Rui Vitória-Jorge Jesus: duelo intenso nas Arábias
A história do futebol está recheada de duelos entre treinadores icónicos e nos tempos modernos nenhuma terá sido tão apaixonante como a que ocorreu entre José Mourinho e Pep Guardiola e noutros moldes, em Inglaterra, entre o catalão e Jurgen Klopp, um no Manchester City, outro no Liverpool. Mas Portugal tem igualmente um dos mais intensos confrontos entre técnicos e por muito que os anos passem ninguém esquece a troca de palavras entre Jorge Jesus (depois de ter deixado o Benfica e assinado pelo Sporting) e Rui Vitória, que o substituiu na Luz. E agora repete-se, nas Arábias...
Antes de tudo, dizer que este exercício se justifica porque os treinadores portugueses se vão defrontar para a Liga dos Campeões Asiáticos 2 (equivalente à Liga Europa), com Rui Vitória ao leme do Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos, e Jorge Jesus no Al Nassr.
Bastaria verificar que Rui Vitória foi o último treinador que conseguiu levar o Al Nassr ao título na Arábia Saudita — algo que esta temporada pode voltar a acontecer, cumprindo-se um dos grandes desejos de Cristiano Ronaldo — e que depois de passagem pelo Al Hilal Jorge Jesus está perto de conseguir.
Mas o ponto de partida é mesmo as intensas trocas de palavras quando Rui Vitória chegou ao Benfica e Jorge Jesus procurava fazer história e levar o Sporting ao título 18 anos depois. Quem não se recorda de expressões como «tirei-o da toca», ou «para conduzires um Ferrari tens de ter mãozinhas» — estas de JJ — ou «é a minha 90.ª preocupação» e «espicaçou-nos de uma forma incrível e isso sentiu-se muito dentro do balneário», contrapôs o técnico que viria a sagrar-se campeão em 2015/16.
Mas vamos ao duelo de amanhã. O jogo é dos quartos de final e na final já estão os japoneses do G-Osaka, que nas meias afastou o Bangkok United.
Quem levar a melhor nestes dois encontros vai defrontar o vencedor da eliminatória entre Al Ahli Doha e Al Hussein, mas esta é uma competição que o Al Nassr tem deixado para segunda plano, deixando sempre fora dos encontros a sua maior estrela, Cristiano Ronaldo.
E este será o primeiro duelo entre os dois treinadores portugueses desde que no regresso ao Benfica Jorge Jesus enfrentou o Spartak Moscovo para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões de 2021/22, tendo depois o Benfica chegado aos quartos de final, só afastado pelo Liverpool de Jurgen Klopp - 1-3 na Luz e 3-3 em Anfield.
Se na Arábia o cartaz do jogo fala em confronto entre o último treinador que levou o Al Nassr à glória (2018/19) e o técnico que esta temporada deverá devolver ao gigante saudita a conquista da Liga, em Portugal muitos dos adeptos não disfarçarão o sorriso ao lembrarem-se do ping-pong de declarações que animaram um dos campeonatos portugueses mais intensos dos últimos tempos.
Termine-se com uma curiosidade: não jogará CR7, mas deve estar no onze João Félix, que foi lançado por Rui Vitória no Benfica e teve peso enorme na conquista do título de 2018/19.
Palavras que ficaram para a história
«As ideias que estão lá são todas minhas. O Benfica não mudou nada, zero. Vou jogar contra uma equipa com as minhas ideias. Cheguei ao Sporting e mudei tudo. O cérebro já não está lá, o treino não vai ser o mesmo, mas tudo aquilo continua. Se o Sporting ganhar não vou dizer que não vou festejar. Não sou hipócrita!», JORGE JESUS
«A minha mente funciona desta maneira: primeiro, estão os meus jogadores, a minha família, o meu presidente, as pessoas que nos ajudam nos pequenos-almoços, em 13.º deverão estar os meus antigos colegas, em 77.º, o vendor de pipocas de uma festa onde estive e lá para 90.º, o treinador do Sporting», RUI VITÓRIA
«Em relação ás críticas do meu colega [Rui Vitória], sou mau colega? Treinador? Como não o qualifico como treinador, logo não sou mau colega. Para ser treinador ele tem de ser muito mais. Fi-lo sair da toca. Ele tem de se assumir. Para treinar o Benfica tem de se assumir. Para conduzir um Ferrari tem de ter andamento para ele.», JORGE JESUS
«Quem me conhece, sabe a minha forma de trabalhar e que sou respeitador. Falo e respondo a quem quero, quando quero e quando a minha cabeça decide. É uma final e um Benfica-Sporting que está em causa e isso passa por cima de qualquer individualidade. Quem está à espera de alguma resposta, pode abandonar a sala.», RUI VITÓRIA