Este foi o lance do não penálti em Alverca com Luis Suárez, avançado do Sporting
Este foi o lance do não penálti em Alverca com Luis Suárez, avançado do Sporting

Quando a decência é tratada como batota

O Mundo Sabe Que é o espaço de opinião de Nuno Saraiva, consultor e sócio do Sporting

1 — No futebol moderno, tantas vezes dominado pela suspeição, pelo cálculo e pela permanente tentativa de explorar cada decisão arbitral, há gestos que deveriam ser celebrados como raros exemplos de integridade. O episódio ocorrido no jogo entre Alverca e Sporting, envolvendo Luis Suárez e o árbitro João Pinheiro, deveria ter sido um desses momentos. Não foi. E, antes de ir aos factos, importa fazer um ponto prévio: Este episódio, a somar a outros, reforça um histórico (lamentável) de decisões de João Pinheiro contra o Sporting. Os limites do razoável há muito que foram ultrapassados.

Mas vamos ao que se passou. Perante a marcação de uma grande penalidade a seu favor, Luis Suárez teve uma reação pouco comum: recusou o benefício, afirmando de forma clara — por palavras e gestos — que não tinha sofrido falta. Num contexto competitivo onde, frequentemente, o silêncio ou até o exagero são recompensados, este gesto representou uma afirmação inequívoca de fair-play e de respeito pelo jogo.

Contudo, a resposta de João Pinheiro não só ignorou esse exemplo como o penalizou. Ao exibir cartão amarelo ao jogador, o árbitro transmitiu uma mensagem profundamente errada: a de que a honestidade é irrelevante — ou pior, indesejável — dentro das quatro linhas. Equiparar, na prática, um ato de correção a comportamentos antidesportivos é um sinal preocupante sobre os critérios e a sensibilidade disciplinar. Quando se fala de fair-play é preciso, antes de mais, ser fair e implica que haja fairness. E João Pinheiro, como se sabe e como já ficou por diversas vezes demonstrado, não consegue ser fair quando o Sporting está em campo.

Este lance encerra, assim, uma dupla falha grave. Primeiro, a decisão técnica de assinalar um penálti inexistente. Depois, e mais inquietante ainda, a incapacidade de reconhecer e valorizar um comportamento exemplar. O futebol precisa de regras, mas também de bom senso. Precisa de autoridade, mas também de discernimento.

Quando um árbitro não distingue entre a verdade e a simulação, entre a ética e a batota, compromete não apenas o jogo, mas a credibilidade da própria arbitragem. E, nesse sentido, este episódio levanta dúvidas legítimas sobre a consistência e o nível exigido a quem tem responsabilidades tão decisivas. E mais, impede que João Pinheiro possa continuar a ser considerado o melhor árbitro português.

O futebol não pode dar-se ao luxo de desencorajar a honestidade. Se o fizer, estará a abdicar de um dos poucos elementos que ainda o ligam aos valores que pretende representar.

2 — Há um traço recorrente no futebol português que merece reflexão: o dos despeitados profissionais. Não falo de divergências legítimas ou de críticas sustentadas, mas de ataques que surgem, subitamente, com uma virulência tanto maior quanto mais recente é a perda de influência ou de protagonismo. Curiosamente, muitos dos mais ferozes críticos de hoje foram, durante anos, próximos, cúmplices e até defensores convictos de quem agora atacam, tendo até comido à mesa dos orçamentos.

O padrão repete-se: enquanto há lugar, há lealdade. Quando esse lugar desaparece, nasce a indignação. E não por princípios, mas por interesses. Há casos evidentes em que a mudança de discurso coincide com o fim de ligações remuneradas ou de relações de conveniência. As convicções, nesses momentos, revelam-se maleáveis — ajustadas não à verdade, mas à oportunidade como é próprio de uma certa cultura mercenária.

Este fenómeno não é exclusivo de uma instituição ou de um contexto específico. Atravessa clubes, federação e múltiplos protagonistas do futebol. E talvez não seja preciso procurar muito para compreender a sua raiz. Freud explicava o despeito como expressão de um narcisismo ferido: quando o indivíduo perde estatuto ou reconhecimento, transforma a frustração em ataque, projetando no outro a sua própria inquietação.

No fundo, mais do que convicções, o que move muitos destes posicionamentos é o mercantilismo. E isso, sendo humano, não deixa de ser profundamente revelador.