Técnico italiano dos dragões não tem dúvidas sobre o lance e deixou alfinetada aos dois rivais, Sporting e Benfica, antes da deslocação ao reduto dos leões

Resposta a Mourinho, Sporting, Borja Sainz e pragmatismo: tudo o que disse Farioli

Treinador do FC Porto fez a antevisão do clássico com o Sporting, em Alvalade, agendado para terça-feira à noite

— Queria perceber como é que estão os indisponíveis, como é que está o boletim clínico do FC Porto para atacar este clássico e que expectativas tem para o encontro?

Sim, todos estão bastante bem. Apenas o Thiago, que ainda está num processo de recuperação, e o Borja, que chegou hoje — ontem à noite —, por isso hoje é a primeira sessão dele com a equipa. Ele não vai viajar connosco, terá um programa individual durante um par de dias à espera que regressemos para preparar o jogo seguinte.

— Este é o terceiro jogo com o Sporting na época, agora de cariz diferente porque não é o campeonato, é a Taça, é uma eliminatória. Que diferenças espera em relação aos jogos do campeonato?

Primeiro que tudo, concordo totalmente contigo. Sendo uma competição diferente, é algo muito à parte. Nesta parte, creio que é muito claro para todos nós que gostamos sempre de pensar nas competições jogo a jogo, por isso, neste caso, o nosso foco é absoluto na Taça. Sobre o que esperar, creio que o estilo das duas equipas é bastante claro. É claro que haverá algumas diferenças, especialmente em relação ao último jogo, também porque depois do jogo que o Sporting fez contra nós, eles mudaram bastante a sua abordagem. Pela primeira vez, começaram a pressionar homem a homem nos dois jogos anteriores, o que creio que também foi, de certa forma, uma boa preparação para o jogo de amanhã. Obviamente, pela equipa que são, não posso esperar que fiquem num bloco médio à nossa espera diante dos seus adeptos. Espero-os muito mais agressivos do que foram aqui no Dragão. Mas, claro, jogamos contra uma equipa que está a fazer um trabalho fantástico desde que o treinador Rui Borges assumiu o cargo. Nas competições domésticas, entre a liga e a Taça de Portugal, tiveram 52 jogos e apenas uma derrota contra nós. Creio que isto diz muito sobre o trabalho inacreditável que estão a fazer e a qualidade e organização da equipa.

— Olhando para a forma como tem vindo a lançar os jogadores que chegaram em janeiro. É expectável que possam entrar eventualmente — não vou pedir o onze que já sei que não vai dar e naturalmente faz parte da estratégia — mas é possível esperar que haja novidades no onze ao nível do Fofana e do Moffi? São jogadores que estão nesta altura, na sua ótica, prontos a ir a jogo logo de início?

Para mim, especialmente nos últimos jogos, creio que se viu a importância das intervenções que fizemos em janeiro. Fomos muito clínicos na tomada de decisões. Adicionámos o Thiago, o OsKar, o Seko e o Terem. Dou um crédito absoluto e tremendo ao clube e, em primeiro lugar, ao presidente, porque creio que a forma como gerimos o período de transferências foi realmente positiva, com total alinhamento e visão clara sobre o presente e o futuro. Mantendo sempre em mente a sustentabilidade do clube e o que estava nas nossas possibilidades. Encontrámos abertura e desejo de esticar as nossas possibilidades e fazer tudo o possível. Adicionámos jogadores com experiência, mas também jogadores jovens como o Oskar, que estão a ter um desempenho muito bom e a aumentar o valor da equipa. Há poucos dias li que somos a equipa em Portugal que está a dar mais minutos aos sub-21. Creio que, nesta parte, as visões de curto e longo prazo do clube estão num caminho muito suave. Agora, com muitos jogos para jogar, o desejo de seguir em frente é a parte mais importante.

— A nível pessoal, a nível dos seus jogadores, Martim Fernandes e Thiago Silva, parece que existem boas notícias para o FC Porto, estarão já praticamente recuperados. Pergunto-lhe se conta com eles para o jogo de amanhã em Lisboa?

