Pedro Gonçalves, ex-selecionador de Angola, em entrevista a A BOLA. Foto: Miguel Nunes

Pedro Gonçalves: «Ary Papel? Mais do que perder um jogador perdi um amigo»

Segunda parte da entrevista de Pedro Gonçalves a A BOLA... Ex-selecionador de Angola faz balanço de seis anos nos Palancas Negras... E fala da polémica que marcou o seu consolado

- Descreva-nos a sua relação com Ary Papel, antes e depois da polémica entrevista do jogador, que o acusou de negociar a convocatória com empresários e de ter dito que consigo nunca mais aceitaria jogar por Angola?
- Foi com absoluta surpresa que ouvi as suas declarações. Não foi justo, nem leal, nem muito menos honesto. Sinceramente, mais do que perder um jogador, perdi um amigo, pois tinha por ele estima e amizade, que pensava eu ser recíproca. Afinal não era. No futebol, como na vida, é seguir em frente.... A competitividade foi aumentando e novos valores que são o presente e o futuro dos Palancas Negras foram evidenciando mais competência, ainda assim tinha uma relação pessoal e profissional muito boa com ele. 

- Como define a sua relação com Alves Simões, presidente da FAF, e se mudou quando o demitiu de selecionador? 
- Sempre fui leal com o País e com a federação. Pautei as minhas ações e intervenções diárias pela dedicação, respeito, honestidade e transparência com todos os intervenientes sem exceção. Tenho um imenso orgulho do trabalho que realizei no meu percurso de sete anos e meio com as seleções de Angola, em especial pelos seis anos de Palancas Negras.  

- Que leitura faz do regresso dos 'proscritos' logo na primeira convocatória pós Pedro Gonçalves?
- Sempre tive uma linha orientadora, que apesar das múltiplas vicissitudes mantive com coerência, deu os seus frutos e lançou a base para os próximos anos dos Palancas Negras serem de crescimento e sucesso. Quanto ao demais, não me vou alongar, qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe.   

- Como é que define a sua passagem por Angola e pela FAF e o que, na sua opinião, deu ao país e aos angolanos com o seu trabalho? 
- Destaco sobretudo o resgate da unidade, orgulho, entusiasmo e alegria contagiante do povo angolano em torno dos Palancas Negras.O trajeto foi longo, envolveu a deteção de jovens talentos, o seu desenvolvimento e a promoção ao mais alto nível desportivo. Em conjunto, a agregação das mais valias desportivas da diáspora em assumirem representar a nação angolana com honra e compromisso. Uma nova perspetiva de presente e futuro abriu-se para os Palancas Negras, e muito me honra ter sido um ativo interveniente nesse percurso. 

- Descreva-nos, na sua perspectiva, o seu percurso... 
- Neste trajeto, desde abril de 2018, fomos campeões da COSAFA de sub-17 pela primeira vez, vencemos a CPLP na modalidade de futebol, voltámos ao pódio na COSAFA com os sub-20, fomos ao pódio na CAN e consequentemente conseguimos o apuramento para o campeonato do mundo com os sub-17. Nos Palancas Negras, apurámo-nos duas vezes consecutivas para a fase final da CAN, a última das quais a melhor qualificação de sempre, qualificámo-nos duas vezes para a fase final do CHAN, fizemos a melhor CAN de sempre, em 2024 fomos a seleção mundial com maior ascensão no ranking, consubstanciando o facto de termos sido a seleção com mais vitórias oficiais no decorrer desse ano. Feitos relevantes? Vencemos duas edições consecutivas da Taça COSAFA. Longo trajeto com mais de 100 jogos por todas seleções masculinas de futebol, sendo 77 dos quais na equipa principal, pelo que sou o selecionador com mais jogos e com mais vitórias nos Palancas Negras. Em suma, uma evolução substancial no potencial desportivo, consubstanciada no ranking mundial e no valor de mercado dos elementos constituintes dos Palancas Negras. 

- Está feliz no seu novo projeto na Tanzânia? Fale-nos sobre isso...  
- O Young Africans tem um projeto ambicioso para o futuro e acredito que com estabilidade e mantendo a linha orientadora, num espaço de até 5 anos, vai atingir o topo do futebol africano. O Young Africans é um clube de uma elevada dimensão. A Tanzânia é um país que ama o futebol. A liga interna é muito competitiva e quase todos os clubes possuem jogadores internacionais. O campeonato é muito competitivo e a experiência da Liga dos Campeões foi fantástica. Na fase de grupos calhámos com três campeões africanos provenientes do norte de África. Foi mesmo por muito pouco que surpreendíamos o continente com a nossa qualificação, mas ficam as aprendizagens e o crescimento desportivo. Por tudo isto e ainda, pela intensidade e envolvimento competitivo regular, estou muito satisfeito.