João Neves e Vitinha, dois dos 15 jogadores do PSG no Mundial, em competição praticamente ininterrupta desde o Mundial de Clubes de 2025 - Foto: Imago
João Neves e Vitinha, dois dos 15 jogadores do PSG no Mundial, em competição praticamente ininterrupta desde o Mundial de Clubes de 2025 - Foto: Imago

Os limites dos limites

'O lado invisível' é o espaço de opinião em A BOLA de Rui Lança, diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

O Mundial de 2026 representa mais do que uma simples mudança do formato competitivo. Com mais seleções, mais jogos, mais dias de competição e disputado em diferentes contextos competitivos, deixou de ser apenas um evento importante para se tornar uma extensão da lógica de funcionamento e rendimento dos clubes, com os principais atores sujeitos a mais jogos, mais treinos e cada vez menos tempo de paragem, nem que seja apenas para não fazer nada.

A Seleção Nacional, tal como era conhecida, onde os jogadores se encontravam de tempos a tempos, concentrada e dependente de curtos períodos de preparação, mudou para um modelo quase contínuo de gestão do rendimento, partilhado com os clubes.

Hoje, as seleções não se limitam a convocar jogadores para os jogos. Passam elas próprias a gerir atletas ao longo de ciclos prolongados, monitorizam cargas, antecipam fadiga, gerem orçamentos elevados, recursos humanos e planeiam microciclos com base em informação contínua. E, fruto das obrigações e dos objetivos que têm, que não são apenas desportivos, qualquer federação pretende ter sempre os seus melhores jogadores disponíveis, mesmo para encontros de reduzida importância competitiva.

Para se ter uma ideia, existem 15 jogadores do Paris Saint-Germain que estão em competição praticamente ininterrupta desde o Campeonato do Mundo de Clubes disputado nos Estados Unidos, em 2025. Jogaram a final frente ao Chelsea e, poucos dias depois, já preparavam a Supertaça Europeia. Dos 16 jogadores do PSG convocados para este Campeonato do Mundo de 2026, 15 já tinham estado ao serviço do clube francês nessa competição, um ano antes. Do lado do Chelsea, são 10 os jogadores presentes neste Mundial, com a vantagem de não terem disputado a Supertaça Europeia a 13 de agosto, embora tenham iniciado a Premier League apenas poucos dias depois.

Este Mundial, realizado em três países e em condições climatéricas muito diferentes, surge num contexto de saturação física sem precedentes. As temporadas dos clubes são mais longas, os calendários internacionais mais densos e a introdução de novas competições, como o Mundial de Clubes expandido, acrescentou mais uma camada de desgaste.

O futebol é uma das modalidades coletivas mais exigentes do ponto de vista fisiológico. A duração dos jogos, a intensidade das ações, as distâncias percorridas, a exigência física, o risco de lesão e a sucessão de competições fazem com que os atletas terminem cada época acumulando níveis de fadiga cada vez mais elevados.

Os clubes procuram responder a este desafio através de plantéis mais profundos e com maior qualidade, naturalmente, aqueles que o conseguem suportar financeiramente. Já as federações olham com preocupação e pouca tolerância para a indisponibilidade de alguns atletas ou para a resistência dos clubes em libertarem jogadores para jogos considerados menos relevantes, uma vez que também dependem das receitas provenientes dos direitos comerciais, da publicidade, do marketing e da organização de jogos. E no final do dia, o recurso mais valioso continua a ser o mesmo, o atleta e a sua disponibilidade física e mental.

É verdade que as federações evoluíram para organizações profissionalizadas, com departamentos técnicos especializados, unidades de performance, equipas médicas, analistas e estruturas comparáveis às dos melhores clubes. Também elas enfrentam desafios semelhantes aos dos clubes, desde o planeamento estratégico à cultura organizacional, passando pela gestão de processos e de recursos humanos. No fundo, vivem igualmente da capacidade e necessidade de produzir resultados desportivos.

Neste cenário, a performance neste Mundial deixou de depender apenas da qualidade técnica ou tática. A gestão da carga tornou-se um fator competitivo. Este Mundial é uma prova de talento, mas também, uma prova na capacidade de gerir pessoas, recuperação e rendimento ao longo de vários dias. As equipas que conseguirem preservar melhor os seus atletas estarão claramente em vantagem.

A evolução das seleções não pode, por isso, ser separada da transformação das federações. O sucesso vai depender das estruturas, do planeamento estratégico e dos departamentos especializados na performance, em que as áreas do marketing, comunicação e desenvolvimento vão a reboque.

Também nas seleções, o talento isolado deixou de ser suficiente para garantir rendimento sustentado. No limite, o Campeonato do Mundo de 2026 não será conquistado apenas pelos melhores jogadores. Tal como acontece nos clubes, será conquistado pelas estruturas mais preparadas, capazes de transformar um calendário extremo num sistema competitivo eficiente, resiliente e sustentável.

No meio disto, há uma ideia forte e que tem de ser alvo da maior preocupação e foco de todos: a densidade competitiva. Com menos dias entre jogos, menos semanas de férias, viagens constantes, alterações constantes de fuso horário, diferentes temperaturas e humidades, menos tempo para treinar, mais tempo necessário para a recuperação e maior exigência mental pela pressão permanente.

Isto vai aproximar o futebol de modalidades como a NBA ou a Fórmula 1, onde a gestão do calendário é uma vantagem competitiva. O futebol está a aproximar-se do limite da capacidade biológica dos atletas. Já não se trata de saber quantos jogos conseguem fazer, trata-se de perceber qual o rendimento que conseguem manter quando praticamente deixam de existir períodos reais de recuperação. É uma perspetiva mais diferenciadora e sustentada do ponto de vista científico do que a simples contagem de jogos.

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