Vasco Vilaça festeja o título no pódio - Foto: World Triathlon
Vasco Vilaça festeja o título no pódio - Foto: World Triathlon
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Vilaça chegou ao título mundial, mesmo com parafusos perdidos pelo caminho

Viagem ao início de uma caminhada que começou de mão dada com a irmã Vera e que, para já, chegou valeu um campeão mundial a Portugal

«Para mim, o Vasco sempre foi o melhor, agora todos sabem que ele é o melhor do mundo.»

Quando eram adolescentes, talvez Vasco Vilaça tivesse gostado de ouvir as palavras com que a irmã, Vera, se despede da conversa com A BOLA, um dia depois de ter visto o irmão sagrar-se campeão do mundo de triatlo.

Mas se isso tivesse acontecido, podia ter-se perdido um campeão do mundo para Portugal. 

É que aquela competição que os dois irmãos colocavam em tudo o que faziam moldou-lhes os carácteres. Vera foi a primeira competição de Vasco. A irmã mais velha, de quem tem pouco mais de um ano de diferença, foi o primeiro alvo a abater. Mas só para logo a seguir iniciarem nova disputa.

«Ele sempre foi muito competitivo, eu fui a primeira competição. Durante algum tempo ainda consegui competir com ele, mesmo no desporto. Mas entre nós, tudo era para ganhar: chegar a casa primeiro, acabar de comer, vestir-se… Ele foi transformando essa competitividade na vida dele», introduz, ela que também foi triatleta, chegando ao profissionalismo no Benfica.

Vera e Vasco Vilaça entraram juntos no triatlo e chegaram ambos ao profissionalismo

Nas histórias da família, de resto, há um episódio que é recordado várias vezes e que recua a 2013, quando a família deixou a Amadora para emigrar para a Suécia, devido à crise económica que se vivia na altura.

«Quando emigrámos, tivemos de construir o nosso quarto novo. Comprámos a mobília no IKEA, tínhamos móveis iguais e competimos para ver quem montava os móveis mais rápido. Só espero não termos deixado parafusos de fora», relata sorridente.

«Ele é uma pessoa muito disciplinada. Trabalha muito para alcançar aquilo que pretende. E claro, qualquer prova é para ganhar, como se viu ontem [domingo]. Ele só precisava de ficar em quinto para confirmar o título, mas quis ganhar a prova», resume Vera Vilaça.

TRIATLO TORNOU-SE HOBBY FAMILIAR

Não é de hoje que Vasco Vilaça anda pelo topo do mundo do triatlo. Afinal, falamos do mesmo miúdo que em 2020 se sagrou vice-campeão mundial, com apenas 20 anos, que aos 24 foi quinto nos Jogos Olímpicos em Paris 2024, e que no ano passado ficou no terceiro lugar nos Mundiais.

Faltava-lhe apenas o lugar mais alto do pódio. Mas já não falta. E como desde sempre, ao seu lado Vasco teve a irmã e os pais.

A irmã Vera foi uma das primeiras pessoas que Vasco abraçou depois de se sagrar campeão do mundo de triatlo - Foto: World Triathlon

«Os nossos pais foram fundamentais neste trajeto. Este é um projeto da família desde o primeiro dia. O triatlo depende muito dos pais, e nós tivemos o apoio total, desde o básico da boleia para treinos e competições, até tudo aquilo de que precisássemos», sublinha.

A história já se faz longa e carregada de títulos. Longe vão os tempos em que Vasco tinha medo de nadar e encontrar «tubarões ou crocodilos» nas águas das provas. «Era um miúdo de pouco mais de um metro. As águas eram turvas, ele não via o fundo e esses medos são naturais», justifica. 

E Vera não esquece o primeiro capítulo. «Está agora a fazer precisamente 20 anos. Em setembro de 2006, fizemos a primeira prova. Ele tinha seis anos e eu oito e fomos fazer o duatlo de Amora, pelo Belenenses, no recinto da festa do Avante».

O triatlo tornou-se 'hobby' da família Vilaça

Aquela prova foi o início do que se viria a tornar numa paixão partilhada a quatro. «O hobby de toda a família passou a ser o triatlo. Em todas as provas, os nossos pais sempre tiveram a mesma atitude de gritar, puxar por nós e correr ao nosso lado. Desde o campeonato de benjamins até agora ao título mundial, eles sempre estiveram lá», reforça a mana que se tornou médica, depois de deixar o triatlo em 2021, e o ciclismo profissional em 2024. 

E qual é o sentimento de ter acompanhado juntinho ao irmão todo este trajeto até ao topo do mundo?

«Orgulha-me muito que continue muito humilde, como mostra nas entrevistas. Apesar de todo o sucesso, mantém-se muito fiel à pessoa que sempre foi», introduz.

«É difícil de descrever. Ainda não consegui digerir as emoções. Ele fez uma época excecional, tudo correu muito bem, mas se este dia corresse mal, tudo ia por água abaixo. Por isso existia uma grande pressão», assume.

Para lidar com a pressão que se estendeu aos familiares e amigos, Vasco Vilaça passou as oito semanas que antecederam a finalíssima a treinar em altitude, nos Pirinéus.

Nada de estranho para quem há mais de uma década decidiu dedicar a vida ao triatlo.

Vasco Vilaça mostrava-se descontraído antes do início da finalíssima que lhe valeu o título mundial - Foto: World Triathlon

«Ele aos 15 anos deixou a casa dos nossos pais e foi viver para um centro de alto rendimento, na Suécia, com a equipa de treinadores que ainda trabalha com ele. Tal como antes, ele tomou essa opção para se focar ao máximo. Sei que é importante para ele estar num sítio mais isolado para se concentrar», explica.

EXPERIÊNCIA DE E PARA OS JOGOS

Vasco Vilaça sagrou-se campeão agora fruto da regularidade que teve ao longo da época, uma vez que o circuito mundial é composto por oito provas, mais a finalíssima. Mas a partir do próximo ano o título Mundial vai voltar a ser atribuído numa só prova, algo que Vera Vilaça garante não assustar o irmão.

«Os Jogos Olímpicos também são só uma prova. O Vasco encarou esta prova como um Campeonato do Mundo de um dia. E essa preparação é importante para os próximos anos, em que tudo depende daquelas duas horas de prova», nota.

De resto, o triatleta do Benfica assumiu que fez esta prova «sob uma pressão como nunca tinha sentido». Algo que a irmã entende e justifica.

«Foi o momento de maior pressão da vida dele, porque era líder mundial e tinha tudo nas mãos. E conseguiu gerir tudo com uma maturidade enorme. Utilizou a experiência dos Jogos Olímpicos, na qual também tinha sentido essa pressão de ser uma prova única e fez com que o stress não o afetasse», enaltece.

E agora já estará, certamente, a pensar na próxima competição a vencer. Pelo menos a avaliar pelo desfecho daquela prova para ver quem montava primeiro os móveis do quarto, com mais ou menos parafusos perdidos. 

«O mais engraçado é que não nos lembramos de quem ganhou. Não havia prémios, só o orgulho de vencer. E passávamos logo à competição seguinte».

O orgulho, que agora é nacional. Venha a próxima competição.

Vasco Vilaça festeja o título no pódio - Foto: World Triathlon

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