Poeira e conferências a mais

Não me deixo levar por vagas sucessivas de boatos, fantasias e pretensas análises imparciais que só o são para os mais incautos

NÃO que esteja satisfeito com alguns momentos do futebol do Benfica. Não que me agradem certas decisões. Não que esteja seguro de determinadas opções técnicas. Sem prejuízo da minha exigência crítica, não me deixo levar, todavia, por vagas sucessivas de insinuações, boatos, fantasias, meias-verdades, falsas notícias, pretensas análises imparciais que só o são para os mais incautos e distraídos, tudo orientado para confundir o balneário, diminuir a sua coesão, pôr em causa a equipa técnica, desviar a atenção para o acessório, e até influenciar critérios da arbitragem.

Muitas dessas coisas não passam de palermices ou devaneios. Ora é a namorada do Morato que escreve uma boutade no facebook, ora é a companheira de Neres que digita uma vulgaridade ambígua, ora é o próprio Neres que não foi saudar os adeptos no fim do jogo em Barcelos (o que, aliás, é mentira), ora é Di Maria que reclama não ser substituído, ora é Odysseas que foi substituído (curioso que quem andou meses a fio a dizer que o Benfica não tinha guarda-redes à altura, agora entende que ele é um enorme guarda-redes), ora é o João Mário que sai de cara amuada, ora é o pai de Schjederup que disserta sobre o seu rebento, ora é o treinador criticado na época passada por ter apostado num só onze e, esta época, criticado por não o fazer, ora é Schmidt que era louvado por ir direito aos assuntos, e que agora comunica mal, etc., etc.

Não nos deixemos intoxicar pela lengalenga (por vezes sofisticada e rebuscada) de maldizer, aliás, obrigatória no que ao Benfica diz respeito, para subir as audiências televisivas.

Neste contexto, continuo a pensar na inutilidade das chamadas conferências de imprensa dos treinadores. Não me refiro às que se seguem às partidas, que são um modo de prestar contas sobre o que se passou. Mas às de antevisão dos jogos da Liga, feitas de lugares comuns  e que nada acrescentam. O seu ritual é falar sempre das dificuldades de enfrentar o adversário, mesmo que seja o “Carcavelinhos”. Depois, sucedem-se perguntas que pouco têm que ver com o motivo da conferência. Um exemplo: foi assim que, na conversa de antevisão do jogo com o Estrêla, Schmidt acabou por comentar o jogo anterior no Bessa. Falou de Odysseas (“não foi o melhor dia dele, para ser sincero. Ele fez muitos bom jogos, acho que contra o Boavista ele podia ter feito melhor”). De seguida, a frase foi tomando novas formas ou foi truncada, daí resultando uma catadupa de sôfregas e labirínticas análises. Já agora qual é o mal de comentar um jogador pelo seu desempenho? Será que os atletas tão bem remunerados não podem ser avaliados publicamente, como se fossem sensíveis bonecas de porcelana imunes à crítica?


FOLHA SECA
Musa e ‘musas ve(a)ríssimas’

MUSA, o do Benfica, não tem nenhuma musa protectora, mas Eustáquio, o do Porto, tem uma musa que o protege. Não Calíope, a da bela voz, não Tália que faz desabrochar flores, antes uma musa como Euterpe, a doadora de prazeres por via da flauta, ora substituída por um desafinado apito de um tal Veríssimo travestido desta musa.

O homem mostrou os devaneios da sua música de silvo. Uma música incompetente, enviesada, sobranceira e apalermada de quem consegue não ver o que é visto (agressões) e ver o que ninguém viu (um penálti). Um assombro de incapacidade da qual terá resultado muito provavelmente uma vitória do clube que, nos minutos iniciais, teria perdido um jogador por via amarela dupla, ou por via vermelha directa e, que, na segunda parte, deixou em campo um jogador que ensanguentou a face do seu oponente. O protegido Eustáquio conseguiu o milagre de terminar o jogo sem um singelo cartão amarelo. O pobre Rafa que se fartou de apanhar porrada, esse sim, teve o “merecido” cartão! É obra! Curiosamente, esta musa arbitral é sobejamente conhecida por usar e abusar das cartolinas para punir meras aragens ou subtis toques em adversários. Com excepções, claro…

Imagino o que teria sido se Eustáquio fosse do Rio Ave e também passasse incólume. Bondosos “explicadores quânticos” virariam algozes de pelourinho e a musa do Dragão seria Melpómene, a da tragédia, representada por uma máscara e calçando pitons (perdão, coturnos), que acusaria Olisipona de todas as malfeitorias. Bendito Veríssimo que, em sintonia perfeita com um ignoto varíssimo, evitou tal desenlace e ofereceu em bandeja de ouro 3 pontos ao FCP, que podem valer um campeonato e milhões de euros! Um nojo. Uma fraude. Não haverá modo de erradicar estas incompetências degenerativas? Nada acontece a este infractor compulsivo?


JOGOS FLORAIS

Liga Conferência: no top 10 da UEFA, os clubes portugueses foram os únicos a cair...
(título no Público)

O fosso

Ainda não é desta que um clube nacional se estreia na 3ª divisão das provas da UEFA. O Vitória foi eliminado por um desconhecido Celje da Eslovénia (367º do ranking!) e o Arouca pelo 232º classificado, o norueguês Brann. Mais uma machadada no ranking do país, numa avassaladora consequência do fosso entre os grandes clubes (notável o Braga na Champions!) e a “posta-restante”. Como habitualmente, assobiamos para o lado e resignamo-nos à quase nula atractividade mercantil do campeonato.


FAVAS CONTADAS
Tempos de compensação

Nem 8 nem 80. Agora, o futebol quase tem uma miniterceira parte, com fartos minutos de compensação. Sujeitos ao livre arbítrio de quem decide, nem sempre são justificados. Passou a fazer parte da correcção política do futebol, exagerar nos descontos e nos descontos sobre os descontos, dando-se à especulação em função de quem joga e de quem está a perder ou a empatar.


FOTOSSÍNTESE

ATLETISMO E CANOAGEM. Regalei-me durante uma semana com a transmissão dos Mundiais de atletismo num belo estádio na não menos bela Budapeste. Excelente torneio e grandes provas, com um saudável companheirismo entre competidores. Brilhante, como sempre, a narração e os comentários de Luís Lopes. Pena a pobreza da nossa representação, que, privada de P. Pichardo, evidenciou o desinvestimento na modalidade. Ao invés, na canoagem brilhámos, com Fernando Pimenta a aumentar o seu pecúlio medalheiro e a dupla João Ribeiro e Messias Baptista também com o ouro.