Os adeptos portugueses têm acompanhado de perto a campanha portuguesa no Campeonato do Mundo das Américas — Foto: IMAGO
Os adeptos portugueses têm acompanhado de perto a campanha portuguesa no Campeonato do Mundo das Américas — Foto: IMAGO

Os dois pés numa galera — a contra-crónica do um alternativo Portugal-Croácia

Nota: este artigo mantém a forma original com que foi publicado na edição impressa do jornal A BOLA. Foi escrito antes de o jogo se realizar.

Quando este texto lhe chegar às mãos, o caro leitor saberá muito mais do que eu possa sequer ter conhecimento quando pressiono à vez cada letra deste teclado. Sabe o resultado, se Portugal passou ou não aos benditos oitavos, se sim como o conseguiu ou, se não, como foi capaz de falhar rotundamente no jogo e nos seus objetivos. Como foi capaz estragar alguns momentos da nossa vida, enquanto os amaldiçoamos por terem gasto o nosso investimento sobretudo emocional, e terem ido passar férias, sem brio ou um pingo de atitude, em vez de deixarem a pele em campo.

Tem argumentos, o leitor, numa escala só sua, para acreditar que se fez ou não uma boa exibição, e ainda se lembra de quem marcou os golos ou de quem teve culpa, se houve, nos sofridos. Aquele que, se não fosse ele, nada feito ou o que dormia em pé, qual burguês novo-rico, que engoliu há muito, não resistindo à gula, a fome de vencer. E, mesmo assim, esta é uma contra-crónica do jogo que poderia ter sido.

O pouco que sei é que o mais provável é que, madrugada dentro cá, noite cerrada em Toronto, se misture canícula com água quente a jorrar de alguma piscina sem manutenção no Olimpo. Troveje e se jogue ao pára-arranca como nos acessos às grandes cidades nas horas de ponta. Se eventualmente correu mal, amigos, então aí há forte probabilidade de a tempestade ganhar para a história o nome de Roberto. Com toda a justiça, reconheça-se. Ele veio mesmo para deixar marca.

Portugal é muito melhor do que esta envelhecida Croácia e, desta vez, os jogadores deixaram-se possuir por aquela arrogância positiva que o técnico desdenhava nas palavras e nos atos. Primeiro, porque se a Seleção estiver envelhecida é porque assim quer, porque não fez a transição a tempo de uma nova geração começar a lidar de forma natural com a responsabilidade e a dimensão que o nosso futebol já possui. Todavia, há muito mais talento individual, ainda que isso não queira dizer tudo, como bem sabemos.

É uma Croácia a esticar, para lá do seu limite elástico, o fim de ciclo, sobretudo em Modric e Perisic. Não pressiona alto. Não ataca em bloco. É frágil no jogo interior com bola, deixa espaço nas entrelinhas sem esta e desmonta-se em quadradinhos na transição defensiva. Corro o risco de acharem que me alimento a sarcasmo, porém acredito que qualquer treinador que viesse para esta partida iria trazer um plano. E que a maior parte, em tese, iria levar a melhor. Os que são amigos de si próprios acredito que escolham a equipa que os deixe mais próximos da vitória.

Tenho a certeza de que Don Roberto teve a sua epifania e imagino-o com as mãos na cabeça de um ajoelhado Cristiano, esse sim de queixo apoiado para não descair mais e a olhar no vazio, como uma criança a quem acabaram de roubar a bola e a atiraram para o telhado para o impedir de brincar. O treinador a tentar fazer com que compreenda, a desfazer-se em desculpas, entre meio-sotaque e meios-sorrisos, lutando contra a birra: «Ele defende melhor, pressiona mais, depois entras quando todos estiverem cansados e vais que ainda marcas um golinho ou dois. É melhor para o teu recorde. No pasa nada! Olha, o Messi… Pronto, pronto, esquece lá o Messi

O Rei de Copas levanta-se, abana a cabeça e repete para si próprio e para o quem quer ouvir, até para uma traça gigante, bem familiar, ao longe. «Assim não vamos lá!» Mas já poucos o ouvem. Nem Gonçalo Ramos, que talvez pense já no papel do ponta de lança no 3x4x3.

Atrás de Vitinha, alguém perde a vergonha e questiona. «Jogo eu, mister, certo?» Bernardo olha para o João Neves e faz o reparo. «E eu também! Vens Félix ou ainda estás a pensar no Simeone? Só precisamos de mais um e que o Ramos acorde. Neto, tu não és só bonito, é para jogar bonito! Se não, está aí o Trincão! Vamos, Bruno! Encontraste o tom? Glory, glory, ManUnited… Mister?»

«Ãh… Sim, claro, era o que tinha pensado. Tenho só aqui dez vídeos para mostrar sobre como travar o Baturina e… Onde é que vão todos?» «Não se preocupe, ele é que tem de nos travar a nós!» Isso, garanto, já não percebi quem disse. Mas as paredes tremeram com o grito de guerra. Os adeptos pensaram talvez que tinha sido outro raio.

Portugal pressionou desde o início com 11 jogadores e o bloco baixo croata sofreu muito. Sutalo e Pongracic só conseguiam bater longo. A Modric nunca deixaram a bola descoberta. Kovacic teve de recuar para ajudar, mas é mais homem para levar a bola do que para organizar. Vitinha é tão bom rapaz que ainda pensou de trocar de camisola para que o ídolo não se afundasse com os companheiros, na sua última dança. João Félix teve o espaço que muitos lhe negam e meteu Livakovic desde cedo em trabalhos. Ramos não finalizou com a certeza de Ronaldo, mas agarrou-se à sua força de vontade, moralizou-se a si próprio desde o ponto a que o deixaram cair e deu sempre mais um pouco na jogada seguinte. Foi sempre um apoio, um exemplo e os colegas também estiveram lá para ele. Bruno Fernandes caiu muitas vezes nos metros quadrados que libertava a cada sprint que fazia.

Com um colete de forças a esmagar-lhe o tronco, a Croácia não conseguiu sequer respirar para poder atacar. E quando o resultado ficou seguro, havia gente para controlar a bola. Com Bernardo perto de Vitinha e de Neves, com Bruno a ler nos companheiros o ritmo certo e a juntar-se ao festim, e Félix a segurar a bola de costas para a baliza ou a desequilibrar com um toque. Gonçalo a segurar mais à frente. Guedes a entrar para mudar o registo. Tal como Trincão ou Francisco. Com Leão pronto a morder e a ferir de morte com as suas arrancadas. E Ronaldo, agora sim, disponível para, com a música certa, ter uma dos seus últimos bailes.

Não sei se é bom augúrio ou não, mas chega agora um carro, de vidros abertos por causa do calor, com a música no máximo. Ai, Portugal, Portugal, de que é que estás à espera? Tens um pé numa galera e outro no fundo do mar! O onze já saiu, mas nem preciso olhar. Eu já vi tudo e tenho a certeza de que é este. E, por isso, lá vamos nós defrontar a Espanha nos oitavos de final.

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