É tão simples quanto isso...
Não vi em direto a conferência de Rui Borges após o surpreendente — ou talvez não — empate com o Aves SAD. Mas assisti, mais tarde, ao resumo de um canal de televisão, que destacava três declarações do mister, todas com o mesmo fecho: «é tão simples quanto isso».
Pois é. Ao ouvir aquelas palavras, percebi que dificilmente existiria melhor expressão para explicar a época do Sporting, aquém das expectativas. No meio de análises, teorias e justificações mais ou menos elaboradas, que agora começam a surgir, a verdade é que a explicação é mesmo tão simples quanto isso: Frederico Varandas não tem capacidade para liderar o futebol do Sporting.
O Sporting perdeu a Supertaça frente ao Benfica; caiu na Taça da Liga perante um clube mais perdido do que um marinheiro sem bússola; chegou à final da Taça de Portugal muito à custa de um lance em que um árbitro demorou 12 (!) minutos a decidir (mal) a marcação de um penálti; e, quando partia como principal candidato ao campeonato, na condição de bicampeão, já nem depende de si próprio para garantir o segundo lugar.
Nada disto devia surpreender. E não é uma conclusão tirada ao sabor do momento, nem fruto de um empate frente ao último classificado. É algo que venho a defender, publicamente, há muito tempo.
Basta recuar aos primeiros tempos de Frederico Varandas na presidência do Sporting. Comecemos pelos mercados. Uma área cuja inoperância atual parece começar a surpreender, mas afinal é tão simples quanto isso perceber o porquê de estarmos a voltar ao passado. É que naquela altura difícil é encontrar uma contratação que tenha corrido bem. De Jesé a Bolasie, de Luiz Phellype a Fernando, foram dezenas de milhões gastos em jogadores que Rúben Amorim nem quis para treinar.
Parece que foi noutra vida, mas não foi. Basta puxar pela memória: os cânticos e os lenços brancos em Alvalade não surgiram por acaso. Eram o reflexo de uma gestão sem rumo: sem fio condutor no discurso, sem critério na escolha de treinadores, sem coerência na construção do plantel.
Independentemente da opinião de cada um, se quisermos ser sérios, todos identificamos o ponto de viragem no futebol do Sporting: a contratação de Ruben Amorim.
Muito se discutiu o valor pago pelo treinador. Mas, depois de dezenas de milhões desperdiçados, era assim tão absurdo investir num treinador que, semanas antes, tinha batido os três grandes mais do que uma vez, apresentado qualidade de jogo e conquistado um título?
Era isso ou a porta de saída. Não me parece que a decisão fosse difícil. E mesmo que a escolha tenha nascido do desespero, pode conceder-se isso: Varandas identificou competência e delegou. Entregou o futebol a quem sabia. O problema é que nunca quis assumir essa delegação e, agora, no período pós-Amorim, está mais empenhado do que nunca em provar que é o máximo responsável por uma área para a qual nunca demonstrou estar preparado.
A primeira medida não poderia ter sido mais esclarecedora. Perante a saída de Ruben Amorim, a escolha para liderar a equipa foi João Pereira. Sem colocar em causa o seu potencial, era evidente — tão simples quanto isso — que não estava preparado para assumir, naquele momento, um cargo com esta dimensão. Varandas não percebeu.
Acabou por corrigir a decisão com Rui Borges, um treinador mais experiente, que fez precisamente aquilo que se exigia: dar continuidade ao trabalho deixado por Amorim. E fê-lo com competência. O que não deve ser desvalorizado. Fez, aliás, o que deveria acontecer em qualquer projeto futebolístico. O treinador integrar o projeto do clube e dar-lhe continuidade, obviamente, com o seu cunho pessoal.
O problema é que o projeto vencedor do Sporting não é de Frederico Varandas. É de Ruben Amorim, que já não está no clube. Portanto, sendo um projeto de um treinador, e não de uma estrutura, seria inevitável que, após a sua saída, mais cedo ou mais tarde, as diferenças começassem a notar-se. Tão simples quanto isso.
