Há explicações plausíveis para as reviravoltas de Sporting e SC Braga nas competições europeias - Foto: Miguel Nunes
Há explicações plausíveis para as reviravoltas de Sporting e SC Braga nas competições europeias - Foto: Miguel Nunes

Quando o impossível deixa de ser hipótese e passa a comportamento

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de João Lameiras, psicólogo do desporto e da 'performance'. Certificado em Saúde Mental no Desporto de Elite pelo Comité Olímpico Internacional. Cocoordenador do livro Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo (PACTOR Editora)

Durante os dias que antecederam os recentes jogos europeus de Sporting e SC Braga, a narrativa era clara: «É possível, mas improvável». A desvantagem de golos trazida da primeira mão colocava as equipas portuguesas numa posição onde o discurso racional assentava na factualidade dos números. E, no entanto, ambos os jogos foram outra coisa, quase um exemplo pedagógico de como, em determinados contextos, a performance não se explica apenas pelo talento ou pela tática, mas pela forma como uma equipa constrói, sustenta e protege a crença.

As reviravoltas históricas operadas na segunda mão foram a materialização de um estado coletivo muito específico: intensidade sustentada, compromisso total com o plano e, sobretudo, uma relação funcional com a pressão. Equipas que entram presas ao resultado, ao passado recente ou à dimensão do desafio tendem a colapsar cognitivamente: decisões mais lentas, menor clareza e maior rigidez comportamental. Pelo contrário, quando existe um alinhamento entre intenção, execução e significado, a performance tende a libertar-se.

O que se viu no terreno de jogo foi precisamente isso: equipas que não jogavam contra o resultado, mas em prol de um objetivo. A intensidade inicial, o volume ofensivo e a persistência, mesmo quando o tempo corria, sugerem que o foco não estava no «e se não acontecer?», mas no «como fazemos para continuar?». Esta mudança de foco é central em contextos de alto rendimento.

Curiosamente, este tipo de desempenho é muitas vezes romantizado como épico, quando, na realidade, resulta de processos muito concretos. A crença não surge espontaneamente na noite do jogo, mas constrói-se ao longo do tempo através de experiências acumuladas, de liderança consistente e de um enquadramento psicológico que permite aos atletas lidar com a incerteza e a pressão sem bloquearem. É a diferença entre motivação momentânea e preparação estrutural.

Contudo, reduzir os desempenhos de excelência a que assistimos apenas a uma questão de crença, isoladamente, constitui uma explicação redutora. Isto porque esta não pode ser entendida como um pensamento positivo descontextualizado, mas como um output de processos consistentes — preparação técnica, rotinas mentais estruturadas e evidências acumuladas de competência. Quando ancorada nestes processos, a pressão é reinterpretada de ameaça para desafio, deixando de ter um efeito paralisante e passando a funcionar como um catalisador de desempenho. Nesse estado, o atleta utiliza a ativação fisiológica a seu favor, canalizando a atenção para a execução em vez de se deixar capturar pela ansiedade.

É também aqui que o jogo ganha uma dimensão coletiva mais profunda. Porque o rendimento de uma equipa, nestes contextos, não resulta apenas da soma das competências individuais. Resulta da forma como essas competências são organizadas, alinhadas e reguladas em tempo real. E isso depende, em grande medida, da qualidade do ambiente interno — do clima que se constrói, da forma como se lidera e do modo como se comunica.

Neste ponto, o papel da liderança, e em particular do treinador, torna-se central. Jogos desta natureza não se preparam apenas do ponto de vista tático. Exigem igualmente um enquadramento psicológico claro, consistente e orientado para a superação. Rui Borges e Carlos Vicens conseguiram recentrar as equipas no que era controlável: o comportamento, a execução e a continuidade. Em vez de amplificar o peso do resultado a recuperar, houve uma orientação para o processo. Este tipo de liderança não elimina a pressão, mas ajuda a organizá-la e reinterpretá-la.

Para além disso, a liderança manifesta-se também na forma como se gere o jogo em tempo real — nas decisões, nos ajustes e na comunicação constante com a equipa. É essa presença reguladora que permite evitar oscilações abruptas e manter uma linha comportamental coerente ao longo dos 90 minutos (e além deles).

Também é relevante olhar para o papel do contexto. Um estádio cheio, um ambiente emocionalmente carregado e uma narrativa coletiva de possibilidade — tudo isso pode alavancar a performance. Mas apenas se a equipa tiver recursos internos para o transformar em energia funcional. Caso contrário, transforma-se em pressão desorganizadora.

Há um conceito frequentemente discutido na psicologia do desporto e da performance que ajuda a explicar estes momentos: a capacidade de manter a ação orientada para o processo em cenários de elevada exigência. Não é ignorar o resultado, mas evitar que ele domine a execução. Quando isso acontece, abre-se espaço para aquilo que muitas vezes descrevemos como momentum — não como algo místico, mas como a consequência de uma sequência de comportamentos consistentes que reforçam a perceção de controlo.

Estes jogos são um exemplo claro de como a performance de elite depende tanto de fatores psicológicos quanto técnicos e físicos. E, sobretudo, como esses fatores são treináveis, estruturáveis e integráveis no funcionamento de uma equipa.

Há uma tendência para classificar estas noites como «inexplicáveis». Mas talvez seja mais rigoroso dizer que são difíceis de antecipar, não de compreender. Porque, quando analisadas com mais detalhe, revelam padrões consistentes: a forma como a equipa entra em jogo, como gere os momentos críticos e como sustenta a sua identidade ao longo do tempo.

São esses padrões que tornam o improvável executável.

É precisamente esse tipo de fenómenos, a forma como equipas lidam com a pressão, como constroem estabilidade e se superam, que têm vindo a ser analisados na Psicologia do Desporto, incluindo em trabalhos recentes como Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo (PACTOR Editora). Não na perspetiva de encontrar fórmulas mágicas para feitos como estes, mas de compreender os mecanismos que aumentam a probabilidade de acontecerem e de os potenciar.

Porque, no desporto de alto rendimento e no futebol em particular, o que diferencia as equipas é a forma como aprendem a relacionar-se com o omnipresente impossível e esta perspetiva é fascinante.