Como disse na resposta à primeira pergunta, o Martim vai estar de volta com a equipa amanhã. Quanto ao Thiago, ainda está a trabalhar individualmente, mas vai estar de volta a 99% para o jogo com o Benfica.

— A última vez que o FC Porto conseguiu duas vitórias na mesma semana contra o Sporting e o Benfica remonta à época de 2010/2011, em que ainda era André Villas-Boas o treinador. Falou com o presidente sobre qual o segredo para este feito ou entende, por outro lado, que a obrigatoriedade e a pressão estão do lado do Sporting, existindo uma segunda mão?

Esta semana falámos, mas não falámos sobre esta parte. Estivemos mais focados noutros tópicos. Tenho algumas horas para tentar pedir algum conselho agora que mencionaste isso, de que eu não estava ciente, por isso vou definitivamente seguir a sugestão.

— Concorda com José Mourinho quando diz que existem duas classificações, a virtual e a real, devido às arbitragens?

Onde está o FC Porto na classificação virtual? (primeiro lugar). OK, então ainda somos os primeiros. Existe algum troféu para isso? Para a virtual? Não? Então é melhor gastarmos as nossas energias na outra.

 — Como é que está o Borja Sainz agora que regressou deste período complicado?

Ele chegou hoje. Obviamente, os acontecimentos e os dias que ele passou não foram bons, foram realmente complicados e emocionalmente muito desgastantes, mas ele voltou com um grande espírito. Agora cabe a todos nós dar-lhe o apoio certo e o amor que ele merece todos os dias, mas especialmente neste período. Ele vai trabalhar arduamente para estar pronto. Está muito motivado e focado em voltar para ajudar a equipa. Ele estava bem para viajar hoje com a equipa, mas prefiro dar-lhe um par de dias para descomprimir, regressar a casa e à sua rotina, e prepará-lo para os próximos jogos e desafios. Como disse, foram dias muito difíceis, mas descobrimos uma vez mais um rapaz com uma atitude incrível e um grande desejo de ajudar o clube.

— Este é o primeiro jogo de um mês de março muito complicado, com muitos jogos. Sente que pode ser um mês decisivo e sente a equipa preparada para enfrentar desafios tão grandes neste momento?

Com certeza vai ser um período muito desafiante. Seis jogos em três competições diferentes. Vai ser muito exigente e desafiante física e mentalmente. Como disse, gosto de pensar livro a livro. O que será bom para todos nós — jogadores, equipa técnica e adeptos também, porque falamos de uma comunidade — é ir jogo a jogo. Ser muito bom no momento em que o jogo acaba, tirar no máximo uma hora para digerir todas as emoções e virar a página rápido. Creio que este pode ser um estado de espírito muito importante para abordar os próximos jogos, porque a estabilidade emocional é a parte mais importante. Não há resultado que possa desgastar a nossa mente ou colocar-nos numa situação de excesso de confiança. Neste período, o mais importante é ser muito clínico: assim que o jogo acaba, ele faz parte do passado e temos de ficar focados no presente e no futuro próximo.

— Quando foi jogar a Alvalade para o campeonato foi muito no início do seu percurso aqui no Futebol Clube do Porto. As equipas não se conheciam tão bem como se conhecem hoje. O que lhe pergunto é se o FC Porto ainda tem espaço para surpreender o Sporting como surpreendeu no primeiro jogo em Alvalade no campeonato, sendo que no segundo jogo no Dragão as equipas já estavam muito encaixadas, já havia um maior conhecimento uma da outra?

