Keegan fala sobre luta contra o cancro: «Quero voltar a St. James Park para me despedir»
Kevin Keegan, lenda do futebol inglês, falou pela primeira vez da luta contra um cancro no estômago em fase 4. Aos 75 anos, o antigo jogador e treinador confirmou a notícia durante um evento em Newcastle, onde, apesar da gravidade da situação, manteve o seu característico bom humor.
A doença foi descoberta «por sorte» após um acidente de viação que exigiu um exame corporal completo. Keegan recordou a conversa com o médico, usando uma analogia futebolística para descrever o prognóstico. «Disseram-me que tínhamos um médico de topo com uma nova forma de combater o que tenho. Que é um cancro em fase 4. Ele era adepto do Liverpool, por isso fui conhecê-lo. Sabia que não iria caminhar sozinho, se é que me entendem», afirmou, antes de acrescentar com ironia: «Eu disse: 'Fantástico! Qual é a sua taxa de sucesso?' Ele respondeu: '33 por cento'. Oh. Pensei que ele talvez dissesse 80, talvez 90! De qualquer forma, para já ainda cá estou...»
O anúncio da doença foi feito em janeiro, mas só em abril, após um período que descreveu como «muito difícil», é que se sentiu com forças para agendar a sua aparição no Tyne Theatre. Apenas cinco meses após iniciar os tratamentos, Keegan mostrou-se em grande forma, partilhando histórias da sua carreira com a desenvoltura de um comediante, perante uma plateia que contou com a presença de figuras como Peter Beardsley e Sir Ian Botham.
Para os adeptos do Newcastle, Keegan é uma figura quase messiânica, responsável pela revitalização do clube em duas ocasiões distintas: primeiro como jogador e depois como treinador, quando salvou a equipa da descida à terceira divisão e a levou ao segundo lugar na Premier League com uma equipa que ficou conhecida como os Great Entertainers.
A carreira de Kevin Keegan é recheada de sucessos. Como jogador, foi internacional por Inglaterra em 63 ocasiões (31 como capitão), marcou 21 golos e esteve no Mundial de 1982. Tornou-se uma lenda no Liverpool, onde conquistou três campeonatos, uma Taça de Inglaterra, uma Taça dos Campeões Europeus e duas Taças UEFA. Venceu ainda a Bundesliga ao serviço do Hamburgo e foi distinguido com a Bola de Ouro, um feito alcançado por apenas quatro futebolistas ingleses.
Já como treinador, para além do memorável percurso no Newcastle, orientou o Manchester City em 176 jogos e foi selecionador de Inglaterra durante 18 meses, cargo que deixou após uma derrota com a Alemanha no último jogo do antigo estádio de Wembley, em 2000.
Apesar da sua idade e da batalha que enfrenta, Keegan, que no seu auge era comparado a um Harry Kane dos tempos modernos, continua a mostrar uma enorme vontade de viver, entretendo o público e partilhando a sua positividade contagiante.
Kevin Keegan, antiga glória do futebol, planeia regressar a St James' Park na próxima época, pela primeira vez desde a sua conturbada passagem como treinador em 2008. O objetivo é acenar à multidão antes do apito inicial, um gesto que depende da aprovação do atual treinador, Eddie Howe, a quem Keegan manifesta total apoio, para garantir que não será uma distração.
«Quero dizer adeus. Não tive a oportunidade quando saí do clube da última vez...», afirmou Keegan, referindo-se ao final da sua segunda passagem como técnico do Newcastle. Este regresso para uma despedida formal ganha um significado especial dadas as circunstâncias atuais da sua vida.
Apesar da sua carreira histórica, Keegan recusa a ideia de ter uma estátua em St James' Park, ao lado das de Sir Bobby Robson e Alan Shearer. «Terão de esperar que eu morra», disse, acrescentando: «A minha estátua é a forma como as pessoas me recebem.»
Num momento de nostalgia, quando questionado sobre o desempenho que uma frente de ataque com Keegan, Beardsley e Chris Waddle teria nos dias de hoje, respondeu com humor: «Não tenho a certeza... provavelmente teríamos algumas dificuldades. Não estou muito em forma neste momento.»
Keegan está a receber tratamento para um cancro do estômago, uma doença de difícil deteção. Anualmente, cerca de 6500 britânicos são diagnosticados com a patologia, que resulta da formação de células cancerígenas no revestimento do estômago e causa aproximadamente 3600 mortes por ano no Reino Unido.
As taxas de sobrevivência a cinco anos variam drasticamente com o estádio da doença: 65% para o estádio 1, 35% para o estádio 2 e 25% para o estádio 3. Para o estádio 4, quando o cancro se espalha para outros órgãos, estima-se que apenas 20% dos doentes sobrevivam mais de um ano.
Especialistas alertam que a baixa taxa de sobrevivência se deve, em parte, ao facto de os sintomas iniciais serem frequentemente confundidos com problemas digestivos comuns, como azia, refluxo ácido ou arrotos frequentes. Outros sinais podem incluir dificuldade em engolir (disfagia), náuseas, vómitos, sensação de saciedade rápida, fadiga, perda de apetite, perda de peso inexplicada ou dor e um caroço na zona do estômago.