A frase que começa a ser mais utilizada no início das épocas do Benfica é... este ano é que vai ser - Foto: Imago
A frase que começa a ser mais utilizada no início das épocas do Benfica é... este ano é que vai ser - Foto: Imago

Benfica: o inexplicável tornou-se a palavra certa

'Mercado de valores' é o espaço de opinião semanal de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

As meias-finais da Taça da Liga confirmaram várias realidades: o Sporting continua a ter problemas na finalização, a evolução do Benfica revelou-se uma miragem, Luís Pinto está a fazer um grande trabalho no V. Guimarães e o SC Braga de Carlos Vicens tem sido superior nos jogos frente aos grandes.

Benfica: o 'modus operandi'

Escrevi no último artigo que o problema do Benfica é interno e tem a ver com a impreparação, falta de conhecimento do clube e sobretudo falta de visão de quem dirige a instituição. No plano desportivo, tudo se resolve com a criação de novas expectativas para a época seguinte. A estratégia passa por sucessivas vendas, seguidas de sucessivas compras de jogadores. Promove-se uma enorme rotatividade no plantel. Saem os melhores, mas passa-se a imagem de que vão entrar outros incríveis e que vão resolver todos os problemas do clube. Aumentam-se orçamentos e custos, criando uma pressão financeira crescente.

Com este padrão de gestão não se consegue criar uma identidade de grupo. Utiliza-se a máquina de propaganda para distrair os adeptos, criando uma nova adrenalina a cada início de época. Atira-se dinheiro para cima dos problemas, sabendo que esses investimentos terão de ser pagos e que a SAD do Benfica está cada vez mais endividada. Sem um rumo definido, tenta-se ir acertando aqui ou ali, com a esperança de que os adversários estejam a dormir. A frase que começa a ser mais utilizada no início das épocas é... este ano é que vai ser. E assim vão passando os anos sem que um rumo seja definido ou que quem dirige consiga aprender com os erros.

Falta de processo

O treinador é uma das peças mais importantes numa organização desportiva. É ele que comanda a equipa de futebol, o setor com maior impacto dentro de um clube. Os maiores ativos de um clube são geridos por ele. Comunica todas as semanas para os media, que passam as suas mensagens para os adeptos. A forma como a equipa se apresenta dentro do relvado e os resultados são da responsabilidade do treinador. Por este motivo, a escolha deve ser feita com base em critérios claros e convicções fortes. Assim, é fundamental analisar o contexto do clube e do seu meio envolvente. Só depois devem ser definidos critérios que permitam identificar o perfil de treinador.

Alguns desses pressupostos passam por perceber se o clube tem vindo a ganhar, se dispõe de um plantel experiente ou jovem, quais as caraterísticas dos jogadores, de que forma o futebol do treinador encaixa nos atletas disponíveis, qual o estilo de jogo pretendido e que tipo de comunicação e liderança se quer no balneário. Depois de definidos todos estes critérios devem-se tentar enquadrar as diferentes soluções e escolher aquela que mais se aproxima do pretendido. O mais importante é ter a convicção da escolha e saber apoiá-la nos momentos certos. No caso do Benfica nada disto foi feito. Conforme Rui Costa afirmou na campanha eleitoral, o Benfica contratou um treinador com o perfil ganhador. Quando este é o principal critério da escolha de um treinador, tudo cai por terra quando as vitórias não aparecem.

O que torna tudo inexplicável

José Mourinho afirmou que a primeira parte do Benfica frente ao SC Braga foi inexplicável. O treinador encarnado foi feliz na palavra utilizada. Se analisarmos a árvore (treinador) e a floresta (estrutura encarnada) percebemos que esta é a palavra que melhor define o Benfica no momento atual. Assim, torna-se inexplicável que Mourinho, no final do jogo, se descarte de responsabilidades e as transfira totalmente para os jogadores, afirmando que se preparou bem para a importância do jogo, mas sem saber se os atletas fizeram o mesmo.

É ainda inexplicável a ausência na evolução do futebol da equipa. É também inexplicável justificar-se com a falta de opções no banco, quando jogadores como Schjelderup, Ivanovic, Prestianni ou Sidny Cabral representam um investimento próximo dos 50 milhões de euros. Analisando a floresta, é inexplicável como o Benfica investiu 130 milhões de euros e tem um plantel pior do que o da temporada passada. É inexplicável como Rui Costa, presidente, afirmou que demorou quatro anos a preparar um plantel para o presente e o futuro e o seu treinador está constantemente a lamentar-se da ausência de opções de qualidade que lhe permitam ter uma maior rotatividade.

É inexplicável como se convoca uma Assembleia Geral para aprovar um conceito, e não um projeto, e como a votação foi realizada online, sem que fosse clara a existência de uma entidade independente que auditasse e validasse todo o processo de forma transparente. Por fim, o problema do Benfica não é perder jogos. É não saber exatamente o que quer ser.

A valorizar
Em cinco jogos fez onze pontos. Empatou com Liverpool e venceu o dérbi frente ao Chelsea em casa. Sem vários jogadores na CAN, lesionados e sem grandes reforços no verão, volta a fazer uma grande época no Fulham. Os resultados são incríveis. Está em nono com os mesmos pontos do Chelsea e a dois pontos do quinto lugar. A juntar a tudo isto tem um futebol dominador frente a qualquer equipa.
A desvalorizar
A chegada de Mourinho gerou uma enorme expectativa que não está a ser correspondida. Factualmente os resultados são negativos: está a 10 pontos do primeiro na Liga, está com missão muito complicada na Liga dos Campeões e foi eliminado na Taça da Liga. A qualidade de jogo também não evoluiu desde a sua chegada.