O ‘complexo Kelvin’
ROGER SCHMIDT tem a virtude de dizer muito, falando pouco. Responde a todas as perguntas que lhe são colocadas com as palavras certas. Vai direto aos assuntos e aborda-os com o ar sério de quem irradia segurança e sabe que é importante focar-se no essencial da mensagem que pretende transmitir. Uma espécie de calmante de efeito rápido nos adeptos, principalmente a seguir a jogos complicados, como o realizado nas Caldas da Rainha, que obrigou a águia a sofrer mais do que esperava.
O Benfica só conseguiu resolver a eliminatória através da marcação de penáltis e, segundo Schmidt, deveu-se a uma primeira parte com pouca inteligência, talvez por se ter subestimado o opositor. «Jogámos para trás e para o lado e não atacámos a profundidade», acentuou, reconhecendo ainda que o Caldas «tornou tudo mais difícil» pela coragem com que se bateu.
Foi desta forma pragmática e sem espaço para lamúrias ou previsões de catástrofes iminentes que o treinador alemão se referiu a um jogo que lhe permitiu enriquecer a sua aprendizagem sobre os segredos do futebol luso e revelou que o processo de mudança em marcha no Benfica ainda tem longo caminho pela frente até estabilizar no patamar competitivo que lhe permita recuperar o estatuto europeu que, durante décadas, fez dele parceiro da elite mundial.
R UI COSTA assumiu este projeto como absolutamente necessário, embora demorado. Está tudo a ser bem feito, mas é preciso tempo para formar um plantel forte e equilibrado na relação qualidade/quantidade que o atual ainda não é, motivo pelo qual Roger Schmidt se agarrou a um onze base para assegurar a entrada na Liga dos Campeões e do qual não abre mão por não enxergar alternativas que lhe deem garantias de poder alterar sem perturbar o ciclo auspicioso da equipa. No imediato, creio eu, a sua grande preocupação deverá incidir na rápida afirmação/integração de Draxler, de modo a nivelar a equipa, por ora ainda inclinada para o lado direito.
No ano um de Rui Costa como presidente eleito já muito se avançou. O plantel foi robustecido, apresentando um setor defensivo forte em todos os lugares, com inusitada riqueza de soluções, e um meio-campo de muito valor. O ponto mais débil do coletivo localiza-se na frente de ataque, dissonante e insuficiente para corresponder à abundante riqueza do futebol que vem de trás.
Este Benfica tem na sua organização curto-circuitos por resolver, entre as oportunidades geradas, o volume de remates e os golos apontados. O plantel precisa de mais ataque, objetivamente precisa de um titular inquestionável que se imponha pelo seu poder finalizador. Os que estão não convencem. Gonçalo Ramos ora vem, ora vai, Rodrigo Pinho é uma peça desalinhada e Musa um suplente aplicado. Há ainda Henrique Araújo, a esperança no futuro, o que é animador, mas o problema reside no presente.
R OGER SCHMIDT passou em todos os testes com nota excelente, alguns deles de dificuldade muito elevada, e na próxima sexta-feira vai ser posto à prova no seu primeiro clássico ao serviço do Benfica.
Afirmou que à décima jornada nada se decide, e tem razão, mas sugere a sensatez que alguém da sua estrutura lhe fale sobre a história recente deste jogo e do que ele representa para os universos de ambos os clubes.
Convém, igualmente, que saiba o que esperam dele. Mais do que um bom desempenho e de um bom resultado, naturalmente, os adeptos da águia anseiam por um treinador que os ajude a recuperar do complexo Kelvin e os liberte da sensação de desconforto de cada vez que visitaram o Estádio do Dragão nos últimos dez anos para a Liga, preenchidos com cinco vitórias para o FC Porto, três empates e apenas duas vitórias para o Benfica.
Mais incomodativo ainda, na perspetiva encarnada, será verificar que, em idêntico período, o cenário pouco difere nos jogos realizados no Estádio da Luz, com o Benfica a registar somente duas vitórias contra quatro do FC Porto. Ou seja, os portistas têm imposto a sua força nas duas frentes, a norte e a sul, não há a menor dúvida, e é essa tendência que os benfiquistas desejam que Schmidt seja capaz de inverter.
A situação assim exposta, limitada a este confronto direto, é cruel para águia e generosa para o dragão. No entanto, em termos de campeonatos nacionais, que é o que verdadeiramente importa, na última década, o Benfica lidera com cinco conquistas, contra quatro do FC Porto e uma do Sporting.
Assim sendo, prevê-se um clássico de bom nível entre as duas melhores equipas portuguesas. Sérgio Conceição quer anular a desvantagem de três pontos na classificação e Roger Schmidt quer ampliar a vantagem que tem para seis. É óbvio.