Sporting: anti-vedeta, sem brincos ou tatuagens, conheça os segredos de Luís Guilherme
«Chuta!», gritou do banco Abel Ferreira no instante em que Luís Guilherme ganhou espaço para rematar durante o jogo entre Independiente del Valle e o Palmeiras, no Equador, para a Taça dos Libertadores de 2024. O reforço do Sporting, mesmo sem conseguir ouvir o treinador português, talvez por telepatia, chutou mesmo e, aos 90+6’, fez o 3-2 para o verdão, que tinha ido para o intervalo a perder por 0-2. Foi o primeiro golo da jóia, então com 18 anos, pela equipa principal do clube onde chegara sete anos antes.
«Ver o Luís Guilherme a marcar é como ver uma filha a tirar boa nota na escola», disse Abel Ferreira no fim da partida. «È um orgulho, porque sei o que eles trabalham, sei o que eles desejam mas às vezes tenho de lhes pôr um travão e dizer aquilo que eles não gostam de ouvir, como se faz aos filhos, as minhas filhas às vezes dizem que sou o pior pai do mundo, o Luís já deve ter pensado ‘este tipo é o pior treinador do mundo’ mas quando vejo um momento destes sinto que vale a pena, ele é muito bom a chutar, quando saiu do pé, eu já a vi lá dentro», contava o técnico português, um dos responsáveis pelo impulso numa fase prematura da carreira.
Como dois meses depois deste auspicioso pontapé, Luís Guilherme saía para o West Ham, da milionária Premier League, não teve tempo de se impor, como titular absoluto, no clube pelo qual conquistou todos os títulos dos sub-11 aos sub-18. Nessa longa caminhada, triunfante, recheada de títulos, tornou-se um dos vértices de um triângulo de talentos canhotos, ao lado de Endrick e Estevão, chamado de 'geração do bilhão', isto é dos mil milhões de reais, ou seja, cujas vendas somadas chegariam a perto de 160 milhões de euros, segundo estimativa dos dirigentes palmeirenses. Três diamantes pagos a peso de ouro.
'BATMAN E BATMAN' COM ENDRICK
Com Endrick, da mesma idade, que haveria de se mudar para o Real Madrid (Espanha), chegou a fazer a dupla Batman e Batman porque, como explicou João Paulo Sampaio, o coordenador da formação alviverde, «eram os dois protagonistas, não havia Robin». Mas nem sempre foi fácil a caminhada do jovem talento, que gosta de jogar aberto pela direita para entrar em diagonal mas também adora atuar a 10 para fazer uso daquele remate frontal e colocado que aplicou no Equador. «Mas no primeiro treino chorou, estava tímido», contou Marcelo Paraíba, o seu treinador no Esporte Clube Del Rey ao site GE.
FAMÍLIA SEMPRE PRESENTE
Paraíba, assim como Gladson Santos, o pai, e Ana Maria Lira, a mãe, seguiram os primeiros passos de Luís Guilherme em São Paulo. Chegado à megalópole por onde circulam 22 milhões de pessoas vindo de Aracaju, pacata capital do pequenino Sergipe, o atacante sofreu mas com a presença de Ana Maria, que largou o emprego como caixa de supermercado e se tornou garçonete num restaurante ao lado do Allianz Parque, foi se adaptando. Gladson, sargento da polícia, teve de continuar em Aracaju.
GOSTA DE PASSAR INCÓGNITO
No verdão, Luís Guilherme destacou-se em campo — contabilizou 45 jogos oficiais no Palmeiras, com aquele tal golo marcado referido anteriormente — mas fora dele fez sempre de tudo para passar o mais incógnito possível: não tem tatuagens, não usa brincos, nas redes sociais só partilha publicações relacionadas a futebol e manteve uma rotina regrada, estranhamente regrada aliás, para um teenager. Talvez por isso, tenho andado sempre um passo à frente de todos os outros que com ele foram crescendo. Luís Guilherme, aos 13 anos, já estava nos sub-15, aos 14 dava cartas nos sub-17, aos 15 mostrava dotes de brilhantismo nos sub-20 e, por fim, aos 16 anos, tornou-se no brasileiro mais novo do século a ser campeão sul-americano nessa categoria.
Degraus que nunca retiraram a ambição deste talentoso extremo que, neste ainda curto percurso, terá dado apenas um passo em falso com a ida prematura para Inglaterra onde somou apenas 18 jogos no West Ham. Uma realidade diferente, sem o brilhantismo de outrora, que Luís Guilherme pretende recuperar. Também de verde e branco, mas em Alvalade...
MOTIVADO MAS AINDA VAI TER DE ESPERAR...
Luís Guilherme já sentiu o pulso do balneário leonino e poucas horas após a sua oficialização seguiu com a equipa para Leiria onde jogou a final four da Taça da Liga diante do V. Guimarães. Ainda somou escassos segundos — uma estreia de má memória pois os leões acabariam por cair na prova e falhar o acesso à final da competição — mas para a história ficou o ponto de partida na nova etapa. Com pouco mais de uma semana de trabalho com a equipa, Luís Guilherme vai tentando adquirir algumas das rotinas da equipa. A intensidade e vontade demonstrada nos primeiros dias impressionou o treinador, porém, ao que A BOLA apurou, uma oportunidade para ser lançado no onze terá de esperar mais algumas semanas.
Os leões começam amanhã a preparar a receção ao Casa Pia, da próxima sexta-feira em Alvalade, um duelo em que Rui Borges irá fazer regressar a sua fórmula ofensiva com... Geny Catamo, regressado da CAN, a ser solução pelo corredor direito. Luís Guilherme fará parte da convocatória e, nesta fase inicial, quer aproveitar algumas ausências importantes — como são os casos de Quenda e Pedro Gonçalves — para ir somando alguns minutos de jogo. Luís Guilherme, de resto, olhando para os primeiros treinos com a equipa em Alcochete, tem sido testado sobretudo pela ala esquerda do trio ofensivo, uma posição que abriu muitos problemas após a lesão prolongada de Pedro Gonçalves.
Maxi Araújo tem sido a principal alternativa para ocupar a vaga do internacional português, porém, face ao castigo do uruguaio no encontro de sexta-feira, Rui Borges deverá oferecer a titularidade a Alisson Santos. Ainda assim, o brasileiro contratado ao UD Leiria, terá a sombra do mais recente reforço dos leões que espreitará a oportunidade de somar o segundo jogo com os leões e mais alguns preciosos minutos para mostrar qualidades.