Jogar por Portugal é o maior reconhecimento que qualquer jogador pode ter - FOTO: WILLIAM VOLCOV/IMAGO
Jogar por Portugal é o maior reconhecimento que qualquer jogador pode ter - FOTO: WILLIAM VOLCOV/IMAGO

Há uma realidade no futebol moderno que me preocupa. Equipas que só despertam quando estão a perder, jogadores que apenas aumentam a intensidade quando sentem o resultado em risco. Como se a frustração fosse o gatilho para competir.

Este Mundial volta a mostrar-nos isso. Bélgica, Inglaterra e outras seleções revelaram momentos em que a urgência do resultado libertou uma versão mais intensa das suas equipas.

A pergunta é inevitável. Porque não competir assim desde o primeiro minuto?

Enquanto treinador, esta é uma reflexão que me acompanha há muitos anos. A psicologia distingue a motivação extrínseca da motivação intrínseca.

A primeira depende do exterior: do resultado, das críticas, dos elogios, dos prémios ou do medo de perder.

A segunda nasce do interior: do compromisso, do orgulho, da responsabilidade e da vontade permanente de melhorar. É esta que procuro desenvolver.

Um jogador que representa a sua seleção nacional não pode depender de estímulos externos para competir. O privilégio de vestir a camisola do seu país deveria ser, por si só, uma fonte inesgotável de motivação.

Competir por Portugal, pela Nigéria ou por qualquer outra seleção é um dos maiores reconhecimentos que um jogador pode alcançar. Quem chega a esse nível não pode esperar pelo sofrimento para encontrar energia.

No alto rendimento, a excelência não pode depender das circunstâncias. Tem de depender da identidade.Da disciplina. Do compromisso com a equipa. Da exigência consigo próprio.

A motivação externa pode iniciar um comportamento. Mas raramente o sustenta. É a motivação intrínseca que permite manter a concentração quando tudo corre bem e continuar a trabalhar quando ninguém está a olhar. Por isso acredito que uma das maiores responsabilidades de uma equipa técnica não é fazer grandes discursos antes dos jogos.

É construir uma cultura onde cada treino tenha significado, cada tarefa tenha intenção e cada jogador compreenda profundamente porque faz aquilo que faz. Porque, no final, a verdadeira liderança não cria dependência. Cria autonomia.

Afinal, o treinador não existe para motivar permanentemente. Existe para ajudar o jogador a construir uma motivação que sobreviva à sua ausência.

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