Carlos Barroca: «Acho que vale a pena mudar, tentar e experimentar outros caminhos»
Em dezembro, Carlos Barroca escolheu A BOLA para apresentar a intenção de candidatura a presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol e disse, na altura, que iria percorrer o país e falar com as pessoas para saber e sentir, para além das suas ideias, aquilo que procuravam.
— Neste momento, faltam dias para as eleições aos órgãos sociais, que serão no sábado, e às quais concorre igualmente João Carvalho, atual secretário-geral da FPB. Por isso, chegou a altura de saber o que sentiu das pessoas e do país do basquetebol que contactou. Que necessidades têm, para além do que apresentou?
— Senti uma distância muito grande entre aquelas que são as diversas realidades e assimetrias no nosso país. Acho que tem que haver uma preocupação real de diminuir essas assimetrias, utilizá-las para beneficiar o crescimento da modalidade e não para o empobrecer, porque não pode haver, em circunstância alguma, portugueses de primeira e portugueses de segunda, ou um basquetebol de primeira e de segunda. A qualificação tem que vir em todas as áreas. Não se pode prejudicar ninguém, mas tem que se encontrar formas de achar um equilíbrio maior para que não haja tanta diferença entre o basquete do litoral e o do interior. Há bons exemplos de gente no interior que está a trabalhar muito bem e está motivada, mas é preciso motivar ainda mais.
Andar pelo país e perceber as dificuldades de quem está nas associações e nos clubes do interior — a falta de quadros e tudo isso — tem que servir de estímulo e não de desligamento.
— Mas essa diferença entre o litoral e o interior, e também face aos grandes centros urbanos, é quase uma diferença do país, não é só do basquetebol. E é igualmente uma dificuldade extra para quem estiver no desporto e à frente de uma federação, pois ela não é exclusiva da modalidade.
— Sim, mas essa constatação tem que ser uma oportunidade e não uma oportunidade perdida. Andar pelo país e perceber as dificuldades de quem está nas associações e nos clubes do interior — a falta de quadros e tudo isso — tem que servir de estímulo e não de desligamento. Não podemos aceitar que ‘é assim porque é assim’. Isso remete talvez para a primeira pergunta que fez: perante as grandes diferenças, ou tentamos mudar e fazer coisas diferentes, ou então aceitamos o fatalismo. E quem me conhece sabe que não aceito essa do ‘é assim porque foi sempre assim’. Acho que vale a pena mudar, vale a pena tentar e experimentar outros caminhos, seja de gestão financeira, seja de gestão humana, seja de projeto, para que não se esvazie mais quem tem menos condições em prol dos grandes centros.
Os grandes centros têm que ser motivados da mesma forma, mas de maneiras diferentes. Tem que haver uma configuração equitativa na distribuição dos recursos da Federação, sejam financeiros ou humanos. É verdade que nos centros mais urbanos é mais fácil ter esses recursos humanos, o que não acontece no interior, agora, isso não pode ser motivo para desligar a ficha, mas deve ser motivo para atualizar formas diferentes de chegar aos mesmos objetivos, que é o crescimento.
Existe, não direi uma luta, mas um contraste entre quem quer manter o status quo e continuar da forma que está. 'Porquê mudar se isto está bem assim?'. O meu desafio é pôr as pessoas a pensar se aquilo que está bem para elas é o que é melhor para a modalidade. Portanto, nesse aspecto, foco o meu pedido de transparência.
— Sentiu mais a ideia de que o basquete deve continuar uma evolução a partir deste patamar que se atingiu — e quando falamos de basquetebol, tanto pode ser alta competição e Seleção, como a formação — ou essas pessoas procuram mais uma mudança em que o caminho deixe de ser este? ‘Chegámos até aqui, mas agora vamos continuar por outro caminho’?
— O sistema federativo, seja em que modalidade for, tem poderes instalados, logicamente. E os poderes instalados normalmente querem continuidade. Agora, há uma parte que quer continuidade e há outra que quer a mudança. Obviamente que, neste sistema eleitoral, muitas das pessoas que querem mudança não têm capacidade de votar, porque isto não é uma votação popular, mas de 61 delegados, no máximo, se todos tomarem posse. Portanto, existe, não direi uma luta, mas um contraste entre quem quer manter o status quo e continuar da forma que está. 'Porquê mudar se isto está bem assim?'. O meu desafio é pôr as pessoas a pensar se aquilo que está bem para elas é o que é melhor para a modalidade. Portanto, nesse aspecto, foco o meu pedido de transparência.
