Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, durante apresentação da campanha «Stop à violência»

«Stop à Violência» e um apelo direto a Benfica, Sporting e FC Porto

Campanha lançada pela FPF leva a debate tema quente no futebol e desporto nacional. Pedro Proença avança com medidas a tomar junto do Governo

«Hoje é o dia em que o Futebol, unido, diz basta»: assim lançou Pedro Proença a campanha Stop à Violência, promovida pela FPF para motivar uma mudança de paradigma no desporto (e sobretudo) no futebol português, no que toca a casos violentos no próximo fim de semana, a 25 e 26 de abril, nos jogos da Liga, Liga 2, Liga 3, Liga BPI e Taça de Portugal de futsal (já que esta semana não há ronda da Liga Placard).

«Não ficámos indiferentes aos relatos que nos chegaram nos últimos meses. Episódios de violência ligados ao desporto e que nos fazem refletir sobre que mundo queremos deixar», referiu o presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no lançamento da campanha, realizado esta quarta-feira, na Arena FPF, apontando recentes incidentes violentos contra «equipas de arbitragem, jogadores, dirigentes, adeptos e em jogos de crianças, as primeiras que deviam ser protegidas».

Como já «era impossível não agir», Proença referiu que a FPF quis passar «das palavras à ação» e garantiu: «A partir da próxima temporada, teremos um ambiente mais seguro para todos os intervenientes, dos adeptos aos jogadores e dos treinadores aos árbitros.»

O presidente da FPF notou também a adesão à campanha da Liga Portugal, Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, Associação Nacional dos Treinadores de Futebol e do Sindicato dos Jogadores, cujo presidente não teve problemas em colocar o dedo na ferida (como pode ver a seguir) e ao Governo, representado pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.

«Faço um apelo aos três grandes»

Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores, olhou para a violência além do desporto. «Há um discurso de ódio que se instalou, que a política extravasou e que exige um comportamento nosso enquanto cidadãos», apontou, pedindo que esse comportamento se faça sentir na sociedade e no desporto, onde deva haver «uma cidadania desportiva ativa», sobretudo por parte de Benfica, Sporting e FC Porto.

«Quem tem mais responsabilidade deve ter um comportamento de maior exigência», disse, fazendo «um apelo aos três clubes grandes», por terem «uma responsabilidade maior, porque afetam a maioria dos adeptos e cidadãos».

«No futebol, muita da violência que se manifesta tem a ver com o discurso clubístico. Eu criei muitas expectativas com o novo dirigismo, nomeadamente com Rui Costa, André Villas-Boas e Frederico Varandas. De repente, vi comportamentos recorrentes do passado. Era importante que houvesse capacidade para mudar esse tipo de discurso que afeta os adeptos e que se transfere para dentro das quatro linhas, e que afeta com maior impacto os árbitros», afirmou de forma veemente.

Já na zona mista, interpelado por A BOLA, Evangelista explicou porque destacou os presidentes destes clubes: «Criou-se a expectativa de que os dirigentes mais jovens tivessem um discurso mais atual, aberto ao diálogo, de respeito mútuo e isso não tem sucedido. Tem-me surpreendido que alguns dirigentes tenham regressado às práticas do passado, no diálogo institucional e isso não é saudável.»

Evangelista salientou que «isto tem nada a ver com as pessoas» em causa, que respeita, «mas o caminho atual não acrescenta valor ao desporto nacional», argumenta. «Eu não compreendo como é que os dirigentes não conseguem sentar-se juntos», acrescentou, em alusão ao afastamento habitual entre os presidentes de Benfica, FC Porto e Sporting nas tribunas, quando há jogos entre os clubes.

«Ninguém fala disto, mas é importante dizer, eu enquanto presidente do sindicato, tenho a capacidade de me sentar com todos, independentemente de gostar deles ou não. É uma questão de educação e de respeito pelo outro», concluiu.

Medidas a adotar

Pedro Proença, também na zona mista, foi desafiado por A BOLA a explicar se certas declarações ou publicações inflamatórias (sobretudo a criticar decisões de arbitragem) nas redes sociais podem originar punições aos respetivos clubes que as façam. «Esta campanha engloba um processo de alterações muito profundas com agravamentos em determinados indícios regulamentares ou disciplinares, que contempla, não só agressões a agentes desportivos», mas também «linguagem injuriosa ou grosseira entre agentes desportivos», explicou.

A campanha ainda engloba um «aspeto de prevenção» em relação «às boas práticas» e «um terceiro nível» de ação, que reside «na alteração da lei da violência», com a FPF a planear «um conjunto de propostas para o Governo de Portugal», enunciando algumas delas. Com base em práticas internacionais, Proença mencionou o «cartão ID», para haver uma «monotorização de todos os adeptos que entrem num espetáculo desportivo», e quer ver uma maior «capacidade no combate ativo à pirotecnia».

Das medidas concretas a adotar nas competições do próximo fim de semana, a mais impactante, como notou Helena Pires, diretora-executiva da FPF, correrá antes do início de cada jogo: com os capitães de equipa ao seu lado, o árbitro principal vai mostrar um cartão vermelho com o nome da campanha: Stop à Violência.

Com o apelo de que todos vistam a camisola da campanha, os operadores televisivos (Sport TV, BTV e Canal 11) vão destacar a campanha com um pequeno logotipo da mesma no ecrã da transmissão dos jogos.

«Incidências violentas dos adeptos reduziram em 37%»

O presidente da Liga Portugal, Reinaldo Teixeira, também marcou presença na Arena FPF e preferiu realçar que, comparando a primeira volta deste campeonato com a da época 2024/25, «as incidências violentas dos adeptos» em recintos desportivos «reduziram em 37%» nas competições profissionais, acompanhando a descida que se vem a verificar em Portugal nos últimos anos.

«A época 2023/24 já mostrou uma descida dos números de episódios violentos, ainda que com uma ligeira subida de incidentes com pirotecnia; e a época 2024/25 teve uma descida acentuada a toda a linha», complementou depois Rodrigo Cavaleiro, presidente da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto.

Margarida Balseiro Lopes ao lado de Pedro Proença no lançamento da campanha Stop à Violência (Foto: FPF)

Em representação do Governo, Margarida Balseiro Lopes notou que «o universo do futebol tem uma responsabilidade acrescida» no combate à violência, tendo de «dar o exemplo na forma como se compete, como se respeitam as regras, mas também na forma como se vive o jogo, dentro e fora de campo». Desta forma, a ministra salienta que iniciativas deste género «contribuem para criar uma linguagem comum, reforçar mensagens partilhadas e envolver todos os que fazem parte deste universo, ajudando a consolidar uma cultura de respeito, de responsabilidade e de integridade».

Em jeito de conclusão, Margarida Balseiro Lopes exigiu um «compromisso» diário para que o desporto se jogue sem violência. «É um compromisso que parte, acima de tudo, daquilo que o desporto tem de mais forte: a capacidade de unir. Cabe-nos garantir que essa capacidade é preservada, valorizada e projetada no futuro. Não só no futebol, mas em todo o desporto nacional», reiterou, por fim.