«Ter sido terceiro com o Vasco campeão é ainda mais memorável»
Ricardo Batista chega quase incógnito. O que não é habitual, em eventos relacionados com triatlo. Acontece que desta vez os holofotes estão todos em cima de Vasco Vilaça, o amigo que acabou de se sagrar campeão do Mundo. E o atleta do CN Torres Novas ficou ‘apenas’ em terceiro. Um lugar de pódio de grande valor ofuscado pelo ouro de Vilaça que em 2025 foi… terceiro classificado. Será que Ricardo, campeão mundial júnior em 2019, vai repetir o feito? Depois de na época passada ter ficado no 12.º lugar, o triatleta de 25 anos sorri perante a possibilidade. Mas já este ano se surpreendeu a ele próprio.
– No início da época acreditava que terminaria já este ano no pódio do Mundial?
– Se me tivessem feito essa pergunta no início do ano, talvez não... O meu objetivo era tentar um top-5 no Mundial. A meio da época, senti que o pódio estava perto. Depois consegui dois terceiros lugares em etapas, o que me fez chegar a uma posição de pódio mesmo antes da finalíssima. Só precisava de defender o meu lugar. Tinha dois atletas muito perto de mim e precisava ficar à frente deles. Consegui e estou muito contente com o resultado.
– Conseguir um 3.º lugar no ano em que o Vasco é campeão do mundo traz um sabor mais especial?
– Claro! É ainda mais especial poder partilhar isto com o Vasco. Estava a ouvi-lo falar há pouco e ele estava a dizer exatamente o mesmo. Ter um português no pódio é excelente, ter dois, com o nível atual do triatlo, é impensável. Mas Portugal conseguiu. Nós conseguimos. É um momento do qual nos vamos lembrar para o resto das nossas vidas.
– Foi tão especial como o abraço na meta da prova dos Jogos Olímpicos em Paris?
– (risos) Estava há pouco a pensar nisso. Acho que foi um momento bastante parecido com esse. Pelo menos para mim, o momento a seguir aos Jogos foi um pouco mais especial. Os Jogos Olímpicos têm sempre um peso. É claro que o Campeonato do Mundo é excelente, mas os Jogos acontecem de quatro em quatro anos.
– Sente que o 5.º lugar dele e o seu 6.º, em Paris, foi um momento de afirmação do triatlo português?
– Sim. Poder acabar tão perto do Vasco, e ainda com o resultado da estafeta mista [5,º] que também tivemos, acho que foi muito positivo. Estou muito contente por poder partilhar isto não só com o Vasco, mas também com o meu irmão [João Nuno Batista, 11.º em Pontevedra] e com o Miguel [Tiago Silva, 19.º], que são os outros dois atletas que estão a competir connosco no circuito.
– E como é que foi ver o seu irmão chegar pouco tempo depois de si?
– O meu irmão também fez uma prova muito boa. Acho que é o primeiro ou segundo ano dele a competir na elite do triatlo, e está cada vez mais a afirmar-se. Ele é cinco anos mais novo do que eu e acabou em 16.º do mundo este ano. Ainda tem uma grande margem de progressão até aos próximos Jogos. Porque acho que vai ser possível termos três homens — entre o Vasco, eu, o meu irmão e o Miguel – em Los Angeles. Cada país só pode ter três vagas, portanto vai ser uma luta em aberto até ao fim. O meu irmão, sendo o mais novo, tem uma boa margem de progressão e pode ser que consigamos estar os dois nos Jogos.
– No Mundial, o Vasco foi o 3.º no ano passado. Imagino que comprava já imitar o que ele fez no ano a seguir…
– (risos) É uma pergunta difícil, porque cada ano é um ano. No desporto de alta competição, há muitas variáveis que nós não conseguimos controlar. Às vezes podemos estar a fazer tudo bem em treino e chegar à prova e não sair. Porque todos os nossos adversários treinam duro. E que o que faz os resultados das provas são margens mínimas. Portanto, é muito difícil criar já uma expectativa para o próximo ano. Mas queremos sempre mais. Acabar em 3.º lugar este ano, é claro que me deixa bastante motivado para para enfrentar o próximo campeonato com outra visão. Acabar em 3.º quando a expectativa era fazer top-5 é excelente. Agora, se calhar a minha previsão no próximo ano será um pouco mais alta. Vou trabalhar para estar na melhor forma.
– Vou ser ainda mais direto: como seria suceder ao Vasco como campeão do Mundo?
