Klopp e o Liverpool: até as uniões perfeitas terminam um dia
Jürgen Klopp (Foto: Sven Simon/IMAGO)

Klopp e o Liverpool: até as uniões perfeitas terminam um dia

INTERNACIONAL27.01.202401:12

Klopp chocou o mundo com anúncio da saída na final da temporada; adjuntos, incluindo o português Vítor Matos, acompanham-no no adeus; alemão diz-se «sem energia» para continuar

Bang! Que estrondo! Aparentemente do nada, o Liverpool anunciou a saída de Jürgen Klopp, a pedido deste (e só assim poderia ser), no final da temporada.

Com sete títulos no currículo desde que chegou aos Reds – campeão inglês 30 anos depois, arrecadou ainda uma Taça e a Charity Shield ao fim de 16 anos, a primeira Taça da Liga numa década e uma Liga dos Campeões, a 6.º, em 14 anos, além do primeiro Mundial de Clubes e da 4.ª Supertaça Europeia – e em primeiro na atual edição da Premier League e com possibilidade de arrecadar mais troféus, o alemão decidiu sair pelo próprio pé por estar «a ficar sem energia», entre juras de amor a clube e cidade. Seguem-no o resto da equipa técnica, entre os quais o português Vítor Matos e o adjunto ex-FC Porto Pep Lijnders. Já o diretor-desportivo Jorg Schmadtke abandona já no final deste mercado de Janeiro, o último em que o compatriota intervirá. A herança que Klopp deixa é pesadíssima. A de um dos mais carismáticos técnicos da história do jogo, sem dúvida alguma. 

Lateral-direito sem grande talento e sequer experiência de Bundesliga do ainda modesto Mainz, único clube que representou e que era treinado pelo revolucionário Wolfgang Frank, um dos ideólogos da linha defensiva alta, abolição do líbero e aposta no fora de jogo como armadilha, além da marcação zonal e pressão alta, Klopp assumiu o cargo de treinador com as ideias cultivadas em si por Frank e levou o clube dos arredores da Floresta Negra ao principal escalão após algumas tentativas. Viveu a alegria da subida e depois a profunda tristeza da descida, percebendo-se desde esses tempos o lado profundamente emocional que o move. 

Começou, no entanto, a dar nas vistas sobretudo longe dos relvados, quando foi convidado em 2005 para comentar, na televisão, a Taça das Confederações, na qual participava a Alemanha, então de Jurgen Klinsmann. «Klopp era capaz de falar de táticas de uma forma informativa, engraçada e sexy», lembrava à Imprensa Jan Doehling, então editor de desporto da ZDF, que detinha os direitos de transmissão.

Do Mainz ao Dortmund

Repetiu os comentários no Mundial 2006 e no Euro 2008, e não foi estranho quando, no Ruhr, o viram como o homem ideal para liderar o Dortmund, um emblema a atravessar uma grave crise financeira e sem poder de compra, com 150 milhões de passivo. Em sete anos, conquistou um bicampeonato antes do início da hegemonia do Bayern, e chegou a uma final da Champions, perdida precisamente para os bávaros. Ligou-se emocionalmente à Muralha Amarela, tal como mais tarde criaria fortíssima ligação com a Kop, que hoje festeja cada bola ganha no meio-campo rival como se de um golo se tratasse e ferve de adrenalina. 

Deixou o Dortmund depois de um triste 7.º lugar, desgastado, uma situação que muito certamente pretendeu evitar desta vez, com os Reds bem mais estáveis. A época transacta, que terá provocado no germânico forte uma brutal dose de stress, correu pior do que todos estariam à espera, todavia não considerou o adeus correto da sua parte. Acontecesse o que acontecesse, só sairia quando quisesse. Anunciou-o agora.

Heavy metal, baby!

Na cidade dos Beatles, aumentou o volume e foi maestro de uma orquestra de heavy metal. Acordou em definitivo o gigante. O gegenpressing, a reação à perda nesse futebol de altas octanas do qual é o maior rosto, e que considerou «melhor do que um número 10» a criar oportunidades de golo, ganhou versões com outros nomes, mas foi implementado por todo o lado.

Carismático, Klopp encontrou em Liverpool e no Liverpool o casamento perfeito. É verdade que depois de ter de lidar com todo o poderio do Bayern no seu país natal, furando as contas na Sabener Strasse em duas ocasiões, o Manchester City foi muitas vezes um rival forte demais, não só pelo poderio financeiro, mas porque a este juntou um dos outros melhores técnicos da história, o espanhol Pep Guardiola, com quem já se tinha cruzado na Alemanha. 

Os troféus podem até parecer poucos em nove anos, sobretudo título único de campeão nacional, mas o que se viveu e vive ainda em Anfield é superior a isso tudo. Como tal, ninguém, scouser ou não, o deixará caminhar sozinho.