Dakar 2024: Portugal com 23 pilotos mas os candidatos são os suspeitos do costume
Stephane Peterhansel. Foto: Imago

Dakar 2024: Portugal com 23 pilotos mas os candidatos são os suspeitos do costume

MOTORES04.01.202408:00

Prova arranca esta sexta feira na Arábia Saudita pelo 5.º ano consecutivo e tem uma etapa maratona que promete mexer com as classificações

São 23 os portugueses que sexta-feira começam a participação no mítico Rali Dakar com o sonho de chegarem a Yanbu, dia 19 de janeiro, após 7.891 km, sãos, salvos e, se possível, com o melhor resultado desportivo de sempre. 

A 46.ª edição do Dakar realiza-se pela quinta vez consecutiva na Arábia Saudita, passando por três locais considerados património da UNESCO (AlUla, Hegra e Yanbu), e é, provavelmente, a mais exigente de todas as edições com 12 especiais e o prólogo. Este ano, com um desafio inédito, a super-especial de 48 horas, uma maratona de 584 quilómetros, totalmente disputada nas dunas, sem assistência. 

Se Nasser Al-Attiyah, Sébastien Loeb, Carlos Sainz e, claro, o senhor Dakar, Stéphane Peterhansel, prometem manter as emoções em alta, a comitiva lusa, mais discreta e menos ambiciosa do que em outros anos, conta com uma dupla totalmente portuguesa na luta pela vitória no T4, João Ferreira/Filipe Palmeiro (Can Am Maverick X3), agora com a South Racing.

João Ferreira (Can Am) parte para a 46.ª edição do rali Dakar focado em vencer a categoria SSV, a antiga T4. Navegado pelo experiente Filipe Palmeiro, João Ferreira é, aos 24 anos, um dos maiores talentos do todo-o-terreno nacional, após a conquista do título nacional absoluto em 2022, com um Mini da X-Raid, e com a vitória na Taça da Europa de Bajas. Estreou-se no Dakar no ano passado, e este ano desceu uma categoria, mas defende que será o passo certo, para poder seguir em frente mais tarde. 

Entre as estrelas mundiais, o campeão do mundo de todo-o-terreno e penta vencedor do Dakar, Nasser Al-Attiyah, vai alinhar com o BRX Hunter da Prodrive, um protótipo com motor a gasolina V6 turbo (400 cv), e tem como colega de equipa Sébastien Loeb, nove vezes campeão do mundo de ralis, os dois pilotos apontam à vitória. Com a aventura da Audi no Dakar a terminar em 2024 - vai dedicar-se à F1 em 2026 - Stéphane Peterhansel, 14 vezes vencedor da prova, e Carlos Sainz, bicampeão mundial de ralis, farão tudo para conduzir os Audi RS Q e-tron (com dois motores elétricos que geram uma potência conjunta de 600 cv) à vitória.

O Dakar 2024 vai ter motos elétricas e carros hibrídos e 100% a hidrogénio. Nas motos, a KTM é a principal favorita com Kevin Benavides, vencedor em 2023, e Toby Price. O campeão do mundo de todo-o-terreno Luciano Benavides é outro candidato à vitória com a Husqvarna, assim como Ricky Brabec com a Honda e os pilotos da GasGas Sam Sunderland e Daniel Sanders.

Ao todo, estão inscritos 434 veículos divididos por 137 motas, 10 quads, 72 carros (na nova categoria Ultimate, que junta os T1 protótipos e os T2 de série), 42 Challenger (os antigos T3 ou veículos ligeiros protótipos), 36 SSV (que correspondem aos antigos T4 ou veículos ligeiros derivados de série) e 46 camiões. Há ainda três stock (automóveis elétricos), 66 automóveis clássicos e 14 camiões clássicos. No Dakar Future Mission participam seis motas, um automóvel, um camião e dois veículos ligeiros.

Espírito à solta no temido 'Empty quarter'

O Rali Dakar é o rali mais duro – e perigoso – do mundo e esta 46.ª edição está apostada em manter esse estatuto tendo, para isso, criado um desafio que ninguém sabe como terminará num cenário perfeito, o Empty quarter, um deserto profundo, com dunas impressionantes, onde praticamente não há vida. 

À espera dos pilotos está uma etapa crono realizada em dois dias em que os concorrentes, espalhados por oito bivouacs, serão, basicamente, deixados à sua sorte, sem ajuda externa das equipas aos pilotos e veículos. A jornada da maratona começa às 7h da manhã, e será interrompida, obrigatoriamente, às 16h00, por questões de segurança e de falta de luz natural. À sua espera estão oito tendas gigantes para o merecido descanso e pernoitarem no meio das dunas, dormem em sacos-cama, não há casas de banho e recebem apenas água e uma ração militar. Sem comunicações ou assistência do exterior. Os pilotos regressam à prova às 7h00 dia seguinte para completar o que resta da etapa. Não há memória de tal no Dakar, mas não há dúvida de que servirá para reavivar o antigo espirito do Dakar da África Negra, onde se disputaram as primeiras 30 edições da prova, que rumou depois, por questões de segurança, à América do Sul e por onde se estabeleceu durante 10 anos, antes virar a bússola para território saudita.

