RD Congo procura acabar com espera de 52 anos pelo Mundial
A República Democrática do Congo está à beira de terminar uma longa espera de 52 anos para regressar a um Campeonato do Mundo. Uma vitória sobre a Jamaica na final do play-off intercontinental de terça-feira garantirá aos Leopardos um lugar no Mundial 2026, tornando-se no décimo representante africano na competição.
A importância do momento é sentida por todos. O defesa do Burnley, Axel Tuanzebe, em declarações à BBC, considerou este como «o jogo mais importante» da sua carreira. O antigo capitão, Gabriel Zakuani, foi ainda mais longe, classificando-o como «o maior jogo da nossa história».
A única participação do país num Mundial remonta a 1974, na Alemanha Ocidental, quando a nação ainda se chamava Zaire. Essa campanha ficou marcada por resultados desastrosos: uma derrota por 0-2 contra a Escócia, uma humilhação por 0-9 frente à Jugoslávia e uma derrota por 0-3 com o Brasil.
Agora, uma nova geração de jogadores espera reescrever a história. Caso se qualifiquem, a RD Congo integrará um grupo com Portugal, Uzbequistão e Colômbia, sendo que o primeiro adversário seria a Seleção Nacional. «O objetivo é competir e fazer uma boa exibição, não apenas participar», afirmou Zakuani, que é atualmente treinador adjunto dos sub-20 do país.
Instabilidade política
Desde a sua qualificação em 1974, como a terceira nação africana a chegar a um Mundial, a RD Congo, um país vasto e rico em recursos, tem assistido a rivais como o Gana, Senegal e Tunísia a marcarem presença regular no evento. A instabilidade política, a corrupção e a guerra são apontadas como as principais razões para este afastamento.
A seleção da República Democrática do Congo, conhecida como os Leopardos, procura um lugar no Mundial enquanto o país enfrenta uma grave crise interna. O futebol surge como um escape e uma fonte de união, apesar das dificuldades que afetam tanto a população como as próprias estruturas desportivas.
O sucesso da equipa nacional, que alcançou o play-off intercontinental da FIFA, é visto por muitos como uma lufada de ar fresco. Tuanzebe, um dos jogadores, descreve o futebol como algo que «dá um sopro de ar fresco ao país», enquanto Yoane Wissa, avançado do Newcastle, esperava que a campanha na CAN permitisse aos afetados pela violência «sorrir um pouco».
O percurso dos Leopardos até esta fase foi notável. Terminaram em segundo lugar no seu grupo de qualificação, atrás do Senegal, e depois superaram um play-off africano de quatro equipas, vencendo os Camarões e, na final, a Nigéria nos penáltis.
Jogadores nacionalizados
A chave para o sucesso recente tem sido o recrutamento de jogadores da diáspora, uma tática também usada por outras nações africanas como Cabo Verde. No plantel atual de 26 jogadores, convocado pelo selecionador francês Sebastien Desabre, dez nasceram em França, cinco na Bélgica, dois na Suíça e um em Inglaterra. Apenas oito nasceram no Congo, e muitos cresceram na Europa.
Exemplos disso são o defesa Tuanzebe e o seu colega Aaron Wan-Bissaka, ambos antigos internacionais jovens por Inglaterra. «Não tive dúvidas. Assim que cheguei, eles receberam-me, aceitaram-me, fiquei feliz e tudo tem corrido bem desde então», disse Wan-Bissaka, do West Ham, durante a recente CAN em Marrocos. «É de onde os meus pais são. Cresci num lar congolês e senti-me orgulhoso por representá-los.»
Apenas dois jogadores do plantel, o médio Meschak Elia e o avançado Fiston Mayele, jogaram em clubes seniores congoleses. Akengelaka explica que «muitos jogadores talentosos têm de ir para o estrangeiro muito cedo» devido à «organização instável, financiamento insuficiente e pouca cobertura mediática das competições a nível nacional».
Apesar de tudo, os jogadores sentem o peso da responsabilidade. «Somos muito privilegiados por ter tudo o que precisamos. Não nos falta nada e isso permite-nos dar o nosso melhor», admitiu Tuanzebe. «Este é um daqueles momentos em que isto é maior do que apenas futebol, é deixar um legado, um momento na nossa história que iremos sempre recordar e valorizar».