O Egito vai defrontar a Costa do Marfim nos quartos de final
O Egito vai defrontar a Costa do Marfim nos quartos de final - Foto: IMAGO

Quartos de final: Jogos Grandes

Acácio Santos, antigo adjunto da seleção da Nigéria, analisa em A BOLA a Taça das Nações Africanas (CAN)

Os quartos de final são o território onde o jogo deixa de ser coletivo durante noventa minutos e passa a ser decidido em momentos curtos, específicos e irreversíveis. A estrutura conta, o plano orienta, mas os dados mostram que, nesta fase, quem melhor decide sob pressão segue em frente.

A preparação para os quartos de final é um dos momentos mais desafiantes para nós, treinadores. O que fazer em termos de trabalho de campo? Reparem: temos vários jogadores com níveis de fadiga elevados e a prioridade passa a ser a recuperação. Os jogadores mais fatigados são, muitas vezes, os que estão melhor emocionalmente — e esses não podemos tirar. E, no meio de tudo isto, temos de treinar.

Aqui, a dimensão física ganha um relevo diferente. Não se trata de treinar fisicamente, mas de deixar que o estado fisiológico dos jogadores determine o conteúdo do treino. É essa dominante que condiciona o plano diário. E há uma certeza absoluta: os jogadores em melhor momento competitivo são precisamente os que exigem maior cuidado na gestão física.

Feito este enquadramento, partilho uma leitura dos jogos dos quartos-de-final.

No Mali vs Senegal, o Mali apresenta um perfil muito claro: menos posse, mas uma das melhores taxas defensivas do torneio, concedendo poucos remates enquadrados. Yves Bissouma é central neste equilíbrio, liderando em recuperações, duelos ganhos e passes verticais. Do lado do Senegal, Sadio Mané continua a ser determinante. Mesmo sem grande volume de ações, a equipa cria mais situações de finalização quando ele está em campo, sobretudo nos primeiros vinte minutos, fase crítica em jogos a eliminar.

Camarões vs Marrocos é, para mim, uma final antecipada. Os Camarões sustentam-se muito no poder do meio-campo, onde André-Frank Anguissa é a peça-chave. Lidera a equipa em duelos ganhos, metros progredidos com bola e equilíbrio nos momentos de pressão. Marrocos apresenta um perfil distinto: organização sólida e poucas ocasiões concedidas. Achraf Hakimi destaca-se não apenas pelos números ofensivos, mas pela capacidade de acelerar ou pausar o jogo conforme o contexto exige.

No Argélia vs Nigéria, os dados mostram equilíbrio, mas com nuances claras. A Argélia privilegia posse e controlo, com Riyad Mahrez a liderar em passes para finalização criada. A Nigéria é das seleções mais letais em transição ofensiva, precisando de poucos toques para chegar à baliza. Victor Osimhen é o jogador que mais faltas provoca no último terço, condicionando toda a organização defensiva adversária.

Por fim, Egito vs Costa do Marfim traz um peso histórico e emocional enorme. O Egito apresenta baixos níveis de erro não forçado, com Mohamed Salah a manter uma das melhores médias de ações decisivas por jogo. Do outro lado, a Costa do Marfim cresce nos duelos e nas chegadas à área, muito por Franck Kessié, líder em intensidade e impacto físico.

Os números confirmam aquilo que o jogo mostra: nesta fase, avançam as equipas que unem eficácia defensiva, controlo emocional e capacidade de decidir em poucos momentos.