Quem escorrega também cai: ao Benfica faltaram 30 metros (crónica)
Tal como se esperava, a Juventus teve uma entrada de leão. Com um estádio ruidoso e inteiramente afeto às cores bianconeras, a equipa de Luciano Spalletti sentiu-se empurrada para a baliza de Trubin e canalizou o jogo para o seu melhor jogador, procurando que Kenan Yildiz aparecesse sempre em situação de um para um contra Dedic e fizesse aquilo que sabe fazer melhor: sair da esquerda para o meio e usar o excelente remate de pé direito. Aos 9’ obrigou Trubin a ótima defesa com a mão esquerda e aos 18’ o turco seria novamente protagonista de lance similar, mas com o tiro a sair ao lado.
Só que não demorou muito ao Benfica para encaixar-se na formação italiana. Em boa verdade até coube às águias o primeiro remate de relativo perigo (Sudakov, fora da área, aos 8’ para defesa com algum aperto de Di Gregorio) e esse terá sido o gatilho para que a partir do quarto de hora a formação portuguesa se tornasse dona e senhora do jogo.
Yildiz começou a perder protagonismo em proporção ao crescimento de Prestianni no jogo. O argentino ora mostrava as garras nas ações defensivas ora conduzia muitas transições quase sempre com bom critério, o que foi enervando a Juventus, perdendo muitas bolas em zonas demasiado recuadas face à pressão cada vez mais subida do Benfica. Que por pouco não deu resultado: aos 23’, Schjelderup recuperou bola à entrada da área, permitiu o remate forte de Sudakov para defesa apertada de Di Gregorio e na recarga Lloyd tirou o golo a Pavlidis. Era a melhor oportunidade dos encarnados.
Até ao intervalo foi um domínio total da equipa visitante, que nunca permitiu liberdade a Miretti, o segundo avançado que nunca teve tempo nem espaço para servir de apoio a um muito isolado Jonathan David. Mérito de Aursnes e Leandro Barreiro. Faltou, porém, aquilo que diferencia as grandes equipas das médias: materializar a superioridade com um golo. Prestianni andou perto num remate fora da área, mas não passou disso.
Tudo muda em cinco minutos
Mas se a segunda metade da primeira parte foi toda das águias, o arranque do segundo tempo foi ainda mais vincado: a pressão na Juventus foi uma constante, o Benfica ganhou muitas bolas no último terço e aos 50’ Pavlidis apareceu mais uma vez em zona de finalização, vendo o seu remate desviado para canto.
Aqueles cinco minutos foram, no entanto, uma espécie de aquecimento para a equipa da casa, que efetuara uma mudança estrutural ao intervalo: saiu Miretti, entrou Francisco Conceição e McKennie passou para a zona do segundo avançado. Aos 56’ deu-se o primeiro sinal de uma enxurrada que estava para vir: num primeiro desequilíbrio pelo corredor direito, Conceição abriu alas e a bola acabou no remate de McKennie superiormente defendido por Trubin.
O campo mudava drasticamente de inclinação e a variável em que a equipa italiana é muito mais forte que o Benfica (os duelos físicos) veio ao de cima: Tomás Araújo perdeu na disputa de bola com Jonathan David, a bola sobrou para Thuram e o disparo do francês não tinha defesa possível: 1-0, o estádio foi abaixo, o clima gélido dava lugar a um vulcão.
Mesmo tendo mais posse de bola (51%), o Benfica perdeu referências e equilíbrio demonstrados até então. E mais uma vez a força impôs-se num duelo: Aursnes perdeu no confronto físico com McKennie e numa tabela curta com Jonathan David o americano apareceu na cara de Trubin para o 2-0.
José Mourinho tentou então mudar qualquer coisa. Tirou os já apagados Schjelderup e Sudakov (pulmão só para uma hora), fez entrar Barrenechea e subiu Leandro Barreiro à medida que também proporcionou o ingresso de Ivanovic. Aursnes ainda ameaçou com um cabeceamento ao poste, mas a carga dramática surgiria nos pés de Pavlidis, ao escorregar na execução de um penálti por carga sobre Leandro Barreiro. Faltavam ainda cerca de 10 minutos para o fim. Um lance de tão invulgar (como aquela falha no Dragão, de baliza aberta) quanto revelador do que foi esta Champions para os encarnados: uma soma de erros, infelicidade e sobretudo aquilo que marcou o futebol português há umas décadas e que parecia em extinção: faltam 30 metros ao Benfica.