Mundial
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A identidade nacional para lá das quatro linhas
Há uma diferença que todos sentimos, mesmo quando não a sabemos explicar: a paixão por um clube e a mobilização em torno da Seleção Nacional pertencem à mesma família emocional, mas não são a mesma coisa. Ambas convocam pertença, memória, ritual, sofrimento e celebração. Ambas nos fazem gritar por onze jogadores como se gritássemos por nós. Mas há nelas uma diferença essencial: o clube é paixão, divide para unir; a Seleção é identidade e comunhão, une apesar das divisões.
O clube é uma identidade escolhida, herdada ou territorializada. É, muitas vezes, a primeira grande pertença simbólica fora da família. Herdamo-lo do pai, da mãe do avô, do bairro, da cidade, da camisola vista na infância, do primeiro jogo no estádio, do primeiro herói. Na psicologia social, Henri Tajfel e John Turner explicaram isto através da teoria da identidade social: uma parte daquilo que somos nasce dos grupos a que pertencemos. O nós constrói-se sempre por oposição a um eles. No futebol de clubes, esse mecanismo é evidente. Ser de um clube é também não ser dos outros e tê-los como rivais. O adepto organiza o mundo em cores, cânticos, rivalidades, injustiças, memórias e feridas.
A Seleção funciona de outro modo. Não apaga as rivalidades clubísticas, mas suspende-as quase na totalidade. Durante alguns dias, o jogador que era insultado passa a ser celebrado, mesmo que continue a não ser a nossa eleição. O defesa do rival transforma-se em nosso. O avançado adversário passa a carregar a bandeira comum e só queremos que marque. É aqui que entra a sociologia da nação. Benedict Anderson chamou às nações «comunidades imaginadas»: não porque sejam falsas, mas porque a maior parte de nós nunca se conhecerá pessoalmente e, ainda assim, imagina-se parte do mesmo corpo coletivo. A Seleção dá rosto, corpo e dramaturgia a essa comunidade imaginada. A bandeira deixa de ser abstração. O hino deixa de ser protocolo. O país passa a ter camisola, onze titulares e banco de suplentes.
Nos clubes, a paixão é mais íntima, mais intensa, mais quotidiana, mais tribal. Vive do hábito, da rivalidade, da classificação, da deslocação fora, da discussão no café, da injustiça arbitral que dura décadas. Na Seleção, a emoção é mais rara e, por isso, mais concentrada. Não há campeonato todos os fins de semana. Há momentos. Há torneios. Há verões. Há noites que ficam. Há penáltis que suspendem a respiração de milhões. Por isso a Seleção não mobiliza apenas adeptos de futebol. Mobiliza avós que não sabem explicar o fora de jogo, crianças que decoram nomes antes de saberem capitais, emigrantes que choram diante de uma televisão num café distante, famílias que raramente vêem jogos de clubes mas que se juntam quando joga Portugal. O clube pede fidelidade semanal; a Seleção convoca pertença existencial. O clube pergunta: de que lado estás? A Seleção pergunta: quem somos nós?
Esta distinção ajuda a perceber por que razão uma vitória da Seleção tem uma carga emocional diferente, pode até ser menos intensa, mas é mais coletiva. Reforça o orgulho nacional. As conquistas da Seleção Nacional não são apenas resultados que nos colocam na frente de uma tabela classificativa, cada vitória, cada taça, cada título é um ritual de reafirmação coletiva, de glorificação de uma nação e é por isso que por algumas horas, um país disperso se reconhece numa narrativa comum.
Émile Durkheim falaria aqui de «efervescência coletiva»: aqueles momentos em que uma comunidade, reunida em torno de símbolos partilhados, sente mais do que a soma dos seus indivíduos. O futebol internacional é uma das grandes máquinas contemporâneas dessa efervescência. A praça, o café, a sala de estar, o estádio e as redes sociais tornam-se extensões do mesmo corpo emocional. A alegria já não é apenas minha, é nossa. A ansiedade também. O golo liberta porque parece libertar um país inteiro. A Seleção, quando vivida no seu melhor, oferece uma forma luminosa de patriotismo, não a superioridade arrogante, mas a alegria de pertencer. Não o ódio ao adversário, mas o orgulho numa história comum e a celebração de uma identidade feita de diversidade, diáspora, sotaques, memórias e contradições.
Em Portugal esta identidade nacional é normalmente exaltada em competições da Seleção Nacional e o nosso tamanho e história podem explicar. Portugal é um país pequeno, antigo e com uma identidade nacional muito consolidada. As fronteiras portuguesas são das mais estáveis da Europa, e isso cria uma ideia de continuidade histórica, onde podemos ser poucos, mas somos nós. No desporto, essa pequena dimensão ganha uma força emocional especial. Quando Portugal bate países maiores, mais ricos ou historicamente mais poderosos, a vitória parece exceder o futebol. É quase uma compensação simbólica. O campo torna-se o lugar onde o país pequeno pode ser grande.