Pelé e Maradona (IMAGO)
Pelé e Maradona (IMAGO)

Pelé, Maradona e... Ronaldo

E se a 23 de junho, frente ao Uzbequistão, Ronaldo se transformasse em Pelé, João Cancelo em Carlos Alberto e Vitinha em Maradona?

De repente, voltou a falar-se de Pelé e de Maradona. Ambos mortos. Ambos deuses da relva. Ambos sul-americanos. Ambos campeões do mundo. Ambos no grande Azteca. Por aquele famoso estádio passaram outros grandes nomes em fases finais de Mundiais. Em 1970, por exemplo, brilharam naqueles 7.140 metros quadrados nomes como o uruguaio Mazurkiewicz; os italianos Facchetti, Mazzola, Riva e Rivera; o peruano Cubillas; os alemães Maier, Schnellinger, Beckenbauer, Seeler e Mueller; os ingleses Moore, Charlton e Hurst; ou os brasileiros Carlos Alberto, Jairzinho, Tostão e Rivellino.

Dezasseis anos mais tarde, em 1986, foi a vez de outros grandes futebolistas brilharem no mítico Azteca: os italianos Bergomi, Cabrini, Scirea, Conti, Altobelli ou Vialli; o sul-coreano Bum-kun Cha; o argentino Valdano; os belgas Pfaff, Gerets, Van der Elst, Vercauteren, Scifo ou Ceulemans; os mexicanos Hugo Sánchez e Negrete; o paraguaio Romero; os ingleses Shilton, Hoddle, Beardsley ou Lineker; os alemães Schumacher, Magath, Matthaus, Rummenigge, Voeller ou Littbarski.

De fora, deixámos os dois maiores: Pelé e Maradona. A 21 de junho de 1970, na final do Mundial, no Azteca, Pelé fez a assistência para aquele que é considerado o golo coletivo mais perfeito da história do futebol. A bola foi recuperada por Tostão, Clodoaldo driblou quatro italianos num espaço curtíssimo antes de a passar a Rivelino, que faz um passe profundo para a corrida de Jairzinho pela lateral. Este arrasta a defesa ao fletir para o meio e passa a bola a Pelé. O génio dos génios está parado. Aguarda uns instantes (ao vivo, deverá ter parecido um século) e, sem olhar para a direita, deixa a bola rolar, com suavidade, na direção de Carlos Alberto. O capitão brasieiro aparece sozinho na direita e desfere um remate forte, cruzado e rasteiro, sem hipótese para Albertosi: 28 toques e 30 segundos para a eternidade: golaço, golaço, golaço. Ainda hoje, 56 anos depois, se fala dele. Do golo, da jogada, do remate e da calma budista do sr. Edson Arantes do Nascimento.

Dezasseis anos mais tarde, foi a vez de outro génio dos génios: Maradona. A 22 de junho, nos quartos de final do Mundial, no Azteca, num Argentina–Inglaterra, Maradona marcou dois golos históricos. Primeiro, numa jogada em que tentou colocar a bola em Valdano à entrada da área, esta acabou por chegar a Hodge, que a aliviou em arco para a sua própria área. Shilton saiu da baliza e, como todos sabemos, Maradona saltou e, com o punho esquerdo, fez golo. Não havia VAR — e foi golo. Pouco depois, Maradona recebeu a bola de Héctor Enrique (hoje seria considerada assistência) e iniciou uma corrida de mais de 50 metros em que, como um barrilete cósmico, passou por quatro ingleses (duas vezes por Butcher) e, à saída de Shilton, desviou a bola com o pé esquerdo para o fundo da baliza: golaço, golaço, golaço.

No Mundial de 1970 foi a 21 de junho; no Mundial de 1986, a 22 de junho; e no Mundial de 2026 haverá um Portugal–Uzbequistão a 23 de junho. Não espero menos que um golaço coletivo de Portugal ou uma jogada individual em que a bola corra mais de 50 metros. João Neves recupera a bola, mete-a em Vitinha, que dribla quatro adversários e a cede a Bruno Fernandes. Lançamento longo para a corrida de Bernardo Silva, compasso de espera e bola em Cristiano Ronaldo. O génio dos génios está parado. Aguarda uns instantes (ao vivo, vai parecer um século) e, sem olhar para a direita, deixa a bola rolar, com suavidade, na direção de Cancelo: golaço, golaço, golaço. Outra hipótese é Vitinha receber passe de Gonçalo Inácio (conta como assistência) antes do círculo central, fintar quatro adversários e, à saída do guarda-redes, marcar golo. Terceira possibilidade seria CR7 fazer golo com o punho esquerdo, mas, infelizmente, há VAR em Hostoun.