, como sucedeu nesta ‘digressão’, jogadores como Vitinha, Bernardo Silva, João Neves, Ruben Neves, João Palhinha, Trincão, Francisco Conceição, Pedro Neto ou Rafael Leão representa uma riqueza que importa saber aproveitar. E, nestes quatro jogos, não só Jorge Jesus apresentou ‘onzes iniciais’ coerentes, como manejou bem as alterações e o seu ‘timing’.
OS DESTAQUES
Nestes quatro jogos de Portugal houve casos de confirmação e casos de afirmação. Nas confirmações, Diogo Costa, Cancelo, Ruben Dias, Nuno Mendes, Vitinha e Bruno Fernandes, não oferecem dúvidas, assim estejam fisicamente bem e, no caso dos laterais, desde que vejam bem compensada a sua propensão atacante. A qualidade do guarda-redes do FC Porto, o nível de Cancelo (mas que golo à Noruega!!!), a autoridade de Ruben Dias, a capacidade desequilibradora de Nuno Mendes, a lucidez de Vitinha, e o ressurgimento de Bruno Fernandes, são mais-valias inestimáveis para Jorge Jesus.
No campo das afirmações, é evidente que Gonçalo Ramos dá à equipa trabalho em prol do coletivo e qualidade finalizadora e João Félix, na posição em que se sente feliz, traz com ele um futebol perfumado, com filigrana, mas ao mesmo tempo objetivo e empenhado. Estamos a assistir, sem dúvida, ao melhor período da carreira de Félix que, quase a fazer 27 anos e com a independência financeira mais do que garantida, já manifestou desejo de regressar a um grande clube europeu.Renato Veiga foi outro dos que marcou pontos, Pedro Neto e Francisco Conceição provaram que há que contar com eles para uma entrega total à equipa (além do que produzem quando têm a bola), Trincão, sempre que foi chamado, mostrou-se confortável em campo, e Rafael Leão deu a sensação (para já apenas a sensação…) de estar mais focado no jogo.
O FUTURO
O ditado popular, de inspiração bíblica, ‘O futuro a Deus pertence’, deve sofrer uma ligeira alteração quando falamos da Seleção Nacional: ‘O futuro a Jesus pertence (porque Deus é adjunto)’. De facto, depois da deserção de Ronaldo, e enquanto permanece a dúvida quanto aos desenvolvimentos que o caso conhecerá, haverá sempre uma frase, dita por todos os treinadores, sem exceção, que uns cumprem e outros apenas dizem que cumprem: «na equipa mando eu.» Aos 72 anos, Jorge Jesus não tem de provar a ninguém que é dos que cumprem este princípio. Por isso, seja qual for a decisão de Cristiano Ronaldo - e a bola, depois do que JJ e Proença disseram, está do lado dele - tenho a convicção de que o coletivo prevalecerá. Uma dúvida - e não se deve apenas ao ‘like’ de CR à publicação de Felipe Melo - quanto à forma como o grupo, independentemente do guião dito nas conferências de imprensa, reagirá a um eventual regresso à Seleção do capitão do Al Nassr. Mas essas serão contas de outro rosário..