A segurança é precisamente um dos temas que ao longo dos anos tem marcado o Dakar, com os portugueses a chorarem ainda Paulo Gonçalves. Speedy morreu no dia 12 de Janeiro de 2020, quando disputava a 7.ª etapa do Dakar na Arábia Saudita, e faz parte da triste lista negra de 31 mortes ligados ao rali.

Paulo Gonçalves. Foto: Miguel Nunes/ASF

Atualmente, a organização controla em tempo real a localização de todos os pilotos através de GPS, e tem 12 helicópteros, com médico para prestar os primeiros socorros em caso de acidente. Até hoje, contam-se 31 mortes no rali Dakar.

De campeão de skate a 'senhor Dakar'

Stéphane Peterhansel é uma lenda do Dakar e recordista de triunfos no mítico rali com 14 vitórias. O francês, 58 anos, estreou-se em 1988 nas motos e ofereceu seis títulos à Yamaha. Mudou-se para os carros, embora confesse que a sua paixão serão sempre as motos «Quando parei era muito sortudo porque não tive nenhum grande incidente. Desde a minha estreia no Dakar, sabia que seria bem perigoso. Sempre tentei ser cauteloso, por isso, depois de seis vitórias achei que era o momento de mudança, não queria arriscar mais em duas rodas», explicou. «Na moto é tudo solitário, não dividimos as emoções com outra pessoa. Se nos perdemos, é assustador porque estamos sozinhos. Mas também comemoramos sozinhos. Eu quero dividir as minhas emoções com o navegador», rematou. 

Já venceu mais oito vezes, com marcas como Mitsubishi, Mini e Peugeot. Agora, vai aventurar-se com o revolucionário projeto elétrico da Audi. «Gosto da ação, da adrenalina e da velocidade. Desde que andei de moto pela primeira vez, quando tinha 8 anos. Mas também dos sítios onde andamos, porque somos capazes de acelerar nas mais lindas paisagens», disse ao site RacingNews365. «O deserto é um lugar fantástico, com um atmosfera especial. O automobilismo e esses cenários encantam-me. Adoro o que faço.»

Peterhansel começou cedo nas motos, mas foi o skate a sua primeira e bem sucedida experiência desportiva. Campeão francês de juniores em 1979, em estilos slalom, figuras livres, descida e combinado, foi internacional e participou num Europeu.

Marcas a (a)bater

O recorde de vitórias no Rally Dakar pertence ao Senhor Dakar, Stéphane Peterhansel. O francês venceu o evento 14 vezes, seis em mota e outras oito em carro, o que faz dele o mais bem sucedido nestas categorias. O atual campeão Nasser Al-Attiyah tem cinco vitórias em carros e está a tentar tornar-se o primeiro piloto desde Pierre Lartigue, em 1996, a vencer três vezes seguidas.

O recorde de vitórias em etapas num único Rally Dakar pertence a Seth Quintero, que venceu 12 num buggy T3, no Rally Dakar de 2022. Em termos de construtores, a KTM é a vencedora geral com 19 vitórias nas motos, igualada pela KAMAZ nos camiões. A Mitsubishi é a mais bem sucedida nos carros com 12 vitórias e, nos quads, é a Yamaha com 15 - a marca japonesa está invicta desde 2009.

Nasser Al-Attiyah. Foto: Imago

Novas categorias

A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tornou oficial a mudança de nome das categorias da modalidade nas provas e campeonatos internacionais. As siglas devem desaparecer e ser substituídas por nomes, a ideia é tornar mais simples o entendimento das diferentes classes e simplificar a terminologia usada.

A T1 (até agora categoria dos carros, que inclui as subdivisões T1+, T1 e T1U, para energias alternativas), passa a ser conhecida como Ultimate. 

A T2 (carros mas para modelos derivados de produção) passa a Stock.

A T3 dos UTVs, que agrupa protótipos e modelos de maior preparação (conhecida até agora como LWP, ou LightWeight Protótipo), passa a Challenger.

A T4 (modelos de menor preparação) continuará a ser conhecida como SSV (side by side vehicle).

A T5, para os camiões, continuará usar o nome: Truck.

A nomenclatura dos eventos também será alterada: as provas de rally cross-country passam a ser conhecidas como Rally-Raid, e os eventos mais longos, como o Rali Dakar, passam a Marathon Rally-Raid. O Dakar 2024 marcará a estreia destes novos nomes.