Papu Gómez foi titular pela Argentina em dois jogos no Mundial 2022
Papu Gómez foi titular pela Argentina em dois jogos no Mundial 2022 - Foto: IMAGO

A queda do campeão do mundo suspenso por doping: «Isolei-me, consultei um psicólogo»

Papu Gómez foi um dos heróis que ajudou a Argentina a conquistar o Mundial 2022 no Qatar, mas tudo mudou com um caso que ocorreu no Sevilha, antes da fase final, que o levou a ficar fora dos relvados durante dois anos

Alejandro Papu Gómez, campeão do mundo pela Argentina em 2022, viu a sua carreira interrompida por uma suspensão de dois anos devido a um controlo antidoping positivo. O caso, que ocorreu antes do Mundial no Qatar, levou ao seu isolamento e afastamento da seleção, marcando uma viragem drástica no seu percurso.

A ausência de Papu Gómez tornou-se notória a 23 de março de 2023, durante as celebrações do título mundial em Buenos Aires. Enquanto os seus 25 colegas de equipa, incluindo Lionel Messi e Angel Di María, festejavam com 80 mil adeptos no Estádio Monumental, Gomez era o único herói do Qatar ausente. A justificação oficial do seu clube, o Sevilha, apontava para uma lesão, mas a verdade era outra e só seria revelada sete meses depois.

O médio argentino tinha acusado positivo para terbutalina, um broncodilatador, num controlo surpresa realizado em outubro de 2022, durante um treino do clube espanhol. Apesar disso, participou no Mundial, tendo sido titular contra a Arábia Saudita e a Austrália, e esteve no pódio a 18 de dezembro para receber a sua medalha, fazendo parte, na altura, do círculo próximo de Messi.

A defesa de Gómez baseou-se na ingestão acidental do xarope para a tosse de um dos seus filhos. No entanto, este argumento não convenceu a agência antidopagem espanhola, que o suspendeu por dois anos por «negligência grave» em outubro de 2023, uma sanção confirmada em recurso no início de 2024.

A terbutalina é classificada como uma «substância especificada» pelo código mundial antidopagem, o que significa que pode ter sido ingerida de forma não intencional e não acarreta uma suspensão provisória. Foi por essa razão que Gomez pôde competir no Qatar enquanto o seu caso era avaliado.

«Não conseguia ver um jogo de futebol»

A notícia do controlo positivo, que o próprio jogador soube durante o torneio, gerou revolta entre alguns companheiros de seleção quando foi conhecida. Sentiram que Gómez tinha exposto a equipa e colocado em risco a conquista do título. Consequentemente, muitos cortaram relações com ele. A federação argentina, por sua vez, nunca emitiu qualquer comunicado sobre o assunto.

A Argentina, no entanto, não correu o risco de perder o seu terceiro título mundial. Segundo os regulamentos da FIFA, tal só aconteceria se «mais de dois membros de uma equipa» cometessem uma violação das regras antidopagem durante a competição. Afastado dos relvados e da seleção, Papu Gomez mudou-se para Bérgamo, em Itália, onde jogou durante seis épocas e meia. Durante o período de suspensão, viveu um processo de isolamento e amargura. «Senti muito ressentimento, muita raiva. Não conseguia ver um jogo de futebol, desligava a televisão», admitiu ao L'Équipe.

Apesar de admitir a sua responsabilidade, o jogador contesta a severidade da pena, comparando-a com sanções mais leves para outras substâncias. «Não me estou a fazer de vítima, a responsabilidade é inteiramente minha. O idiota sou eu, mas apanhei dois anos de suspensão por isto. Consomes cocaína, fumas um charro, dão-te seis meses. Eu, por tomar o xarope para a tosse do meu filho, apanhei dois anos», desabafou o jogador, que se recusou a terminar a carreira por decisão de terceiros. «Queria retirar-me quando eu decidisse!»

Nova polémica

Afastado da seleção argentina e a cumprir suspensão por doping, o futuro de Papu Gómez complica-se com o seu nome a surgir numa investigação por fraude. Além disso, permanece a incerteza sobre se poderá manter a sua medalha de campeão do mundo de 2022.

Atualmente, o jogador está envolvido noutro processo judicial. O seu nome, juntamente com o de vários ex-jogadores do Sevilha, foi mencionado numa investigação iniciada em Barcelona. O caso surge na sequência de uma queixa apresentada por cerca de dez investidores que denunciam uma burla de vários milhões de euros, relacionada com a venda de NFTs de futebolistas em criptomoeda.

Este novo problema surge num momento já delicado para o atleta de 38 anos. Após um período difícil, Gómez confessou ter procurado ajuda profissional. «Isolei-me, consultei um psicólogo, era um ciclo do qual não conseguia sair. E, pouco a pouco, consegui libertar-me», contou.

Fim de carreira?

Em julho de 2025, o jogador de 38 anos assinou contrato com o Pádua, da Serie B italiana, válido até junho de 2027. Regressou à competição e reencontrou o prazer de jogar, mas uma grave lesão no tornozelo interrompeu o seu percurso. Desde então, não voltou a ser convocado para a seleção argentina.

Durante o Mundial 2026, ao contrário de antigos colegas como Ángel Di María, Gomez não partilhou publicamente celebrações das vitórias da equipa de Messi. Também não viajou para os Estados Unidos para assistir aos jogos, como fizeram Sergio Aguero ou Maxi Rodríguez.

Uma questão fundamental permanece em aberto: o seu estatuto de campeão do mundo. O código mundial antidopagem permite que as entidades competentes solicitem «a retirada de todas as medalhas, pontos e prémios» de um atleta infrator, a contar «desde a data da recolha da amostra positiva (...) até ao início da suspensão provisória ou da suspensão».

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