Há uma educação e respeito mútuo por parte das duas candidaturas, mas acho que há um respeito pela modalidade que, havendo mais do que uma candidatura — neste caso até há três, porque a arbitragem tem uma candidatura independente —, tornaria nobre e honrado para a modalidade que as pessoas dialogassem de uma forma transparente sobre os problemas do basquetebol. Porque aquilo que uns sabem e têm convicção, outros também sabem; e no debate de todos, quem ganharia seriam não só os delegados, mas o basquetebol em geral, como modalidade que sempre foi líder em Portugal e que queremos que volte a ter esse papel no desporto.
Aconteça o que acontecer nas eleições, há novos delegados, novos formatos, mas há um formato que continua, que é o da relação da Federação com as instituições, nomeadamente com as associações, que são uma extensão da própria Federação. As leis eleitorais são o que são. Mudar, na minha opinião, é preciso.
— Não sei se percebi bem, mas disse que sente que há certos delegados que querem a continuação, mas, na sua ideia, isso não reflete o universo daquilo que eles representam. Querem a continuidade, mas existem pessoas desse lado que pretendem a tal mudança?
— A qualquer pessoa que pergunte essa questão, ela vai responder-lhe da mesma maneira. Quem tem determinados poderes instalados quer mantê-los e não equaciona sequer mudar, porque mudança significa renovação para todos. Quem quer a mudança não tem, muitas vezes, o privilégio de poder acioná-la porque não vota. Existe um contraste que é curioso. E, aconteça o que acontecer nas eleições, há novos delegados, novos formatos, mas há um formato que continua, que é o da relação da Federação com as instituições, nomeadamente com as associações, que são uma extensão da própria Federação. As leis eleitorais são o que são. Mudar, na minha opinião, é preciso. O que não significa que a outra parte também não queira mudar. A verdade é que, de certa maneira, ela está lá há bastantes anos e faz parte de algo que é também o passado. Agora, o passado é passado, o futuro é futuro, e esse só podemos construí-lo de forma diferente, porque se for para fazer a mesma coisa, estamos a repetir o passado e não é esse o meu objetivo.
Seria para esclarecer coisas que o basquete precisa de ver esclarecidas. O que é o buraco de 1 milhão de euros? A que é que se deve, de uma forma objetiva, e qual é a resposta? Cortar ou crescer? Mas crescer de maneira diferente e com conceitos diferentes. Aquilo que fiz, por exemplo, a responder a isso foi ficar na expectativa. Se havia alguma indicação: ‘Ok, temos um problema. Qual é a solução?’.
— Nesta parte final da sua campanha, sinto que a primeira fase foi muito focada em ouvir as pessoas, sem aparecer tanto a falar. Mas agora houve dois momentos marcantes nestas últimas duas semanas. Um foi ter-se mostrado bastante preocupado com as contas da Federação. Quer falar sobre isso?
— Preocupado porque gostava de ter mais informação. Daí a questão do debate, que vem sempre à história. Apesar de faltarem poucos dias, gostaria imenso. E não tem a ver sequer com o conceito de ver quem ganha ou perde. Seria para esclarecer coisas que o basquete precisa de ver esclarecidas. O que é o buraco de 1 milhão de euros? A que é que se deve, de uma forma objetiva, e qual é a resposta? Cortar ou crescer? Mas crescer de maneira diferente e com conceitos diferentes. Aquilo que fiz, por exemplo, a responder a isso foi ficar na expectativa. Se havia alguma indicação: ‘Ok, temos um problema. Qual é a solução?’.
É claro que, do ponto de vista financeiro, a solução é cortar. Do ponto de vista de desporto, é gerir adequadamente, mas não cortar naquilo que é importante no desporto e na gestão de uma máquina que mexe com tanta gente. Gerir os sonhos das pessoas, dos atletas, dos treinadores, das associações que querem continuar a crescer. Nessa matéria, consegui em pouco tempo reunir um número de patrocinadores que me permite anunciar que temos 6 milhões de euros para investir no desenvolvimento e crescimento da modalidade nos próximos quatro anos. E isto é o objetivo. São entidades que gostam de basquetebol, gostam do Carlos Barroca, gostam da minha equipa, atribuem credibilidade ao projeto e estamos em condições de avançar.
