2018, o ano terrível do cometa BdC
2018 foi um ano intenso e diverso no futebol português. Não raras vezes, pelas pelas piores razões. Mas caso tivéssemos de precisar, num único tema, a marca exclusiva deste ano, não hesitaríamos em dizer que 2018 foi o ano terrível do cometa BdC.
Confiante na solidez do apoio de base dos sportinguistas, otimista com os resultados da sua estratégia de enfrentar tudo e todos e de semear guerras como quem semeia o trigo, o presidente do Sporting acelerou o seu poder, que julgava indestrutível, numa estrada cheia de curvas e armadilhas. O resultado foi, como se sabe, catastrófico. Em poucos meses, um presidente que via aprovar com noventa por cento dos votos todas as medidas necessárias ao controlo pessoal e absolutista do clube, despistava-se e destruía tudo o que antes construíra, a caminho de um império grandioso.
Como nas mensagens dos filmes da Missão Impossível, BdC autodestruiu-se, desde aquele fatídico dia em que depois de ter atacado os jornalistas, os adversários, os árbitros, o poder político, a Liga, a Federação, os sportingados, os tribunais, enfim, o mundo, resolveu lançar uma ofensiva feroz contra os seus próprios jogadores, que tinham acabado de perder um jogo em Madrid. A partir daí, foi o caos e a queda do seu imponente castelo de cartas. Porém, a ele se deve que o ano de 2018 fique para a História como o ano em que o populismo serviu como uma luva ao futebol que consentimos ter.
2018 também foi o ano de nova mudança de ciclo na hegemonia do futebol português. O Benfica parecia encaminhado para a conquista inédita do penta, num ano em que o Sporting navegava num mar de tempestades e o FC Porto vivia, com legítimo temor, as consequências das pesadas imposições da UEFA, por ter infringido o fair play financeiro. Após quatro anos de desastre desportivo e perante a impossibilidade de prosseguir uma política de deslumbrados investimentos que tinham conduzido a uma dívida quase insuportável, o FC Porto decide remexer nos cantos da sua própria casa para aí encontrar soluções baratas.
Pinto da Costa, que tinha falhado, com estrondo, as suas últimas escolhas pessoais para treinador do clube, decide-se por uma figura capaz de levar o FC Porto a jogar à Porto. A escolha recai em Sérgio Conceição, que estava a trabalhar com sucesso no futebol francês. As negociações não são fáceis, mas contam com a inestimável ajuda do próprio treinador, que deseja agarrar o projeto que Pinto da Costa lhe apresenta.
Homem de personalidade forte, convicto, lutador, competente, Sérgio traz com ele um conjunto de jogadores do FC Porto, já quase esquecidos e emprestados por vários clubes europeus. O resultado é surpreendente. Rapidamente, o FC Porto cria uma equipa que parece capaz de morrer em campo pelo seu treinador e pelo clube. Jogadores antes abandonados tornam-se figuras de primeira grandeza e surpreendem a pequena aldeia do futebol nacional.
Entretanto, a SAD portista lança um dos mais ferozes ataques da história ao rival Benfica, através de uma política agressiva que passa pela revelação de correspondência privada no clube da Luz. Os resultados são desde logo determinantes. O Benfica, atónito e incompetente, fica sem reação. A sua política de comunicação oscila entre o inexistente e o ineficaz. O FC Porto percebe que tem um filão que não mais desejará largar e neste enquadramento de vantagem, surge, ainda, uma cereja no topo do bolo: a improvável aliança que Bruno de Carvalho oferece, em nome da luta contra um inimigo comum.
O FC Porto dá, assim, a volta a um ano que se chegou a antever dramático, impede o penta do Benfica e reconquista o poder no futebol português.
2018 foi também o ano do VAR e da assustadora inabilidade dos eleitos para a função. Os erros, alguns clamorosos, estão, agora, à vista de todos e criam uma imagem de que o futebol português voltou a tempos que se julgavam mortos e enterrados. Será, provavelmente, uma mera questão de incompetência que o Conselho de Arbitragem vai ter de resolver.
Foi, ainda, um ano preocupante com o aumento de sinais de violência e de penetração, no futebol e nas claques dos clubes, de gente ligada à criminalidade. O caso de Alcochete, que levou à prisão de quarenta adeptos invasores das instalações do clube e a uma investigação complexa que envolve o próprio ex-presidente, é um acontecimento incontornável neste ano.
Last, but not least, o enredamento do Benfica nas teias da justiça. Apesar de ilibada no tribunal de instrução criminal, no caso e-toupeira, a SAD do Benfica continua sujeita a investigação e a suspeições graves.
Todos estes problemas com a justiça funcionaram como que um travão no trajeto ascensional do clube liderado por Luís Felipe Vieira. A célebre estrutura tremeu e o clube fragilizou-se. Principalmente na imagem de honradês e credibilidade. O reflexo na equipa de futebol e na autoridade do treinador foi evidente e causou estragos.