– (risos) Seria excelente, mas é muito difícil estar a prever. Obviamente, que quero e gostaria de ser campeão, mas é muito difícil. Há muitos atletas a lutar pelo mesmo e eu gosto de encarar cada prova como uma prova. Cada ano com maior fluidez, porque acho que muitas vezes também estamos a criar grandes expectativas e depois o ano não começa da melhor maneira e pode desmotivar-nos um pouco. Portanto, todos trabalhamos para ganhar as provas. Mas por que não ser campeão do mundo nos próximos anos?
– Como é fazer todo este trajecto ao lado do Vasco?
– Eu não vejo muitas vezes o Vasco porque ele não treina em Portugal. Basicamente, só o vejo em prova, mas nós somos mesmo muito amigos. Já partilhámos imensos momentos no desporto que ficam gravados na memória. Quando o Vasco está em Portugal, e pode, estamos sempre juntos. Tentamos fazer algo juntos fora do desporto, porque não somos só amigos pelo desporto. Se tirássemos o triatlo, acho que a nossa relação ia ser exatamente igual.
– É ótimo para Portugal ter um campeão e um 3.º no Mundial. Mas acha que o facto de ele ter sido campeão tira visibilidade ao excelente resultado que alcançou?
– Penso que não. Estou bastante contente pelo meu 3.º lugar no ano em que o Vasco foi campeão, porque acho que isso ainda traz mais destaque e torna o dia mais memorável. Em vez de falarmos só no campeão do mundo, podemos dizer que tivemos dois portugueses no pódio, o que poucos podem dizer. Atualmente, arrisco dizer que Portugal é o país mais forte do triatlo masculino. Se olharmos para as classificações do Mundial, temos três portugueses no top-20. Eu duvido que haja mais algum país com três atletas masculinos no mesmo patamar. Mas voltando à questão: o resultado do Vasco é um título mundial que merece imenso destaque. Infelizmente, nós somos uma modalidade pequena, e que ainda não tem o mesmo alcance. Porque se Portugal tivesse sido campeão do mundo no futebol, era feriado nacional.
– Tivemos durante alguns anos os irmãos Alistair e Jonathan Brownlee a brilharem juntos no triatlo. Podemos agora ter dois ‘quase’ irmãos a fazer o mesmo por Portugal?
– Espero que sim. E o Vasco não é o meu irmão de sangue, mas tenho o meu irmão de sangue também a competir comigo e a progressão aponta também para que ele consiga ser um dos melhores atletas a nível mundial. Ter isso, com o Vasco, ou com o meu irmão, seria uma coisa que ia ficar em nós para sempre.
– Falou do Vasco, do seu irmão e do Miguel, mas há também o campeão júnior deste ano, o Dinis Ferreira... É outra prova de vitalidade do triatlo português.
– É sem dúvida um resultado que também merece bastante destaque e acho que Portugal já precisava dele. O Vasco tinha sido vice-campeão [2017], depois eu [2019] e o meu irmão [2023] fomos campeões. Agora já se estava a formar um certo vazio de resultados nos escalões mais jovens. Por isso, este resultado vem em muito bom tempo para voltar a trazer Portugal para o topo nos escalões mais jovens. Os atletas profissionais não vão ser atletas para sempre, este é um desporto em que a carreira é relativamente curta, e ter alguém a surgir nos escalões jovens é muito importante para a modalidade.
– Sente que o vosso exemplo encoraja novas gerações?
– Sim, termos atletas que são dos melhores do mundo traz mais segurança aos jovens para apostar nesta modalidade.
– Tem tido um crescimento bastante sustentado, a trabalhar no Centro de Rendimento do Jamor. Acha que podia ser uma mais-valia sair, ou, tendo em conta que continua a crescer, não vê razão para isso?
– Acho que o meu crescimento foi bastante saudável. Não saltei nenhum patamar. Por vezes, vemos alguns atletas a tentarem fazer mais do que o corpo consegue, e acho que é muito importante cumprir todas as etapas do crescimento. Voltando aos Mundiais Juniores: esse momento foi uma confirmação [pessoal] no desporto, porque os juniores e os sub-23 têm bastante nível. E tendo a minha progressão sido feita com muita calma, traz-me muita segurança e margem de erro para conseguir chegar a estes patamares do desporto mundial. O CAR do Jamor tem bastante qualidade. É um sítio muito bom para correr e para nadar. A bicicleta talvez não seja o melhor, mas é possível fazer trabalho de muita qualidade. Sempre correu bem até agora e não vejo qualquer benefício em sair. Não ia mudar nada na minha carreira.
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