Uma das coisas que a nossa lista sempre disse, desde o princípio, é que temos que aumentar a qualificação de todos os elementos. Sejam clubes, treinadores, dirigentes ou juízes — toda a gente no basquetebol deve aumentar a qualificação.
E não foi a única novidade. A outra foi a Casa do Basquetebol. Mais uma vez, a credibilidade de uma câmara municipal, com um presidente, Fernando Caria, que jogou basquete, que está num município [Montijo] que tem tido um crescimento fantástico nos últimos anos e tem o sonho para a sua edilidade de ter um projeto de qualidade e dimensão. Nesse sentido, são duas medidas estruturantes. A questão, por exemplo, da localização equidistante dos dois potenciais aeroportos — um já existe, o outro existirá, esperamos nós. A questão do centro de estágio com 180 camas para servir as equipas que vêm a Lisboa jogar e que, em vez de ficarem em sítios com certeza mais caros, podem ficar no centro de estágio do basquetebol. Treinar, alimentar-se, dormir de uma forma muito mais competitiva do ponto de vista financeiro. São regalias para as seleções, centros de estágio e treino, são regalias para um centro de excelência, com uma sala com 500 lugares para conferências e para trabalho de formação. Isto porque uma das coisas que a nossa lista sempre disse, desde o princípio, é que temos que aumentar a qualificação de todos os elementos. Sejam clubes, treinadores, dirigentes ou juízes — toda a gente no basquetebol deve aumentar a qualificação. Se queremos ser melhores, temos de estar mais qualificados. Portanto, este é um centro de excelência para tudo isto.
São todos baseados em grupos que apoiam o crescimento e o desenvolvimento. Não há, neste momento, nada que tenha a ver especificamente com as seleções, mas são meios que nos permitem ter mais recursos para o desenvolvimento e podermos utilizar os recursos existentes na Federação para continuar essa tarefa de desenvolvimento
— Quando falou da quantia dos patrocinadores que estão dispostos a avançar, eles estão relacionados com a Seleção, com as ligas, com a formação… A que nível é que estão dispostos a fazer esse investimento, porque nem tudo é igual?
— Crescimento e desenvolvimento do jogo de forma muito específica. Duas delas estão relacionadas com o basquetebol 3x3. São pessoas que gostam da festa que o 3x3 gera em torno do país, e a aposta dessas duas empresas é criar as condições para que se vá a todos os distritos, inclusive Açores e Madeira, no sentido de o Circuito Nacional de 3x3 ser verdadeiramente um circuito nacional. As outras têm a ver com áreas específicas. Uma com os Açores, outra com o interior do país, porque esse patrocinador é de lá e faz questão que o seu capital seja utilizado para desenvolver esse interior. São todos baseados em grupos que apoiam o crescimento e o desenvolvimento. Não há, neste momento, nada que tenha a ver especificamente com as seleções, mas são meios que nos permitem ter mais recursos para o desenvolvimento e podermos utilizar os recursos existentes na Federação para continuar essa tarefa de desenvolvimento, porque isso não acaba nem nos Açores, nem no interior.
Tenho pensado muito nessa primeira medida. Credibilizar as pessoas do basquete, credibilizar o produto basquetebol e o sentido positivo que a educação e a relação com a escola têm de ter com o jogo.
— Uma última pergunta. Se ganhar no sábado, qual é a primeira coisa que acha que é mais urgente tratar? O que vê como prioritário?
— Tenho pensado muito nessa primeira medida. Credibilizar as pessoas do basquete, credibilizar o produto basquetebol e o sentido positivo que a educação e a relação com a escola têm de ter com o jogo. Nem toda a gente que pratica vai ser profissional. Queremos jogar mais e melhor, e qualificar; ter uma pipeline para termos melhores jogadores mas, na base de todo o processo, temos que inverter o sentido de educação de todos: jogadores, treinadores, pais, juízes. Todos os que estamos à volta temos de credibilizar o jogo e não destruí-lo.
Nota: Nos últimos meses, A BOLA pretendeu fazer uma entrevista semelhante com João Carvalho, mas este recusou sempre, em mais de uma ocasião, por ter a «agenda ocupada» e na última vez nem respondeu ao pedido.