Radiografia inconveniente
Comecei a jogar futebol, como federado, em 1972, no então Campeonato Nacional de Juvenis. Arrumei as botas (ou as luvas, melhor dizendo…) em 1989, após 13 épocas na I Divisão Nacional. Imediatamente depois, iniciei uma carreira no jornalismo (quase 37 anos!) , o que significa que, nos últimos 54 anos (pelo menos, porque comecei muito antes a frequentar os estádios), fui observador atento e privilegiado do fenómeno desportivo. Quando oiço os argumentos usados pelos clubes, em cada final de temporada, clamando injustiça e apontando o dedo aos árbitros, sinto-me em casa. Francamente. Porque nada mudou. Houve o 25 de abril, caiu o muro de Berlim, passámos por guerras, sobrevivemos a uma pandemia, a escolaridade em Portugal aumentou exponencialmente, ganhámos acesso a todos os jogos de futebol do Mundo (em 1972 haveria, por tradição, a transmissão das finais da Taça de Portugal e Inglaterra, a final da Taça dos Campeões Europeus, e ainda alguns diretos-surpresa, eufemisticamente tratados pela RTP como ‘reportagens do exterior’), e os argumentos, com algumas nuances, permanecem, na génese, os mesmos. As motivações, igualmente: com razão ou sem ela, pouco importa, relevante é tentar manter os árbitros sob pressão, ao mesmo tempo que são sacudidas do capote culpas próprias, para criar uma narrativa que desresponsabiliza os dirigentes perante os seus adeptos. Tendo a certeza absoluta de que a minha tese é altamente impopular, há uma verdade inconveniente que - especialmente num final de época - deve ser dita: nunca, como agora, houve tão poucos erros de arbitragem nos jogos de futebol e nunca, como agora, a arbitragem teve tão pouca influência no desfecho das partidas.
É perfeita? Não. Os árbitros e os VAR deviam ser melhores? Sim. Mas, contas feitas, graças ao escrutínio televisivo, às ajudas tecnológicas e, também, a uma preparação mais cuidada e uma maior indiferença aos ambientes (quem tiver dúvidas que faça contas aos pontos ganhos fora de casa antes e depois do VAR…), a verdade desportiva nunca esteve tão protegida como agora. E bem podem dizer que o protocolo do VAR tem de ser melhorado (e eu concordo); que os árbitros percebem pior o jogo do que os seus antecessores e no afã de não interromper o espetáculo não distinguem aquilo que é falta do que é simulação ou contacto legal (e eu concordo); que falta muitas vezes coragem aos VAR para darem melhores ajudas ao árbitro de campo (e eu concordo, até porque não têm a ‘desculpa’ de não terem visto). Mas podem ter a certeza de que o resultado global das arbitragens nunca foi tão positivo como agora.Creio que devo invocar o nome de alguém que, com meios reduzidos e muita coragem, foi pioneiro no escrutínio televisivo dos árbitros, há quase quatro décadas: Vítor Correia, ex-árbitro internacional, dissecava, com rigor, a arbitragem dos jogos que tinham resumos no Domingo Desportivo da RTP, e esse foi o momento em que os árbitros perceberam que, pela primeira vez, havia um elemento que levava às massas (e os colocava, amiúde, em xeque) os erros que tinham cometido em campo. Passaram a ser mais cautelosos, o que não evitou ‘os quinhentinhos’, mas criou condições para que depois dos ‘Apitos’ surgissem gerações diferentes, para melhor.É verdade que há clubes com legítimas razões de queixa de decisões dos árbitros e indecisões do VAR; mas também é verdade que agora, pelo menos, a opacidade da arbitragem já não é tão densa, e pelo menos chegam ao exterior as classificações de ‘muito satisfatório, satisfatório ou insatisfatório’. Ainda sobre o tema da arbitragem, creio que merecem alguma reflexão os discursos, sobretudo dos dirigentes, quando se dizem injustiçados (ainda no sábado o FC Porto disse ‘cobras e lagartos’ do árbitro do jogo do Dragão com o Famalicão, e a análise de Pedro Henriques ‘apenas’ detetou como falha grave uma grande penalidade por assinar contra os portistas e a subsequente expulsão de Zaidu, nos instantes finais da primeira parte).