Vejamos os mercados. As decisões — começa agora a perceber-se — deixaram de ser criteriosas. A equipa ficou mais curta. E, quando foi preciso mexer, as soluções não estavam lá. Aliás, o próprio Frederico Varandas sintetizou esse problema de forma caricata, ao afirmar que o Sporting apenas tinha perdido um titular, Gyokeres, e que esse lugar tinha sido bem ocupado, por Suárez que, curiosamente (ou não!), estava na short list de Amorim.
Desculpe?! Importa-se de repetir? Então e o resto?
Num plantel que luta por títulos, a diferença não está apenas nos onze. Está na profundidade, na capacidade de resposta, na qualidade de quem entra. Reduzir a análise a um único jogador é não perceber o essencial da gestão desportiva.
Basta olhar para o que acontece no FC Porto quando recorre à rotatividade e para a forma como atacou o mercado, incluindo o de inverno, precisamente aquele em que o Sporting, por exemplo, deixou sair Alisson. Talvez isso ajude a explicar muita coisa. Tal como o processo em torno da saída de Gyokeres, que se arrastou e condicionou o planeamento, atrasando decisões fundamentais. O resultado esteve à vista: uma Supertaça perdida frente ao Benfica e uma derrota em Alvalade com o FC Porto. Num contexto competitivo, estes detalhes fazem toda a diferença.
Ao mesmo tempo, acumulam-se problemas físicos no plantel, sem uma explicação convincente, e, mais grave, sem responsabilização. Tudo isto num clube liderado por um Presidente com formação em medicina desportiva, cuja Alta Performance era uma das suas bandeiras eleitorais.
É certo que Rui Borges podia ter rodado mais a equipa. Mas os mercados também tinham de ter sido melhores. E tudo isto volta a estar ligado e começa a revelar, mais uma vez, o desnorte de outros tempos.
Olhemos também para a comunicação ao longo da época. Se, anteriormente, com Rúben Amorim a assumir esse papel, havia uma voz única, clara e com as mensagens certas, o que vemos agora é o oposto. Um Presidente a falar mais do que devia, em timings questionáveis e, muitas vezes, a exceder-se. Chegou a dizer que o FC Porto jogava pouco. Vai vencer o campeonato.
Do outro lado, tivemos um treinador a afirmar, que se perdesse frente aos chamados grandes, FC Porto e Benfica, mas vencesse os restantes jogos, seria campeão. Pois não venceu mesmo qualquer um desses dois jogos, nem ao SC Braga. Provavelmente, já se terá arrependido.
Para a próxima época projeta-se que grande parte da espinha dorsal dos jogadores do projeto Amorim possa sair, o que constituirá, verdadeiramente, a primeira época pós-projeto Amorim. A estrutura manter-se-á com Rui Borges como treinador, e, ao que sabemos, Bernardo Palmeiro e Flávio Costa em linha direta com o Presidente que continua a teimar em puxar para si a gestão do futebol.
O problema é que, sobretudo numa altura como esta, exige-se um tipo de liderança, visão e leitura que, até hoje, Frederico Varandas não revelou possuir. E há um fator que agrava tudo: a incapacidade de admitir isso. Varandas podia, ao menos, reconhecer a impreparação e querer aprender. Mas não. E pior do que não ter competência para algo é não perceber e não assumir que não se tem. É por isso que o cenário se torna ainda mais preocupante.
Portanto, para esta nova fase que se avizinha no futebol do Sporting, se o clube quiser estar na rota dos títulos, Frederico Varandas terá de voltar a fazer aquilo que já resultou: entregar a liderança do futebol a quem tenha mundo, critério e preparação para comandar um projeto desta dimensão e, depois, igualmente importante, não interferir.
É, no fundo, tão simples quanto isso.