Rui Borges não é Amorim. Nem precisa de ser. Mas já fez algo que o seu antecessor não conseguiu. Levou o Sporting a um patamar europeu que durante décadas parecia uma miragem — Foto: IMAGO
Rui Borges não é Amorim. Nem precisa de ser. Mas já fez algo que o seu antecessor não conseguiu. Levou o Sporting a um patamar europeu que durante décadas parecia uma miragem — Foto: IMAGO

Rui Borges: a melhor Champions de sempre, mas ainda sem o poder de Amorim

Este já não é um Sporting que se satisfaz apenas com a presença na Champions. É um Sporting que discute o jogo. Que deseja ficar. Que ambiciona ir mais longe. E essa mudança de mentalidade é, talvez, o maior triunfo de Rui Borges. Bar Nilo é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Há treinadores que acumulam títulos e há treinadores que deixam ideias. Os primeiros alimentam a memória estatística do jogo. Os segundos moldam a sua linguagem. Rui Borges parece caminhar nesse território onde o resultado e o significado disputam o mesmo espaço.

Existe uma linha invisível que atravessa a carreira de um treinador. Não é feita apenas de vitórias, embora decidam destinos. Nem de derrotas, embora possam encurtar caminhos. É feita de transformações. De momentos em que uma equipa deixa de competir para começar a convencer. Rui Borges habita esse lugar instável, onde o tudo e o nada respiram lado a lado. Persegue uma segunda dobradinha, mas também convive com a possibilidade de terminar a época sem troféus. E é precisamente aí que se revela a essência do ofício.

O futebol, por vezes, é injusto com os seus próprios processos. Julga pelo desfecho e esquece o percurso. No caso do Sporting, a caminhada europeia desta época tem um valor que ultrapassa uma eventual ausência de títulos. Porque esta UEFA Champions League não é um episódio. É uma declaração.

Rui Borges já não é apenas o herdeiro de uma obra. Tornou-se autor. Libertou-se da sombra de Ruben Amorim não por confronto, mas por afirmação. O Sporting terminou entre os oito melhores da fase regular da UEFA Champions League. Não é um detalhe. É uma frase completa. Equipas com outra história e outro orçamento não conseguiram esse apuramento direto: Real Madrid, Inter, Paris Saint-Germain ou Atlético Madrid (estes dois ainda em prova) são alguns dos exemplos. O Sporting, sim. E isso revela consistência, convicção e identidade.

No trajeto, houve noites que definem uma equipa. A vitória sobre o PSG foi a primeira grande afirmação. E a reviravolta frente ao Bodo/Glimt acabou por ser mais do que um resultado. Foi um teste de caráter. Os noruegueses, tantas vezes olhados com condescendência, traziam consigo o mérito de ter eliminado o Inter, um gigante que vive numa dimensão económica distante de qualquer clube português. No futebol moderno, esses acontecimentos não são menores. São decisivos para compreender o valor de uma conquista.

Depois surgiu o Arsenal. E com ele, a diferença entre competir e decidir. Dois jogos, um golo sofrido, várias ocasiões criadas. A eficácia sentenciou aquilo que o jogo equilibrou. O futebol tem essa crueldade elegante. Não há vitórias morais, mas há derrotas que não amachucam. O Sporting caiu de pé porque soube jogar de frente.

Durante muito tempo, os leões não pertenceram a este cenário. Em boa parte da sua história, e ao contrário de Benfica e FC Porto, o Sporting não foi um clube de UEFA Champions League. Em Alvalade, até há bem pouco tempo, ouvia-se mais a música da UEFA Europa League do que o hino da UEFA Champions League. Essa memória pesa, define expectativas e ajuda a limitar ambições. Mas pode ser alterada. E foi essa transformação que começou com Amorim e encontrou em Rui Borges uma nova etapa.

Amorim pôs fim à depressão interna. Rui Borges acrescentou ambição europeia. Entre consolidar e expandir existe uma fronteira subtil. E atravessá-la pede coragem. O Sporting europeu desta época soube dar esse passo em frente.  

Há também um contexto humano que não pode ser ignorado. Rui Borges entrou em Alvalade num momento emocionalmente frágil. Entre as lágrimas de nostalgia por Amorim e de tristeza pelas derrotas de João Pereira. Entre o passado recente de sucesso e o medo de regressar a velhos hábitos. Mais do que uma equipa, Rui Borges herdou este fantasma e soube ultrapassá-lo. 

O futebol, porém, não tem paciência para o passado. Vive no instante. Os títulos, mesmo que conquistados há pouco tempo, tornam-se peças de museu no dia seguinte. As derrotas, por outro lado, passam a ser urgência. Mas o imediatismo é sempre inimigo de uma avaliação séria. Esta UEFA Champions League afirma uma forma de estar. A de uma equipa que não negociou a sua identidade na prova mais importante do futebol europeu.

O Arsenal investiu perto de €295 milhões esta temporada para construir uma equipa capaz de dominar. Entre as contratações mais sonantes está Gyokeres, antigo herói de Alvalade. O Sporting respondeu com uma ideia. E, durante largos momentos, a diferença financeira não encontrou tradução no relvado.

Este já não é um Sporting que se satisfaz apenas com a presença na UEFA Champions League. É um Sporting que discute o jogo. Que deseja ficar. Que ambiciona ir mais longe. E essa mudança de mentalidade é, talvez, o maior triunfo de Rui Borges.

O futuro a curto prazo é uma incógnita, mas sabe-se que o mercado levará talento, como leva sempre que se aproveita a montra europeia. Resta saber se o clube dará ao treinador a mesma autonomia e autoridade que deu a Amorim. É bom recordar que o antigo treinador, já depois de ser campeão, terminou uma época em quarto lugar. Nada disso o enfraqueceu internamente. Viu os seus poderes manterem-se intactos e voltou a ter sucesso. Porque no futebol, tão importante como ter ideias é ter espaço para as concretizar.

Rui Borges não é Amorim. Nem precisa de ser. Mas já fez algo que o seu antecessor não conseguiu. Levou o Sporting a um patamar europeu que durante décadas parecia uma miragem. Agora falta-lhe o poder que nunca lhe foi dado em matéria de transferências. E no futebol, o poder é aquilo que pode transformar uma ideia num ciclo. Resta saber se Frederico Varandas pensa da mesma forma.