Quando tal sucede, é bom que se entenda que não estão a falar, em primeiro lugar, para os adversários, para os árbitros ou para os responsáveis da arbitragem. Isso vem por acréscimo. O alvo da mensagem são os seus próprios adeptos, perante quem pretendem justificar, com culpas alheias, os insucessos próprios. Sei que sempre assim foi e acredito que continuará a sê-lo, umas vezes pintado de azul, outras de verde, outras de encarnado.Mas antes de dar por encerrado este capítulo, regresso à ideia inicial, que muitos, porque não lhes dá jeito, não querem ver: embora a arbitragem em Portugal continue a ter erros, muitos dos quais escapam ao entendimento e não podem ficar sem consequências, nunca, como agora, os jogos se aproximaram tanto da verdade desportiva. Graças, em larguíssima escala, ao VAR, que ainda tem muito para andar, na sofisticação tecnológica e na qualificação de quem o maneja, mas que evita os desmandos de um passado marcado pela falta de vergonha e pela impunidade.
O AMBIENTE NO DESPORTO
O Desporto, em Portugal, será aquilo que os seus dirigentes quiserem. Tanto pode ser uma atividade que provoque paixões, mas mantenha linhas vermelhas entre adversários e inimigos; ou pode ser uma espécie de faroeste, onde ande tudo aos tiros, tornando cada modalidade uma vítima colateral, pelo afastamento de quem não se quer ver associado a tais comportamentos. As escolhas são simples. Até agora, pese embora as mudanças geracionais, não é possível dizer, infelizmente, que o clima se tornou menos tóxico; e, pior ainda, por mais audiências governamentais que ocorram, não se vislumbra que venha a ser diferente. Nada mudará se os dirigentes dos clubes não tiverem uma vontade, fundada em convicções fortes, para que tal suceda. Alguém vê essa vontade de pacificação? Não creio. Continua a prevalecer o sentimento de clã, que não pode, por ser crime de lesa-majestade, manter uma relação urbana com os demais clãs. Quem perde? O Desporto, e entre as várias modalidades aquela que tem maior visibilidade, o futebol. Há tanto para fazer no sentido de otimizar processos e procurar gerar um produto vendável fora de portas, que crie sustentabilidade, e tão poucos progressos, que torna inevitável que se olhe para o processo com escasso otimismo. Os clubes não existem para serem ‘amigos’, mas sim ‘rivais’. E essa rivalidade não pode fazer com que se tornem em agentes de discórdia na nossa sociedade, lançando portugueses contra portugueses. Não é essa a linguagem inclusiva do Desporto.
Com toda a franqueza, já que não será com apelos aos princípios e aos valores que a pacificação irá ser uma realidade, sempre pensei que a viabilização de uma indústria forte do futebol haveria de criar condições para o estabelecimento de uma plataforma mínima de entendimento. Porém, com as dificuldades que estão à vista de todos no processo da venda centralizada dos direitos televisivos; com o imobilismo que impede a requalificação dos quadros competitivos, hipotecando as hipóteses de termos uma classe média saudável; e com o crescendo de animosidade (palavra ‘simpática’ face ao que se tem visto) que se verifica, por mais que os três grandes e o ‘D’Artagnan’ SC Braga, conquistem pontos europeus, não daremos o salto qualitativo de que necessitamos, e que a qualidade dos nossos jogadores e treinadores justifica.
PS - Felizmente que, em 1995, o acórdão-Bosman criou condições para que os nossos melhores jogadores passassem a crescer em ambientes competitivos de excelência, municiando assim a Seleção Nacional de meios para estar entre as melhores do Mundo. Algo que não sucederia se a clubite continuasse a inquinar as escolhas e a dividir os adeptos no que toca àquela que é a ‘equipa de todos’ nós. Não é por acaso que no século XX estivemos em três Europeus e dois Mundiais, e no século XXI temos o pleno de presenças nas maiores competições internacionais para Seleções.