Creio que estamos numa fase onde, para ser honesto, o nível de conhecimento interno e também dos nossos adversários começa a ser bastante elevado. Obviamente, há sempre pequenas modificações. O jogo é sempre muito tático e o que faz a diferença geralmente é o tipo de abordagem que as equipas decidem tomar. Amanhã creio que será uma das chaves. Como disse, preparámos o jogo para jogar contra uma equipa que esperamos ser muito agressiva, porque não consigo imaginá-los à nossa espera no seu meio-campo como fizeram no Dragão. Não vai acontecer. Do nosso lado, temos a mente clara sobre o jogo que vamos jogar amanhã e a abordagem que queremos ter. Eles sabem o que esperar de nós porque somos muito previsíveis na forma como vamos com tudo para pressionar toda a gente. Será o mesmo amanhã. É o tipo de jogo que espero, um jogo aberto com duas equipas que se vão enfrentar cara a cara. Obviamente com momentos diferentes dentro do mesmo jogo. Pela nossa intenção, nós vamos. Depois, pela qualidade que eles têm, haverá momentos em que precisaremos de defender muito bem e ser muito humildes no nosso meio-campo. Mas, em termos de intenção, é muito claro para nós o jogo que queremos jogar amanhã.

— E tendo em conta também para nos explicar um bocado como é que está a equipa fisicamente, sendo que depois de Alvalade é a deslocação à Luz para o campeonato e logo a seguir Liga Europa na Alemanha. Há espaço para fazer gestão neste jogo com o Sporting, visto que é a primeira mão de duas eliminatórias?

Como estamos fisicamente? Muito, muito bem. Para ser justo, creio que estamos no melhor momento físico há muito tempo. Há poucos dias estava a partilhar com os jogadores que nos 36 ou 37 jogos que jogámos, em todos eles corremos mais do que o adversário. O último jogo contra o Arouca em casa foi o maior em termos de volume. O Rio Ave há uns dias foi um dos maiores em termos de alta intensidade. Portanto, do ponto de vista físico, não tenho medo nenhum de que vamos estar prontos para ir lá e jogar o nosso jogo, desafiá-los bola após bola em todo o campo. Estamos num momento muito bom e os jogadores que vão começar e os que vão entrar estão absolutamente aptos e capazes de entregar um desempenho físico de topo. Se isso é suficiente para ganhar o jogo? Não. Mas é uma condição muito importante para estarmos perto do desempenho que queremos.

— Quero perguntar-lhe sobre um tema que tem sido discutido entre os adeptos do FC Porto, que é o tema das substituições por volta do minuto 60, entre os 55 e os 65. Fizemos um levantamento: em 28 dos 37 jogos isto aconteceu, 75% dos encontros. Não vou tanto pela parte da gestão, mas mais pela parte... na minha opinião e na minha leitura, em alguns dos jogos acaba mesmo por tirar alguns jogadores que até estavam bem, por exemplo o Pietuszewski frente ao Nacional sai com o jogo em 0-0, o Gabri Veiga também estava bem frente ao Rio Ave e acaba por sair aos 65 com o jogo também 1-0 só. Queria perguntar-lhe qual é a linha de pensamento de Farioli entre esta obrigatoriedade de cumprir o plano que o Farioli e a sua equipa técnica têm e a capacidade de se adaptar face àquilo que o jogo está a pedir?

Sou bastante analítico na forma de me preparar. Isso não significa que vai ser sempre assim, mas a maioria das vezes, se queres chegar a um ponto onde podes entregar este tipo de desempenho físico, não é apenas a parte física, é também a parte mental e as energias. Acredito muito na força do plantel. Já disse isto antes, tenho muita sorte de treinar um grupo de 24 ou 25 jogadores que estão num nível muito bom. O esforço que pedimos aos jogadores, especialmente na frente, é massivo se queremos manter um certo ritmo e intensidade. Creio que se hoje estamos onde estamos e com a energia que temos, é porque os jogadores se conectam com o plano que estamos a seguir no curto e longo prazo. Eles estão cientes da minha forma de pensar, do facto de que todos vão desempenhar um papel fundamental daqui até ao fim da época. Estou muito grato por ter, em muitas posições, jogadores onde não importa quem vai jogar, eles encontram forma de ter um desempenho superior. Temos exemplos como o Gabri e o Rodrigo, o Alan e o Pablo... o Oskar, que é um jogador de 2008 que se está a adaptar a diferentes exigências. É muito importante manter toda a gente num nível muito bom. Se os tiro ao minuto 60 não significa que não tenham energia para acabar, mas viram o impacto do William quando entrou em campo, foi massivo. Tentamos preparar muito bem o planeamento a longo prazo, mas dentro do jogo às vezes temos de mudar conforme o jogo corre, mas gosto de ir para o campo com um mapa de 5 cenários diferentes, e geralmente acontece o sexto, mas pelo menos estamos prontos.

— Gostaria de saber se na sua ótica, e depois do jogo com o Arouca, entende o porquê de os rivais terem criado tanta polémica no penálti sobre o Fofana. Se acha que há necessidade de haver tanta polémica?

Sobre o penálti, creio que não há dúvida nenhuma de que foi penálti. A imagem da repetição é clara. Fofana está a rematar e há um toque claro. O árbitro está a 2 ou 3 metros de distância, por isso ele viu e ouviu o som do toque dos dois pés. Creio que não há discussão. Depois, é normal estarmos numa semana onde preparar cenários com antecedência é muito bom. Às vezes, neste momento, o FC Porto é muito bom em algo que traz pessoas do outro lado juntas, um ‘mix’ de verde e vermelho vai junto... que cor dá o mix de verde e vermelho? (Talvez laranja). Então, é assim que é. Não há polémica. Esta parte do jogo é bem conhecida, nós aceitamos e ouvimos. Se tivéssemos de falar de todas as coisas que aconteceram esta época poderíamos fazer uma conferência inteira, por isso ficamos fora disso. Mas, novamente, sobre o penálti de ontem à noite, não há nada a discutir.

— Se há coisa que a sua equipa tem sido identificada é como uma equipa pragmática durante os jogos desta época. Tratando-se de um jogo de primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal, fora de casa, tendo a oportunidade de jogar a segunda mão depois no Estádio do Dragão e ainda por cima com um clássico frente ao Benfica tão importante no campeonato dentro de cinco dias, é expectável que o FC Porto seja adicionalmente pragmático nesta partida em Alvalade, principalmente se o jogo não estiver a ir de encontro àquilo que a equipa quiser?

Como defines pragmatismo para ti? [resultados, não arriscar em demasia nos últimos minutos]. Para mim, pragmático é especulativo. E especulativo significa ir para o campo com um plano muito claro que é: ficamos aqui, esperamos e vemos o que acontece. Se pegares em todos os nossos jogos, em casa ou fora, vês uma equipa que em cada momento decide desafiar qualquer tipo de adversário, o tempo todo. Com equipas que no papel são mais ofensivas, isso não aconteceu. Temos exemplos de grandes equipas que vieram ao Dragão e para mim foram muito pragmáticas e especulativas porque intencionalmente decidiram não vir pressionar, decidiram defender removendo o espaço atrás. Para mim, isso é pragmatismo. Defender bem faz parte, somos a melhor defesa na Europa e em Portugal. Isso significa defender bem. E defender bem no nosso estilo é pressionar muito alto. Amanhã vamos lá para pressionar em todo o campo. Depois, contra uma equipa como o Sporting, que é muito capaz de te forçar a defender alguns metros mais baixo, precisas de ser humilde e ter as ferramentas e atitude certas para defender noutra parte do campo. Mas, como desejo, o nosso jogo é sempre o mesmo: passo em frente e gás total com toda a gente. Outras equipas que na vossa opinião são mais ofensivas porque marcam mais golos, noutros jogos são muito mais especulativas e pragmáticas porque mudam a abordagem conforme quem enfrentam. São fortes contra quem sentem que é mais fraco, mas quando enfrentam uma equipa do mesmo nível vão para uma abordagem diferente porque é a melhor estratégia. Nós somos muito previsíveis porque somos sempre os mesmos. A nossa identidade é muito clara, não importa o adversário. Depois, há jogos onde recuperamos a bola 29 vezes no meio-campo adversário e outros onde somos forçados a ir mais baixo. Mas em termos de agressividade, intensidade de pressão e reação, somos a melhor equipa em todos os parâmetros estatísticos. Por isso é muito difícil colocar estas estatísticas perto de uma equipa que é pragmática.